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Esportes
No aniversário de 50 anos do Machadão, relembre o triste fim do poema de concreto
Publicado: 00:00:00 - 05/06/2022 Atualizado: 13:37:32 - 04/06/2022
Se estivesse em pé, o estádio João Cláudio de Vasconcelos Machado (Machadão) estaria completando hoje 50 anos de inauguração. Arquitetado para ser a principal praça esportiva do RN, o velho estádio não resistiu às exigências do futebol moderno, constante na cartilha da Fifa, acabando por sucumbir às vontades da entidade para que a capital potiguar tivesse condições de abrigar os jogos da primeira fase da Copa de 2014. O projetista da praça esportiva que encantou o público durante décadas, devido às suas linhas curvas, Moacyr Gomes, morreu com a certeza de que não seria necessário destruir a edificação, bastava apenas realizar um projeto de reforma e adequação do estádio, que custaria bem menos ao erário público.

Arquivo TN
Inaugurado em 1972 estádio João Cláudio de Vasconcelos Machado se transformou no orgulho do povo potiguar pelas linhas modernas que Moacyr Gomes deu ao projeto machadão

Inaugurado em 1972 estádio João Cláudio de Vasconcelos Machado se transformou no orgulho do povo potiguar pelas linhas modernas que Moacyr Gomes deu ao projeto machadão


Lembrando da empreitada que terminou transformando um sonho dos desportistas potiguares em algo concreto, Moacyr Gomes revelou que o Machadão, na verdade, foi o projeto de conclusão do curso dele, um fato inédito. 

“Foi o seguinte. No segundo ano da faculdade, eu fui aluno do professor Pedro Paulo Bernardes, que era um dos arquitetos do grupo do Maracanã. Estávamos em 49, a poucos meses da Copa de 50. O Maracanã estava com o cronograma atrasado e, por isso, estava fechado a estranhos. Então, numa das aulas, pedi ao professor que me facilitasse o acesso, e ele gentilmente me atendeu. Resumindo, terminando o curso, me encontro com ele, que me reconheceu, e sugeriu para meu trabalho de conclusão e despedida o projeto de um complexo esportivo completo, recomendando ainda que, de preferência, este fosse voltado para a minha cidade”, afirmou. 

Entusiasmado com a ideia, o engenheiro potiguar decidiu arregaçar as mangas e iniciar o trabalho de persuasão junto às autoridades potiguares. “Eu liguei para Natal e consegui um levantamento topográfico dessa área onde hoje existe o Centro Administrativo do estado, que tem cerca de 50 hectares, mas, naquela época, só tinha, para o estádio, 17 hectares, porque o resto ainda era ocupado por Saturnino de Brito, para os serviços de saneamento em transição para a CAERN. O governador Dinarte Mariz prometeu que doaria o terreno pra construir o estádio, mas na condição de que fosse arranjado um documento que o livrasse de uma possível crítica dos seus adversários políticos, dizendo: “Estou em uma campanha política e meus adversários vão dizer que o Governador tá acabando com a água do povo para dar para jogo de futebol”. Então fui para o Rio e trouxe o documento. Conseguimos a doação, foi feito o estádio, 40 anos depois ocorreu sua estúpida demolição”, disse.

Arquivo TN
O complexo esportivo com o estádio Machadão e o ginásio Humberto Nesi comemeçou a ser demolido no dia 2 de outubro de 2011, para dar lugar ao Arena das Dunas

O complexo esportivo com o estádio Machadão e o ginásio Humberto Nesi comemeçou a ser demolido no dia 2 de outubro de 2011, para dar lugar ao Arena das Dunas


Moacyr sentiu o golpe classificando o desencanto, como se tivessem arrancado um pedaço de sua própria carne. O engenheiro também classificou a ação como um “desprezo à memória daqueles valorosos homens que fizeram o Machadão com o único propósito de prestar serviço à comunidade”. O autor do projeto também fez questão de corrigir um erro histórico que atribui a João Saldanha uma célebre frase em relação ao estádio João Cláudio de Vasconcelos Machado.

“Quando foi inaugurada a obra em 1972, o Governador Cortez Pereira fez um discurso, em pleno gramado, dizendo: “Isto aqui é um poema de concreto”. Dias depois, veio o famoso João Saldanha e publicou em sua coluna no Globo do Rio: “Acabei de vir de uma cidade linda e vi um estádio muito bonito que o Governador chamou ‘poema de concreto’, e acho que quando concluído deverá ser uma obra prima”. Muita gente ficou pensando que o “poema de concreto” era daquele grande jornalista, mas na realidade foi uma tirada do espírito romântico desse inesquecível Cortez Pereira. Mas tudo isso não impediu o ingrato esquecimento daquele notável homem público, nem me deu medalha de ouro; me deu foi o desencanto de vê-lo demolido. Não sei se era um poema, mas era um bom projeto. O falecido Machadão foi, na época, o que havia de mais avançado em forma arquitetônica”.

