Nem todo Dantas descende de Caetano Dantas Corrêa

Publicação: 2020-07-19 00:00:00
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Helder Alexandre Medeiros de Macedo
[Sócio do IHGRN ]

Desde que passou a vigorar, em 2015, a concessão de nacionalidade portuguesa, por naturalização, a descendentes de judeus sefarditas, uma corrida pela busca da ancestralidade tem sido empreendida no Brasil. No Nordeste, descendentes de colonizadores luso-brasílicos – cuja família era proveniente de cristãos-novos – têm tido essa ancestralidade ratificada pelas comunidades judaicas ibéricas. Na saga para conquistar tal nacionalidade existem desde genealogistas experientes até pessoas que, dado o interesse pela naturalização, também passaram a cultivar conhecimento de seus ancestrais, fazendo seu próprio levantamento familiar. Há, também, pessoas que pagam altas somas a genealogistas e consultorias apenas para terem o seu relatório genealógico finalizado, no modelo exigido pelas citadas comunidades.

Dentre as famílias radicadas no território potiguar, os Dantas, descendentes do patriarca Caetano Dantas Corrêa, tiveram a ascendência sefardita certificada por serem provenientes do casal de cristãos-novos Francisco Fernandes e Clara Afonso, atestada por Marcos Filgueira no livro Os judeus foram nossos avós. Diversos contemporâneos, todavia, na corrida para alcançar Caetano Dantas em sua genealogia, se decepcionam por não o conseguirem. Muitos desconhecem que nem todos que se assinaram com Dantas descendem desse patriarca – lembremos, a exemplo, dos Dantas Rothéa e dos Ribeiro Dantas. Pelas pesquisas que desenvolvo desde os anos 1990, pelo menos, três ramos de Dantas, no Seridó, não são provenientes diretos de Caetano.

O primeiro é composto do casal Maurício Dantas Corrêa e Manuela Maria da Conceição. Ele, crioulo, filho de Maria, Angola, ambos escravos de Caetano Dantas. Ela, mulata, escrava de Maximiana Dantas. O casal conseguiu alforria, estabeleceu-se com um sítio de criar gados no Bico da Arara e deixou 10 filhos, como consta do inventário de Maurício Dantas (1844), depositado no Fórum de Acari.  Maurício herdou o sobrenome de seu antigo senhor, prática comum nos períodos colonial e imperial.

O segundo ramo é aquele proveniente de Matias Dantas Corrêa, que casou em 1796 com Nazária Angélica dos Santos, ambos pardos. Ele, filho de Constantino de Oliveira e Joana Dantas Corrêa. Ela, de Francisco Pereira da Cruz e Cosma Rodrigues da Conceição, estes, da fazenda Saco, conforme estudei em minha tese de doutorado. De Matias Dantas e Nazária Angélica descendem os Apolinário Dantas e, provavelmente, os Sabino Dantas, da Freguesia do Acari.

O último ramo é composto dos Dantas negros, pertencentes à Irmandade do Rosário de Jardim do Seridó, estudados por Bruno Silva, Jardelly Santos e Eduardo Soares, que fizeram o levantamento da sua memória genealógica familiar, remetendo ao tempo da escravidão. Recentemente, na documentação paroquial do Acari, conectei essa memória com os documentos: tais negros descendem de João e Vitorina, que casaram em 1871 e eram libertos, respectivamente, de Antonio Dantas Corrêa e José Lourenço Dantas, ambos descendentes de Caetano Dantas.

Os três ramos familiares aqui descritos indicam que conhecer as genealogias dos Dantas, no Seridó, é uma tarefa mais complexa que, apenas, restringir-se àqueles rebentos provenientes diretamente de Caetano Dantas. Orientam-nos, por outro lado, a enxergar as entrelinhas do passado e considerar a importante presença de africanos, crioulos e mestiços nos processos de constituição de famílias nos sertões. Pessoas estas que também merecem ter o seu lugar ao sol na História dos Sertões.