No coração do educador mora o menino de Lagoa Seca

Publicação: 2018-11-11 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

“Ele vai olhar o morro e entender que diferentemente dos amigos ele não vai conseguir subir”, esse pensamento talvez tenha passado pela cabeça de quem observava Joiran Medeiros parado diante do Morro do Careca quando subir a enorme duna era algo festejado por natalenses e turistas. Deficiente físico com sequelas nas pernas por causa da poliomielite contraída quando era bebê, Joiran na verdade estava estudando uma maneira de chegar ao topo. E chegou, como veremos adiante nesta entrevista.

Joiran Medeiros, professor
Joiran Medeiros, professor

Joiran era adolescente nessa época. Convivia com as dificuldades de locomoção desde criança. Aprendeu cedo que era diferente dos amigos. Mas aprendeu também que na verdade ninguém é igual a ninguém neste mundo. E de superar adversidades dia após dia, esse potiguar se fez um forte e um exemplo. Na juventude disputou o Jerns, o Jubs, foi ator.

Aos 57 anos, professor Joiran é um dos nomes mais importantes no Rio Grande do Norte em se tratando da luta em prol dos direitos humanos das pessoas com deficiência. Seu ativismo vem dos anos 80, quando fundou as primeiras associações relacionadas ao tema no Estado. Desde então ele vem contribuindo de maneira efetiva nessa área, mas não só nela.

Atual subcoordenador de educação especial da Secretaria Estadual de Educação, Joiran também tem grande atuação no campo educacional, inclusive, é colaborador do Ministério da Educação. Formado em letras, ele leciona há mais de 30 anos, tendo experiência de sala de aula com alunos da educação básica até o ensino superior. De 95 até 2005, foi diretor da Biblioteca Municipal de Natal Esmeraldo Siqueira, na Fundação Capitania das Artes, período rico em que pôde desenvolver diversas ações culturais.

Nesta entrevista à TRIBUNA DO NORTE, ele lembra momentos marcantes que viveu e que de alguma forma serviram para ele ser a pessoa que é. Muitas das histórias contadas aconteceram no bairro de Lagoa Seca, onde Joiran passou a infância e a adolescência. Segundo o professor, foi um período determinante em que ele se sentiu acolhido pelos amigos. “Joguei bola nas ruas, brinquei de tica, esconde-esconde, aproveitei o bairro numa época que tinham poucas casas e o baobá ainda não era famoso. Eu costumava sentar em suas raízes para estudar com os amigos”.

A doença
Contrai a poliomielite, popularmente conhecida como paralisia infantil, com 1 ano e 6 meses de idade. Isso me atrasou a aprender a andar. Mas não recordo de ter na infância sentimentos de inferioridade por ser alguém com deficiência física. Meus pais sempre me incentivaram a participar das coisas. E quando cheguei em Lagoa Seca, em 1966, já com cinco anos de idade, encontrei um ambiente acolhedor. Óbvio que enfrentei diversos estigmas, passei por situação em que vi negada a minha participação, sofri preconceito e rejeição, mas vinham de pessoas de fora do meu grupo de amigos.  E também sempre fui teimoso, resistia muito bem a quem me diz não.

A Lagoa Seca
Lagoa Seca era um bairro bem natural, com muitas árvores, as ruas de areia fofa. A gente brincava de bandeirinha, tica-tica, esconde-esconde. Onde hoje é o McDonald's, em frente era uma lagoa rasa, exatamente naquela praça dos Bombeiros. A gente brincava por lá também. Já adolescente, ia muito com meu irmão ao cinema São Luiz, nas sessões de sábado. Era um cinema que ficava na Prudente de Morais, na época ainda de areia. Hoje no lugar fica o banco Itaú.

Piquenique no Bosque das Mangueiras
Ali onde hoje tem o Bosque das Mangueiras antes era um grande sítio. Aquele lugar o pessoal chamava de 16. Se dizia “vou lá pro 16”. Minha família fazia piquenique. Um tio meu passava de carroça lá em casa e pega a gente, um bando de criança.

