Ninguém tomba a saudade

Publicação: 2019-10-23 00:00:00 | Comentários: 0
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Alex Medeiros
alexmedeiros1959@gmail.com

Dos velhos edifícios do Rio de Janeiro, o Hotel Glória está entre aqueles com mais referência histórica. Inaugurado em 15 de agosto de 1922 como o primeiro cinco estrelas do País, e para marcar o centenário da nossa independência, já nasceu com pinta de modernidade, em pleno clima da feira de arte moderna que de São Paulo se espalhava pela vida nacional.

Depois de 86 anos de atividade, consolidado como um marco da história do Rio e do próprio Brasil, foi vendido em 2008 ao então milionário Eike Batista que prometia trazer de volta o luxo dos anos gloriosos e incrementar o turismo carioca. O dinheiro não saiu do bolso do espertinho, veio direto do BNDES e da linha de financiamento que o governo do PT criou para ilustrar o clima da Copa do Mundo que o País sediaria em 2014.
O que veio depois disso, nem precisa narrar. Eike foi um entre tantos nos esquemas de corrupção que a Lava Jato combateria e o velho hotel virou espólio para pagamento das gordas dívidas do milionário de araque.

Há poucos dias, após uma vistoria de engenheiros especializados, o prédio foi decretado condenado na estrutura física e sem qualquer capacidade de recuperação arquitetônica. A única sugestão foi a imediata demolição.

Quando li a notícia da proposta de demolição do esqueleto que sobrou do glamour pregresso, fiquei imaginando a reação dos estagiários da revolução em Natal diante da sentença técnica dos engenheiros cariocas.

Impossível não fazer alusão ao chororô militante com o megatério do Hotel Reis Magos, reduzido a lixo e ruínas. Natural e automática a comparação com a importância verdadeiramente histórica do prédio do Rio de Janeiro.

O Hotel Glória, sim, teve o valor histórico e arquitetônico que teimam em implantar no Reis Magos como uma prótese narrativa. Mas lá, na cena urbana carioca, o rosto da razão não se esconde na máscara sectária.

Quando dei meu voto, na sessão do Conselho Estadual de Cultura, pela demolição do Reis Magos, destaquei a memória afetiva como um patrimônio pessoal que podemos exercitar e alimentar, mas nunca tombar.

Porque não se pode tombar a lembrança que temos dos dias do velho hotel da Praia do Meio. Que bom se fossem tombados os prédios dos cinemas da minha infância e juventude: Nordeste, Rex, Rio Grande, Panorama...

Acaso os egípcios tombaram a Biblioteca de Alexandria só pelo fato de saberem da sua existência no passado? Se a questão for a história, o antigo Grande Hotel é quem merece o que não cabe ao Reis Magos, ora.

A luta por preservar o que já não existe ali na orla urbana é apenas um mascaramento de uma intentona ideológica e histérica contra o direito inalienável à propriedade privada. O que está por trás é só politicagem.

Guardo comigo belas lembranças do Reis Magos, do seu muro com bancos e plantas de onde eu espiei a seleção de 1970 após a epopeia no México, da visão que eu tinha do outro lado, os sucos coloridos no gelo raspado.

Mas isso é saudade do que já não está mais ali, como não existem os cinemas São Luiz, São José, São Sebastião, São Pedro, Poti e Olde. Quem vai tombar a memória da Natal do Royal Cinema e do Polyteama?
Parasitas oficiais

Revelado um dado vergonhoso para a república dos barnabés. O Brasil tem um exército de 1.178.460 assessores parlamentares, mais do que o dobro do número de militares das três armas das nossas Forças Armadas.

hotel

Vendilhões
Do engenheiro Lindolfo Sales nas redes, olhando as negociações políticas e jurídicas: “Vendilhões do Templo. Pretendem defender o Estado de Direito, mas defendem os seus baixos interesses. Não passam de vermes”.

Hipocrisia
O Senado quer 6 meses de prisão para quem vende armas de brinquedos. Enquanto perseguem pistolinhas de plástico e madeira, a meninada arranca cabeças e monta metralhadoras nos videogames de guerra.

Balneário
A boa notícia saiu na coluna de Cassiano Arruda. O prefeito Álvaro Dias promete concluir a obra de urbanização da Praia da Redinha, aquela mesma obra que a bancada federal ignorou capando a verba das emendas.

Mulheres
É hoje o lançamento do livro “Emancipação Política da Mulher Potiguar”, uma obra de Maria Bezerra destacando todas as mulheres eleitas no RN entre 1929 e 2000. Às 16h na Galeria Convivart, do NAC, na UFRN.

Cineastas
Depois da polêmica gerada por Martin Scorsese ao dizer que filmes da Marvel são entretenimento e não cinema, agora foi Francis Ford Coppola, que concordou com o colega e completou chamando de filme desprezível.

Bola de Ouro
A revista France Football divulgou a primeira lista com 30 nomes indicados ao prêmio Bola de Ouro de melhor craque da temporada. Do Brasil, apenas o goleiro Alisson, o zagueiro Marquinhos e o atacante Firmino.

Laranjal
O futebol holandês está de novo deixando feliz o poeta Alex Nascimento, consolidando o legado do gênio Cruijff. São cinco os candidatos à Bola de Ouro: Virgil van Dijk, De Jong, Matthijs de Ligt, Van de Beek e Wijnaldum.

Queijos do mundo
A cidade de Bérgamo, na Itália, sediou no fim de semana a 32ª edição do World Cheese Awards, uma espécie de Oscar dos queijos que tem transmissão ao vivo para toda a Europa e EUA. Na disputa, 3.804 queijos de 42 países avaliados por um júri de 246 especialistas. O ganhador foi “River Blue”, um queijo azul do Oregon, nos EUA. É o primeiro queijo americano a vencer a competição.







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