Negação

Publicação: 2020-09-23 00:00:00
Carlos Eduardo Emerenciano
Advogado e arquiteto

Roma, primeiro século da Era Cristã. Imagino a seguinte cena para ilustrar este artigo: enquanto a cidade arde em fogo, com as labaredas se alastrando pelas colinas e bairros, um impávido Nero, segurando a sua cítara, nega a existência do incêndio, perante espectadores confusos que não sabem em que acreditar: no que os seus olhos veem ou no que afirma o seu Imperador.

Não há novidade. A negação sempre foi uma postura política presente ao longo de toda a História.

Muitos alemães, antes que o terror do holocausto se impusesse ao mundo com toda a sua miséria e barbárie, negavam a existência dos campos de concentração.

Da mesma forma, os soviéticos e os simpatizantes daquele regime ao redor do mundo faziam vista grossa diante dos gulags e do extermínio de milhões de pessoas. 

Não é nada diferente, por exemplo, do que ocorre nos Estados Unidos da América. Diante de mais de 200 mil mortes, o presidente Trump afirmou que o combate ao coronavírus naquele país é um dos mais bem sucedidos do mundo. Nega a realidade fazendo biquinho. Faz da negação uma política de estado.

Aqui no Brasil, ocorre o mesmo. Já são mais de 135 mil mortes e o presidente de cá, igual ao de lá, nega de pé junto que o nosso país esteja sofrendo com a pandemia. Os milhares de mortos devem ser, por acaso, miragem.

Por falar em fogo, o Pantanal arde. As cenas são estarrecedoras. Onças pintadas, jacarés, tamanduás-bandeira, capivaras, entre outros bichos daquela riquíssima fauna, padecem e morrem em consequência das queimadas que maltratam a região. O trio, presidente, vice e ministro do meio ambiente, nega a gravidade da situação.

Lembrei-me, diante de tanta negação, de um discurso de Afonso Arinos, logo após o atentado que vitimou o Major Vaz. O brilhante orador traçou um paralelo entre verdade e mentira para, no fim, questionar o presidente Getúlio Vargas: “serão mentiras, senhor presidente, o luto, a viuvez e a orfandade?”.

Pois bem. Poderíamos nos apropriar do questionamento de Afonso Arinos e repetir a pergunta aos presidentes Trump e Bolsonaro: “serão mentiras, senhores presidentes, o que os nossos olhos veem e o que os números registram?”.






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