Nei e a literatura dos anos 80

Publicação: 2020-07-05 00:00:00
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Woden Madruga 
woden@tribunadonorte.com.br

A semana foi de remexidas nas gavetas dos papéis desarrumados. Numa delas, logo no primeiro lance, encontro uma carta de Nei Leandro de Castro enviada do Rio de Janeiro, outubro de 1980. Mas antes de me chegar às mãos o envelope caiu na caixa de correios da casa vizinha, pois estava escrito assim: “Woden Madruga A/C de Luís Carlos Guimarães – Rua Heráclito Vilar, 863”. O poeta maior, o queridíssimo Lula, morava quase defronte, travessia de umas trinta passadas da minha morada, até hoje.   Nei começa falando sobre a literatura brasileira dos anos de 1975 a 1980, tendo como mote o escritor amazonense Márcio Souza. Também é citado o baiano Antônio Torres que foi quem apresentou a Nei o primeiro livro de Márcio, “Galvez, Imperador do Acre”. Vamos à carta:

“Rio, 23.10.80.
Woden velho de guerra,

Estou lendo a matéria da página 91 da ISTOÉ desta semana: “Os EUA se curvam ao Imperador do Acre”. Me lembrei logo de você, que gosta do Márcio Souza tanto quanto eu - aproveitei para te escrever, coisa que não faço há séculos. A esta altura, você também já leu a matéria e senti a mesma alegria que senti. Márcio é a maior revelação de romancista do Brasil dos últimos anos (e bote anos nisso).

Senti isso, como uma explosão, quando li o livrinho mal impresso, publicado em Manaus, a 1ª edição, trazida pelo Antônio Torres. Meses depois, quando as grandes editoras descobriram o livrinho, foi aquilo que todos nós acompanhamos: uma edição atrás da outra, todo mundo maravilhado e agora também os States. Nada mais justo. Acredito que “Mad Maria” (um romance com toda a estrutura de um romance americano) também vá fazer um puta sucesso por lá. Mas prefiro muito mais o “Galvez”, uma obra-prima da ficção brasileira em todos os tempos.

Já o “Mad”, apesar de muito bom, tem coisas que me chateiam. Por exemplo, o tom adjetivoso, muitas vezes usado sem propriedade. Outro: o descuido da linguagem em alguns trechos, que faz o primarismo conviver com momentos de gênio. Tenho pra mim que o Márcio escreveu o “Mad” com um olho nos leitores americanos. Se não me engano, vai estourar no Norte, não só pela grandeza do livro e do autor, como também por certos condimentos made in USA que Márcio pôs na narrativa do romance, talvez propositadamente. Claro que essas coisinhas não invalidam a obra. Um dia vou ter a oportunidade de dizer essas coisas ao Márcio (já trocamos correspondência, logo no início da carreira de “Galvez”), se é que agora eu vou ter acesso a ele...

Bom, meu querido, Galvez e Márcio foram também um motivo para eu escrever e contar um negócio que eu já devia ter contado a você: a cirurgia que Assunção fez na Simone. Olha, cara, através de você conheci uma dessas pessoas cuja espécimen anda em extinção. Assunção Macedo fez por mim o que só um grande amigo faz pelo outro. Claro que você teve influência decisiva nisso, pois a gente – Assunção e eu – mal se conhecia. Simone operou-se na sexta-feira passada, com toda a equipe de Assunção, na Beneficência Portuguesa. Não cobrou um centavo nem deixou que ninguém de sua equipe quisesse um tostão. Puta merda, isso me comove, esses gestos me desarmam totalmente! Fico sem jeito, toda minha timidez vem à tona. Não sei nem o que dizer.

É, meu velho, você está diante de um pai comovido.

Mais um assunto para terminar, porque tem serviço pra cacete me esperando. A minha volta à Natal foi adiada. Com certeza já não será em 81, pois houve um fato novo na Caio, quando cheguei de férias: fui convidado para me tornar acionista da empresa, sem entrar com dinheiro. Claro que aceitei, né? Agora passo a ser, a despeito das convicções políticas, o mais novo capitalista de minha geração... Olha, a informação é só pra você, não vá me dedurar pelo jornal, viu? Assim sendo vou esperar pra ver como se é capitalista, ter participação numa S.A. etc., etc.

Mas mesmo assim o plano de volta continua de pé. Um dia desses, juro, mesmo depois do convite, tive vontade de vender tudo e voltar. Cheguei a entregar o apartamento a uma corretora, a anunciar a venda da casa de Maricá, uma loucura que quase funde a cabeça da Sandra! Só ontem, tendo desistido do negócio consegui me livrar dos corretores, que queriam uma compensação pela desistência. Sei que essa impulsividade eu vou carregar comigo sempre: são loucuras do Mad Nei que coexistem comigo.

Um grande abraço do amigo de sempre. E muito obrigado!

Nei”

Bacharéis de 1960
Na mesma gaveta de cima encontrei um bilhete de Eider Toscano de Moura, o prezado e saudoso “camarada” Eider. Fala sobre as comemorações dos 25 anos da colação de grau da segunda turma de bacharéis da Faculdade de Direito de Natal, da qual ele fazia parte:
“Natal, 04 de dezembro de 1985.

Prezado amigo W.M.:

Pedimos divulgar a comemoração do 25º aniversário da nossa turma – “Amaro Cavalcanti” -, concluinte da antiga Faculdade de Direito;
Formavam a turma: Armindo Guedes da Silva, Francisco Fausto Paula de Medeiros, Ivan Meira Lima, Kerubino Procópio de Moura, Pedro Rodrigues Caldas, Geraldo Fernandes de Oliveira, Francisco Freitas Lopes, Ivanaldo Lopes da Silva, Francisco do Couto Dantas, Henrique Ferreira Neto, Hélio Xavier de Vasconcelos, Eider Toscano e Moura, Osires Pinheiro e o saudoso Carlos Antônio Varela Barca, orador.

O evento será comemorado no Clube dos Magistrados, no próximo dia 07, com um jantar, às 21 horas. No mesmo dia, pelas 9 horas, será depositada uma coroa de flores no túmulo de Varela Barca, no Cemitério do Parque.

Antecipadamente, grato, o amigo Eider. ”

Paulo Macedo e Nixon
Noutra gaveta, entre uma dezena de cartões postais (saudades do tempo dos cartões-postais!), encontro um de Paulo Macedo. Andava por Nova York.  O postal, que mostra a Catedral de São Patrick, não está datado, mas, pelo conteúdo da mensagem, deve ter sido coisa dos anos de 1973, 74, governo do presidente Nixon (empurrado pelo escândalo do Watergate renunciou em 19 de agosto de 1974).  Vai na íntegra:

“Woden:

O assunto aqui em Nova Yorque é a crise da gasolina. Carro particular só tem direito a meio tanque a cada 24 h. Depois disto é a imagem negativa de Nixon. Todos os americanos esperando o momento da saída. Até nas lojas tem fotos dizendo “good bye Nixon”.

Hoje aconteceu uma danada comigo. Fui cortar o cabelo e o barbeiro perguntou se eu gostava do cantor Johnny Mathis. Eu disse que sim, pensando que era a voz. Resultado: ele cortou meu cabelo à moda do cantor e me liquidou.

Até,

Paulo”.