Neiwaldo Guedes: “Precisamos de mais agressividade”

Publicação: 2010-01-17 00:00:00
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Renata Moura Repórter de economia

A Copa do Mundo de 2014 colocou Natal na “vitrine do mundo’’, mas a cidade e o estado precisam se mexer para não perder a onda de investimentos esperada na esteira do evento. A análise é do empresário Neiwaldo Guedes, contador por formação e ex-executivo de banco que esteve no comando do Natal Convention & Visitors Bureau por dois mandatos, o último encerrado no dia 31 de dezembro. O empresário paraibano fincou raízes no Rio Grande do Norte em meados da década de 80 e conheceu de perto os desafios de aumentar a participação potiguar num mercado alternativo ao do “sol e mar”, o turismo de negócios e eventos, ferrenhamente disputado por Bahia, Ceará e Pernambuco. Agora, com as perspectivas que se abrem com o mundial de futebol, ele alerta que o estado pode deixar escapar oportunidades de crescer nessa briga, caso não invista em estrutura, qualificação e, em médio prazo, em um novo centro de convenções. Essas e outras necessidades são apontadas na entrevista a seguir. Confira:

A Copa do Mundo de 2014 colocou Natal na “vitrine do mundo’’, mas a cidade e o estado precisam se mexer para não perder a onda de investimentosQual foi o foco do Convention Bureau nos últimos quatro anos?

A entidade tem focado muito no turismo de negócios e eventos, até porque o turismo de lazer está consolidado há anos. Salvador descobriu esse nicho de mercado há 20 anos e Recife há mais tempo. Esses estados se distanciaram definitivamente dos períodos de baixa estação ao ocupar os hotéis com congressos, com feiras, com eventos nesse período.

E em Natal, quando o turismo de negócios e eventos foi descoberto?

Eu diria que de três anos para cá a cidade começou a investir nessa área, com o Convention Bureau estruturado para fazer a promoção e defender a candidatura da cidade como sede e com a ampliação do Centro de Convenções.

Por que a aposta nessa área do turismo demorou tanto ?

Não havia conscientização, principalmente do empresariado, da importância desse segmento. Eles se acomodaram com o turismo de lazer, voltado para o turista nacional e o internacional. O turismo de eventos ficou para um segundo momento.

E o que fez o empresariado despertar para essa necessidade?

Com a perda do turista internacional e a queda dos voos, o que está ocupando nossos quartos é o turismo nacional. O mercado brasileiro está muito aquecido, o pessoal está viajando bastante. Mas durante as férias. E Na baixa estação, como fica? Quem é que ocupa esses quartos? Foi diante disso que acordou-se para o turismo de eventos.

O que pesa contra e a favor do Rio Grande do Norte na disputa por um evento?

Os pontos fortes são ter uma das hotelarias mais jovens do Nordeste, proximidade dos hotéis com o Centro de Convenções, ter 12 mil assentos no Centro de Convenções, a proximidade da Europa, o que facilita a participação de palestrantes e congressistas de outros países. A logística de Natal é fácil, diferente do que ocorre em Recife, Salvador e Fortaleza, que são nossos maiores concorrentes. Agora, temos uma malha aérea deficitária. Temos que recorrer a fretamentos para cobrir a falta de aviões regulares e atender a demanda dos eventos. Falta também uma política mais agressiva de captação, mais recursos para que possamos trazer mais eventos.

Que vantagens os estados vizinhos têm sobre o RN?

Eles já estão consolidados. Têm conventions bureaus mais fortes, com mais recursos. Para você ter uma ideia, o orçamento do Convention Bureau de Recife é cinco vezes maior do que o nosso. Naturalmente eles têm mais condições de promover. Esses estados já criaram a cultura de receber eventos e estão mais aparelhados. Nós temos aqui excelente gastronomia, mas precisamos desde recursos humanos qualificados a empresas com tradução simultânea. Com o aumento do volume de negócios que estamos trazendo para Natal naturalmente as empresas estão investindo porque estão vendo um novo horizonte se aproximando.

Mas a capacidade de Natal para sediar eventos é suficiente ou já é preciso pensar em novos investimentos em estrutura?

