Rubens Lemos Filho
Neurose
Publicado: 00:00:00 - 15/09/2021 Atualizado: 00:01:29 - 15/09/2021
Rubens Lemos Filho
rubinholemos@gmail.com

Idiota quem espera a mudança do egocêntrico. Pode aparentar melhora, mas o signo da arrogância e do doentio narcisismo prevalece, pois é a essência do caráter de quem se acha melhor do que os outros. Pairando acima do bem e do mal. Neymar voltou a ser insuportável. Intragável, mimado e dono – por determinação dele – da paciência dos torcedores. 

Divulgação


Neymar reclama o jogo inteiro, discute com adversários 90% do seu tempo em campo e a bola no seu pé vai perdendo o encanto. Neymar se queixa  de peruano, chileno, argentino, venezuelano, queria ver peitar afegão com seu colar de bombas pronto para explodir 22 jogadores em campo, comissões técnicas e jornalistas. 

Quem criou esse Neymar foi o Neymar de ontem. Chato, confundindo arte com menosprezo, driblando sempre mais do que o bonito e transformando um ato lindo do futebol em instrumento de humilhação. O drible é a supremacia de um ser humano sobre o outro e deve ser repetido os 90 minutos. Um jogo só de dribles seria maravilhoso. 

Então Neymar passou a ser caçado por zagueiros do Quinze de Piracicaba revoltados pelas firulas supérfluas, por volante do Bragantino, por lateral da Portuguesa Santista. No Barcelona, onde não tinha lá essa moral toda, aplicava fintas belíssimas, dentro do limite tolerável, sem fazer do oponente, espelho do ridículo. 

Envelhecendo, o melhor jogador brasileiro anda uma pilha. Nervosinho, ostentando no letreiro do seu rosto o sorrisinho cínico e sinônimo daquela frase bem boleira: “Quando você ganha, eu ganho dez vezes mais e você fica aí me batendo”. 

Os perseguidores descobriram como deixar Neymar em fúria. Chegam batendo antes, por trás, enquanto o camisa 10 de Tite empurra, dá peitadas, socos, xingamentos. Seu par de olhos miúdos se transforma em visão arregalada desejando acertar contas. 

Faz parte da composição do gênio – que todos querem que Neymar seja, mas não é, é supercraque -, a malandragem de se desvencilhar das provocações e de bater com sabedoria. 

Pelé nunca escandalizou suas reações. Agia calado. E reagia com sofisticada violência, quebrando canelas, assim fez com o alemão no Maracanã e dando cotovelada cívica no uruguaio que o acertou antes na semifinal de 1970. A cabeça do gringo pareceu saltar do pescoço e o árbitro ainda o puniu. 

Previsível igual a todo falso malandro, Neymar deixa em alerta árbitros e bandeirinhas,  porque dá chilique sem que o beque chegue. Só a iminência do duelo, o tem deixado em espumante irritação. Quando tenta o toque para iludir o oponente e é desarmado, torna-se o menininho mimado que se lambuza de sorvete apenas para irritar os pais obedientes. 

Na transmissão de Brasil x Peru, o ex-atacante Paulo Nunes foi certeiro: “Neymar está apenas pensando nele e não na seleção”. Tudo porque é ídolo único, espécime indesejável e criador da nociva dependência. Caem os 10, mas Neymar não pode se machucar, não pode ser suspenso, não pode acordar com dor de cabeça. Tudo gira em torno dele desde que Mano Menezes o convocou pela primeira vez. 

A seleção brasileira é um time de mediano para bom e a presença de Neymar é indispensável. Ele jamais será um extraclasse em meus botões porque não faz parte da coletividade, é seu individualismo luzindo sem paralelo a ser feito. Ninguém consegue 50% do seu rendimento, ainda que seja em jornada ruim. 

Neymar havia melhorado e, sem afetações, contribuído para as vitórias do Brasil contra as subseleções da América do Sul. Sua crônica crise de nervos deixa os companheiros retraídos e os adversários, felizes, mesmo que estejam apanhando todo jogo. 

Neymar será a arma para 2022, é a fonte da improvisação nacional perdida, mas vai enfrentar a frieza glacial dos europeus que conservam no frigobar os esquentadinhos. Neymar, neurótico, vai jogar grudado ao psiquiatra. 

Matar ou morrer 
Gary Cooper, o amedrontado xerife da pequena Hadleyville, Novo México, acuado por bandidos perigosos, se divide em  ABC e América. Matar ou morrer, o clássico do cinema em faroeste, cinema que ninguém entende melhor do que o jornalista Valério Andrade, é uma agonia do início ao fim. O filme, lançado no Brasil em 1953, proporcionou o Oscar de Melhor Ator a Gary Cooper e ganhou em outras duas categorias: melhor edição e melhor canção. 

ABC e América, fossem disputar o Oscar com base na primeira rodada do mata-mata, entrariam entre escatológicas tramas de terror. Não tomaram consciência da importância de atacar contra dois times sem maior representatividade. O Itabaiana está no nível dos dois daqui. O Retrô é  semi-time. Um arremedo, até o uniforme é brega, das antigas lojas Prediletas, no Alecrim. 

ABC e América, de favoritos, entram na rua em que Gary Cooper espera os sicários para o duelo. Para matar ou  morrer. Não adianta os dois técnicos, Moacir Júnior(ABC) e Renatinho Potiguar(América), adotando o medo, a retranca, o defender para atacar depois. Depois, podem vir os pênaltis e aí nem sempre o mocinho vive. 









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