No Alecrim e na música

Publicação: 2019-03-31 00:00:00 | Comentários: 0
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Yuno Silva
Repórter

Francisco das Chagas Nobre, mais conhecido como Kiko Chagas, é que costumam chamar de “ás da guitarra”. Virtuose, multi-instrumentista, autor de mais de 500 composições, e quase 40 anos de carreira, Kiko é bisneto, neto e filho de família musical, por parte de pai e mãe. Nasceu nas Rocas, berço do samba natalense, onde teve os primeiros contatos com a música, antes de se estabelecer no bairro do Alecrim onde, quando criança, vendia picolé, sonho de noiva e álbuns de figurinhas em frente ao saudoso cinema São Pedro – que funcionou no mesmo local onde hoje fica a agência do Banco do Brasil do Alecrim.

Kiko Chaves
Filho de Chico Elion e Déa Ferreira, o guitarrista Kiko Chagas foi criado em meio musical e tomou gosto pelo instrumento

O Minha Área deste domingo vai passear com Kiko, filho de Chico Elion e de Déa Ferreira, pelo universo onde ele foi criado e ganhou asas para voos mais longos pelo Brasil e pelo mundo acompanhando artistas de grande quilate como Tim Maia e Jimmy Cliff. Também dirigiu e produziu trabalhos de Elza Soares, e tocou com nomes como Jards Macalé, Sérgio Sampaio e Luís Melodia. Seu nome também está atrelado à bandas de Natal que fizeram história nos anos 1980 como Flor de Cactus e Impacto Cinco.

Família Musical
Sou filho de uma família musical por parte de pai e mãe – minha mãe, Déa Ferreira, cantava na Rádio Poty e fez várias participações no programa de Ari Barroso e Mayrink Veiga ao lado das irmãs Ferreira. Foi ela quem levou Chico Elion para o eixo Rio-São Paulo, apresentou toda a galera da época para ele. Na verdade, a relação da minha família com a música vem de bem antes: desde os tempos dos meus avós e bisavós. A família do meu pai é de Assu e a da minha mãe de Currais Novos e Santa Cruz.

Botões para Chico Anysio
Nasci nas Rocas, berço do samba de Natal: conheci Mestre Lucarino através de um tio, que era dono de uma pequena metalúrgica que confeccionava instrumentos e alegorias para escolas de samba. Meu primeiro presente foi um tamborim. Jogava muito futebol de botão também, eu mesmo fabricava os times – até hoje confecciono. Inclusive, cheguei a presentear o Chico Anysio com um botão que eu fiz, ele adorou porque também é um aficionado como eu.

Cine São Pedro
Quando me mudei para o Alecrim, ainda menino, comecei a vender picolé, cocada e sonho de noiva na calçada do cinema São Pedro – ali onde hoje fica o Banco do Brasil da Avenida 2 (Av. Presidente Bandeira). Também vendia álbuns e figurinhas. Com parte da grana que conseguia, comprava ingressos para o cinema. Assisti muita coisa nessa época: as chanchadas da Atlântida e outros filmes nacionais com Grande Otelo, Oscarito, Ankito. Lembro muito do filme “Hoje o galo sou eu!”, que meu tio Zito Borborema participa de uma cena ao lado de Luiz Gonzaga. Também vi Tarzan, Mogli o menino lobo... assisti todos que você possa imaginar, tudo em preto e branco! Mas eram as trilhas sonoras (da melhor qualidade) que me chamavam mais atenção.

Quitandinha
Era uma casa de shows que funcionava em frente ao relógio do Alecrim, os grandes artistas do Brasil que vinham para Natal se apresentar no Quitandinha. Ainda menino, devia ter uns 7 anos, tive a oportunidade de tocar zabumba por lá, acompanhando minha tia Chiquinha do Acordeon. A Rádio Poty, toda poderosa na época, sempre levava os cantores para o Quitandinha – isso nos anos 1950 e 1960.

Batalha musical
Estudei música na UFRN, dei aulas para ricos e pobres – na verdade, até hoje dou aulas particulares. Mas nos anos 1960, resolvi sair de Natal para batalhar: fui para o Rio de Janeiro, trabalhei em várias empresas ligadas ao cinema na área de produção musical. Tive a oportunidade de trabalhar com grandes artistas da época como Sérgio Sampaio, toquei muito em bandas baile, até que fui morar na Bahia: era lá que as coisas estavam acontecendo, muita gente aparecendo, ótimos músicos. Passei uma temporada boa em Salvador, foi lá que percebi o tanto que é importante para a arte e a cultura o apoio do poder público: podem falar o que quiserem do Antônio Carlos Magalhães, mas ele fez muito pela música da Bahia. Hoje eles são a potência cultural que são por causa desse apoio.

Flor de Cactus
Voltei para Natal no começo dos anos 1980, trouxe um bom material para as bandas baile daqui, e me chamaram para participar de várias bandas. Fiz parte da Flor de Cactus, gravamos disco juntos em São Paulo e tudo. Também toquei na Impacto Cinco e com Ivanildo Sax de Ouro – comprei minha primeira guitarra trabalhando com ele. Logo depois voltaria para o Rio, para ingressar na banda Vitória Régia que acompanha o Tim Maia.

Tim Maia
Estava em Natal duro de grana feito um coco seco, toquei muito de graça por aí, até que um dia recebi uma ligação: era o pessoal do Tim Maia, dizendo que precisavam de um guitarrista 'para ontem' e que eu deveria arrumar minhas malas e pegar o primeiro avião pois teria show no dia seguinte. Eu já conhecia o repertório do Tim, e depois desse primeiro show descemos para o camarim e ele me perguntou se gostaria de ir morar no Rio, na casa dele. Fiquei um tempo com ele por lá; lembro que ele gostava de fazer um rango legal. O Tim estava no auge; foi o único artista que me deu oportunidade de cantar. Passei uns quatro anos com a banda Vitória Régia.

Um bom brasileiro
É disso que estamos precisando: de “Um bom brasileiro”, por isso batizei meu novo disco dessa maneira. Dediquei esse trabalho ao samba, o verdadeiro ritmo do Brasil, mas tem influências do próprio Tim Maia, do Michael Jackson, muita coisa da soul music. É um álbum todo autoral, inédito, onde toco a maioria dos instrumentos, são sobras de estúdio que estão comigo há muito tempo. “Um bom brasileiro” já está em todas as plataformas digitais.




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