Se continuarmos com essa agressividade na captação teremos que já começar a pensar em um novo centro de convenções. Um centro de convenções que comporte eventos de grande porte, que tenha um pavilhão maior para feiras. O pavilhão do centro de convenções de Recife tem 21 mil metros. O nosso tem 4 mil metros. Temos um centro de convenções de médio porte, para receber eventos de até 5 mil participantes. Então temos de começar a pensar em um grande centro de convenções. Por enquanto, estamos recorrendo a uma nova estratégia, que é tentar colocar os eventos menores, abaixo de 1.500 pessoas, dentro dos hotéis. É uma forma de desafogar a agenda do centro de convenções.

Já existe projeto para um novo centro de convenções?

Já houve discussões. A própria prefeitura de Natal já andou discutindo essa possibilidade de fazer o centro perto do Forte, onde ficou o canteiro de obras da ponte. A localização é excelente, porque continuaria no corredor do turismo. Mas se não for possível naquela região teremos que pensar em construí-lo na Grande Natal, em Parnamirim ou Macaíba, por exemplo. É preciso ampliar essa discussões porque um investimento desse é  acima de R$ 100 milhões.

Esse novo Centro seria uma necessidade de médio prazo?

Se você considerar cinco anos como médio prazo, já teríamos que ter, nesse intervalo, um novo centro de convenções. A copa de 2014 está chegando e muitos eventos virão em função da Copa. Natal começa a ser colocada como cidade com possibilidade para receber eventos internacionais. Nós temos hotelaria, mas precisamos de espaço. Se não tivermos isso em cinco anos vamos estrangular todo o trabalho que está sendo feito agora. Já captamos sete eventos internacionais, nossa participação nesse mercado ainda é muito tímida, mas já começamos a nos colocar nessas disputas.

Há diferença na forma de captar um evento nacional e um internacional?

Primeiro, as exigências para um evento internacional são muito maiores. A cidade tem que ter pessoas falando outros idiomas, as empresas que vão operar esse evento tem que estar com pessoal afinado no mínimo em inglês e espanhol. Alguns hotéis e empresas estão preparados, mas temos que investir muito em qualificação. Esse será outro ponto positivo da Copa. Vamos ter que preparar a cidade para receber o público da Copa e esse legado vai ficando para a captação de outros eventos.

Tem sido fácil “vender” Natal?

O turismo de lazer sim, mas a área de eventos ainda requer muitos investimentos.

Como evoluiu, nesses quatro anos, o número de eventos captados?

No primeiro ano captamos três eventos. No segundo, 12 eventos. Na somatória desses quatro anos e meio, captamos 58 eventos para Natal. Esses eventos vão deixar na nossa economia mais de R$ 200 milhões. A cada R$ 10 mil investidos na captação de um evento se consegue trazer R$ 10 milhões para a cidade. A proporção é mais ou menos essa.

Como esses recursos são distribuídos na cidade?

São deixados no hotel, no centro de convenções, no artesanato, em táxis. O turista de eventos deixa mais na cidade que o turista de lazer. Ele vem a trabalho e passa cinco dias na cidade, gastando na cidade. Uma pesquisa feita com os participantes do Congresso Brasileiro da Melhor Idade – cerca de 2 mil pessoas participaram do evento em maio de 2009, num período de baixa estação – realizado em Natal, mostra que eles gastaram cerca de R$ 800 mil nos nossos principais shoppings. O comércio é muito beneficiado. A média de gasto do turista de negócios é R$ 450 por dia. A do turista de lazer é 50% menos.

Em quanto tempo o  Convention Bureau e a captação de eventos em Natal vai chegar ao mesmo nível de cidades como Salvador?

Acredito que se continuar no ritmo dos últimos quatro anos, daqui a três anos chegaremos nesse nível. Mas teremos que investir no Convention Bureu para isso.

Que impactos a Copa de 2014 terá sobre o turismo e a captação de eventos no Rio Grande do Norte?

Esse impacto já está começando a ser percebido. Já temos carta de intenção de eventos como o da Câmara de Comércio Internacional, com sede na França, colocando Natal como possível sede do Encontro Internacional do Comércio. Nós vamos ter o Mundial de Basquete Master. Delegações de quase 50 países estarão em Natal. Isso também já é reflexo. A Copa já começa a colocar Natal na vitrine do mundo. Os investimento do governo federal em promoção também estão aumentando. O orçamento de turismo da Embratur para divulgação no exterior era de R$ 25 milhões e está passando para mais de R$ 130 milhões em 2010, o que vai fortalecer muito as 12 cidades sede. Os impactos são imediatos. Natal tem que se preparar com segurança, infraestrutura, mobilidade. Porque vamos ter um grande incremento de turistas.