Baobá
Minha infância foi no entorno do Baobá de Lagoa Seca. É um ícone do bairro. A árvore ficava dentro do terreno da casa de uma amiga da gente. Íamos muito lá. A gente brincava de abraçar aquele tronco enorme, juntava um monte de criança para ver se conseguia. Ficávamos sob às sombras dos galhos, sentávamos nas raízes para estudar. Em frente, onde hoje tem o Centro de Velório, antes era um descampado que a gente jogou muita bola.

Subir o morro
Na adolescência a gente fazia uns retiros espirituais na casa dos padres em Ponta Negra. Num desses retiros, num momento livre, eu bolei um jeito de subir o Morro do Careca. Ninguém imaginava que eu pudesse chegar lá em cima. Eu peguei uma corda, enlacei no tronco de um dos meus colegas e fui segurando. Às vezes eu subia ajoelhado, cavando com a mão, em outros momentos eu era puxado pela corda. Demorou muito. Mas cheguei no topo. Foi algo muito gratificante poder ter aquela visão de Natal ao lado dos amigos. Vi também a barreira d´água, aquela área que fica por trás do morro. Se fosse permitido subir o Morro do Careca hoje, eu não faria. Foi um esforço sobrehumano, tanto que quando desci tive uma tontura muito forte e fui inclusive hospitalizado nesse dia. Tinha 12 anos e ótimos parceiros, incentivadores. Improvisamos uma acessibilidade.

Esporte
Fui goleiro de Handball nos Jern's pelo Santa Filomena e pelo Maristela. Tinha um vigor físico grande. Fundei um time de futebol no bairro, o Botafogo. Eu era o técnico. Disputamos os campeonatos de bairro da época. No ensino médio descubro o Tênis de Mesa, com o professo Modesto, na escola Anísio Teixeira. Já na UFRN disputo o Jub's. Cheguei a ganhar medalha de prata. Mais tarde começo a disputar os campeonatos nacionais como atleta paraolímpico.

Ator em excursão pelo Brasil
Entre os anos 80 e 90 eu tive uma experiência como ator. Participei de uma oficina de teatro com um diretor da República Dominicana. Depois ele juntou a gente no grupo Teatro dos Sonhos e montou o espetáculo “Luz Negro”. Circulamos por 18 estados, só no Rio de Janeiro ficamos três meses em cartaz. O grupo era composto por dois deficientes físicos, um deficiente visual e um deficiente auditivo. A peça se passava na época da ditadura. Meu personagem era o líder de um grupo revolucionário que tinha a missão de libertar companheiros presos. Só que o grupo discutia, discutia, e não dava os encaminhamentos. Enquanto não saíamos da discussão teórica, nossos companheiros morreram.

Vocação para sala de aula
Quando criança, não passei por creche nem pelo ensino infantil formal. Tive uma professora particular, Dona Noêmia, que me ensinou a ler e a dominar as quatro operações matemáticas. Hoje já é falecida, mas a família vive na mesma casa, praticamente vizinha a igreja São João. Fui para escola só no primeiro ano. Estudei no Ginásio Santa Filomena, da irmã Rosa Gattorno, que depois se tornou o Maristela. Na época de estudante, comecei a dar aulas particulares para colegas de Lagoa Seca, tirava até um dinheirinho.

O ativismo na educação especial
Eu andava muito de bicicleta. Ia de Lagoa Seca até a Biblioteca Câmara Cascudo pedalando só pra locar livros. Eu era muito leitor de biografias e acabei tendo acesso à história de Paulo Freire. Nisso, eu vendo a minha situação e a colegas próximos que tiraram a própria vida porque não conseguiram enfrentar uma sociedade marcada pelo preconceito e pela seletividade, passei a abraçar a ideia de Paulo Freire de que a educação pode não transformar o mundo, mas ajuda a transformar pessoas. Defendo esse raciocínio desde sempre.

Colaborou: Cinthia Lopes (Editora)




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