Neuroarquitetura mostra como os espaços físicos influenciam o comportamento humano

Publicação: 2019-12-15 00:00:00
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Ramon Ribeiro
Repórter

A Arquitetura vai bem além da  criação de ambientes confortáveis e agradáveis visualmente. Se aliada aos conhecimentos da Neurociência, ela pode desenvolver ambientes que impactam positivamente no bem estar físico e emocional dos indivíduos, mexendo com nossas emoções, comportamento e até nosso mecanismo de tomada de decisão. Tudo isso é feito fazendo uso da melhor forma possível de aspectos como iluminação, cor, textura, cheiro, acústica, ventilação. É a ciência do cérebro à favor da construção de espaços físicos mais assertivos. Esse campo de atuação é chamado de Neuroarquitetura. O conceito é novo, surgiu nos Estados Unidos há cerca de 20 anos, e no Brasil, embora pouco explorado, vem ganhando cada vez mais terreno.

Créditos: Alex RégisAo buscar a piscologia na arquitetura, Rafaela Lopes aprofundou seus estudos na área de neurociência. Ela ressalta que não existe ambiente neutro. Ou ele te beneficia ou te prejudica, dizAo buscar a piscologia na arquitetura, Rafaela Lopes aprofundou seus estudos na área de neurociência. Ela ressalta que não existe ambiente neutro. Ou ele te beneficia ou te prejudica, diz
Ao buscar a piscologia na arquitetura, Rafaela Lopes aprofundou seus estudos na área de neurociência.

Em Natal, uma arquiteta tem se aprofundado bastante nesses estudos. Seu nome é Rafaela Lopes, de 24 anos. Ela conheceu a neuroarquitetura enquanto estudava a relação da arquitetura com a psicologia, área que também tem grande interesse. Se entusiasmou com as ideias novas e trouxe para o seu trabalho. “A ciência já comprova que os ambientes construídos pelo homem têm um poder considerável sobre as relações humanas. O que estamos fazendo é aproveitando esses estudos para não só compreender a relação entre cérebro e espaço, mas aplicar de forma positiva”, diz a arquiteta em entrevista à TRIBUNA DO NORTE. Nesse sentido, ela ressalta que não existe ambiente neutro. “O ambiente ou  te beneficia ou te prejudica. Até o espaços mais clean, todo branco,  podem te prejudicar”.

Rafaela conta que alguns ambientes podem, por exemplo, causar insônia, seja pelo efeito da iluminação, ou da cor das paredes, a acústica. É possível também que os espaços construídos despertem ansiedade, gerem depressão, interfiram no humor do indivíduo. Mas não percebemos isso de uma forma consciente. “Essa relação não é perceptível, os impactos se dão ao longo do tempo”, afirma. “O Brasil tem uma das populações mais ansiosas do mundo. Será que a Arquitetura não poderia de repente estar influindo na causa dessa doença? Claro que sim. Os estudos mostram que passamos 90% da nossa vida em ambientes construídos. Existe uma relação”.

Com base nisso, Rafaela defende que a neuroarquitetura entra como solução,  trazendo resultados de pesquisas científicas sobre o cérebro humano à favor do nosso bem estar físico e emocional. “O acesso a luz natural é algo que nos ajuda a equilibrar os ritmos biológicos, por exemplo, melhorando nossa produção de hormônios e dessa forma, nosso bom humor”, explica. “Temos também pesquisas sobre a altura do pé direito em espaços comerciais. Se o pé direito for alto, o indivíduo se vê pequeno no ambiente, e isso  o deixa meio desnorteado, alienado na hora de consumir”.

Soluções comerciais e residenciais
O setor comercial e corporativo é de fato onde mais se aplica a Neuroarquitetura, seja com o objetivo de fazer com que os clientes se sintam mais estimulados a consumir, ou para aumentar a produtividade no trabalho. Mas Rafael lembra que a neuroarquitetura pode muito bem ser aplicada em projetos residenciais. Ela mesma tem feito isso, como no caso em que repaginou o quarto de uma menina de sete anos de idade diagnosticada com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) que estava com dificuldades de estudar e de dormir no lugar.
“Antes de tudo, é preciso ter empatia, saber se colocar no lugar da pessoa para poder entender suas necessidades, compreender sua personalidade. Então primeiro ouvi os pais para entender o problema. Depois me aproximei da criança de uma forma lúdica, mas no seu quarto. É quando entra um pouco de psicologia. Trabalhei desenhos com ela, pude descobrir o efeitos de algumas cores nela, seus medos com relação ao quarto, um pouco da sua organização cerebral. Dai solucionei alguns problemas em seu espaço”, descreve a arquiteta. “Quando a gente consegue reverter o quadro negativo de algum cliente, solucionar seu problema, transformar sua vida, é quando a gente mede o sucesso do projeto”.

Áreas verdes
Um projeto que tem sido desafiador para Rafaela é o de uma restaurante no Tirol. “É um restaurante de comida saudável, mas que remete à comida caseira, de vó. É um lugar que já tem uma personalidade”, diz, comentando que aplicou a neuroarquitetura atrelada a identidade da marca. “Aplicamos a biofilia [tendência de reconectar as pessoas com o ambiente natural] porque o local recebe muitos trabalhadores, gente que já passa o dia numa sala fechada. Fizemos uma espaço aberto, com bastante luz natural, plantas, um ambiente de descompressão. Mas tudo isso dentro da identidade do restaurante, levando em consideração a comida que é preparada lá, que é uma comida caseira. Então fizemos tudo isso dentro da ideia de aconchego, de casa de vó”.

Área carece de formação
Rafaela é formada em Arquitetura e Urbanismo pela UNP, é especialista em projetos para ambientes de trabalho pela escola alemã Mensch&Buro Akademie e pós-graduanda em Neurociência e Comportamento pela PUC-RS. Além de aplicar os conceitos da Neuroarquitetura em seus projetos, ela também palestra sobre o tema. “A neuroarquitetura é uma área que não existe curso profissionalizante. Você se forma em Arquitetura e vai se capacitar em Neurociência. É o que estou fazendo”, diz. Para ampliar esse conceito para mais arquitetos, elucidando o assunto, ela está preparando um curso formativo para o ano que vem. Nessa empreitada ela está ao lado da neurocientista Geisy Araújo.
“Será um curso online. Vamos lançá-lo no início de 2020. Teremos a participação de especialistas de várias áreas para integrar os estudos. Nossa ideia é mostrar que a ciência do cérebro está ai para somar com a arquitetura”, comenta a arquiteta.