Dados do Anuário 2009 da Embratur mostram que o número de turistas estrangeiros chegando ao Rio Grande do Norte caiu 35,37%, passando de 109.156, de 2007, para 70.541 em 2008. O que tem afugentado esse público?

Houve impacto forte com a desvalorização do dólar e do euro de 2007 para 2008. Num segundo momento a Europa entrou em crise. Isso provocou queda no fluxo estrangeiro não só em Natal, mas no Brasil. Mas Natal errou também. Alguns compromissos assumidos com operadoras de turismo lá fora não foram cumpridos. Compromissos como de apoio à promoção. Quando essas operadoras colocam um voo aqui precisam de apoio para promover o destino e encher o avião. Então alguns compromissos não foram honrados pelo Rio Grande do Norte. E isso trouxe algumas desconfianças e por isso foram quebrados alguns contratos.  Agora, o que desaqueceu no internacional aqueceu no nacional.

Algum motivo a mais contribuiu para afastar esse turista daqui?

Faltou uma política mais agressiva de promoção no momento da crise. Como houve a queda houve também um recuo na promoção, dois fatores que não combinam em negócios. Quando você está em crise precisa promover mais para recuperar o que perdeu.

Essa perda de estrangeiros é irreversível?

Acho que não. Mas temos que rever a política de promoção e recuperar o tempo perdido. O estado já tem feito isso, buscando outros mercados. O Leste Europeu, por exemplo. Porque se o espanhol e o português, por exemplo, estão em declínio, devemos buscar outras fontes. Se você pensar que 300 mil portugueses viajam para outros países, por ano, os portugueses já estiveram todos por aqui. Precisamos de outros mercados e ir em busca deles requer muito investimento e parceria do setor privado com o setor público. Acho que vamos reverter essa situação com a Copa. Tivemos uma porta escancarada para isso com esse evento.

A Embratur tem divulgado interesse em captar mais turistas de mercados como a Alemanha para o Brasil. Agentes de viagem alemães dizem, no entanto, que a distância e a falta de divulgação de estados como o RN no país inibem o interesse do turista. O trabalho de divulgação feito no RN é suficiente?

Eu defendo o trabalho de promoção em conjunto. RN, Paraíba, Pernambuco e Ceará precisam fazer um trabalho juntos para divulgar o Nordeste. Outra opção que defendo é vender o Brasil de forma diferente. É vender diversidade,vender dois lados diferentes do país. Você tem que criar parcerias. É muito mais fácil conseguir dinheiro do governo federal para divulgar um pacote em que você vem para o Amazonas e conhece também o Nordeste do Brasil. Aí você desperta o interesse de quem está na Alemanha para vir ao Nordeste. A Copa  também será positiva nesse sentido. Vai mostrar o país de ponta a ponta, de forma que o mundo não conhece.

Missões internacionais, como as que promovidas para Lisboa e Alemanha, são válidas para captar eventos?

São válidas, mas você tem que dar continuidade. Se não, elas morrem.

Os resultados são rápidos?

No mercado nacional, foram feitos workshops em convênio da ABIH com o governo do estado em shoppings do Rio de Janeiro e de São Paulo, mostrando Natal e o potencial de Natal em outubro, novembro do ano passado direto ao público. Isso deu resultado a partir de dezembro, quando já percebemos incremento de turistas dessas cidades por aqui.

E no caso da ação em Lisboa, que também foi feita em shopping, o senhor acha que já vamos sentir algum resultado nessa alta estação?

Eu acho que as estratégias para esse mercado têm que ser revistas. O mercado de Portugal está saturado para o RN. Muita gente já esteve aqui. Acho que temos que apostar em outros mercados, como está sendo feito no Leste europeu.

Então a ação foi um equívoco?

Essa ação envolveu vários setores, não só o turismo. Não diria que, com ela, vamos mudar o quadro que temos hoje, mas que foi uma ação importante para manter voos e estreitar a  relação entre Natal e Lisboa em outros setores.

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