Classificando a decisão final como estúpida, o autor do “Poema de Concreto” disse que com um pouco de vontade política e apoio das entidades representativas, o projeto poderia ter um destino mais honroso.

“Podiam ter deixado pelo menos um pórtico envolvido por um verde paisagístico como testemunho da competência de nossa engenharia estrutural nativa. Foi uma coisa estúpida! Uma agressão ao bom senso e desprezo à memória de alguns de nossos engenheiros que já se foram. Poderia até ter sido totalmente poupado, servindo como escola de formação de atletas, se construíssem um novo estádio em outro lugar. Se tivessem deixado cinco pórticos pelo menos, poderiam ter se transformado num anfiteatro ao ar livre sem nenhum prejuízo para a construção de uma outra arena, porque caberia no espaço disponível”, ressaltou Moacyr Gomes ao falar sobre o assunto de forma pública pela última vez.

Reprodução
Assim que foi inaugurado, o estádio Machadão passou a ser um grande motivo de orgulho para a população do RN

Assim que foi inaugurado, o estádio Machadão passou a ser um grande motivo de orgulho para a população do RN


Moacyr Gomes partiu com a dúvida que passou a corroer o seu pensamento desde a decisão de demolir o equipamento esportivo. “Não havia necessidade de demolir, não há explicação, senão... Deixa para lá, há muito mais coisa obscura por trás de tudo isso, do que imagina nossa vã filosofia. É que talvez aquilo ali fosse um marco testemunhal do crime cometido contra o patrimônio público, aquela mesma aberração que cometeram na África do Sul, em Cape Town”, reforçou.

Saudade do estádio demolido

Assim que foi inaugurado, o estádio Machadão passou a ser um grande motivo de orgulho para a população do RN. Logo, além de ponto turístico, o Machadão também virou um dos principais cartões postais da capital potiguar, que agora possuía uma praça esportiva cujas linhas arquitetônicas acompanhavam o que havia de mais moderno no mundo das edificações. Há quem, mesmo depois da demolição, continue nutrindo essa ponta de orgulho com o projeto e agora, com a demolição do mesmo, se sente órfão, como o jornalista Rubens Lemos Filho, que mesmo sendo um grande apreciador de futebol, se recusa a entrar na Arena das Dunas.

“O Machadão era um ano e dez meses mais moço que eu e morreu primeiro. Foi um crime que só se cometeu pela passividade de Natal, tomada de deslumbramento por quatro jogos de uma Copa do Mundo que poderiam perfeitamente ter sido realizados no Machadão. Bastava tê-lo adaptado e por muito menos do que foi gasto com sua destruição e a construção da Arena das Dunas, na qual, orgulhosamente, nunca pisei”, afirmou o jornalista Rubens Lemos Filho que, em 2017, escreveu o Livro Memórias Póstumas do Estádio Assassinado, contando a história do estádio que frequentou dos sete aos 41 anos. 

Segundo Rubinho, como é conhecido, nada justificará a demolição do estádio que, quatro anos antes, consumira 17 milhões de reais do dinheiro público para uma reforma. “Prometeram que Natal seria uma Dubai e o legado da Copa do Mundo não aconteceu simplesmente porque o interesse era político.”

De todos os grandes projetos anunciados para capital potiguar na época do Mundial, apenas a nova praça esportiva foi concluída dentro do período predeterminado, mesmo com a primeira licitação tendo sido vaga. Não apareceu empresa interessada em apresentar proposta para construir a Arena das Dunas, cujo projeto inicial teve de ser modificado para tornar a construção mais em conta.  

“Ninguém queria dizer não ao evento e se dar mal nas eleições de 2010. Por isso passaram por cima da história, da paisagem humana da cidade e fizeram o Castelão voltar ao pó. Quero homenagear Moacyr Gomes da Costa, o autor do projeto do estádio, lindo, todo ondulado, muito bem definido como o Poema de Concreto. Moacyr morreu há poucos dias e vinha definhando de tristeza desde que, como um Quixote, perdeu a luta pela manutenção do estádio que, além de sua maior criação,  tinha para ele a importância de um filho”, disse.

Moacyr Gomes classificou com ponto mais interessante do seu projeto a visão, para quem descia de carro do bairro da Candelária. “era o movimento que aparentava o símbolo de infinito se mexendo, na medida do deslocamento do veículo”. 

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