No descompasso do ensino

Publicação: 2014-01-28 00:00:00
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Yuno Silva - repórter

Música é sinônimo de trabalho e renda no Rio Grande do Norte, e em muitas cidades do interior ela é tida como uma das poucas oportunidades que jovens e adolescentes têm para reescrever o próprio futuro. Prova disso são os inúmeros profissionais da área, que atuam no mercado como professores, pesquisadores e músicos, formados nas bandas e filarmônicas espalhadas em mais de 100  municípios do RN. Como forma de reforçar e ampliar a abrangência dessa formação técnico-profissional continuada em música, entrou em cena o Programa Federal de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec): em dois anos, quase mil potiguares – que cursam os ensinos fundamental e médio – participaram do programa criado pelo Ministério da Educação.
Filarmônica de Cruzeta é hoje um exemplo do investimento em música. Através do Pronatec, o município oferece um curso da UFRN
Apesar do êxito da iniciativa, que em 2012 e 2013 possibilitou à Escola de Música da UFRN levar cursos para cerca de 30 cidades do RN, a versão 2014 do Pronatec Bolsa Formação na área de música não foi confirmado pelo MEC. Pelo contrário: as 911 vagas homologadas pelo Ministério da Cultura, instituição parceira do programa, foram “integralmente indeferidas” pela pasta de Educação.

Para tentar reverter a negativa do MEC e garantir a continuidade dos cursos, o professor e diretor da EMUFRN Zilmar Rodrigues viaja hoje para Brasília, acompanhado do presidente do Conselho Nacional de Dirigentes das Escolas Técnicas Vinculadas as Universidades Federais, Júlio César de Andrade Neto, onde se reúne com gestores da Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica (Setec/MEC). “Nosso principal argumento é a importância do programa em termos sociais e culturais”, defende Zilmar. Ele lembra que, para o Pronatec funcionar, em cada cidade há uma grande articulação com parceiros locais como prefeituras, associações e professores.

“Inicialmente o Pronatec não incluía cursos no campo das artes, mas temos particularidades aqui no RN e conseguimos incluir música e outros cursos como produção, regente de coral e regente de banda no programa”.

O diretor da EMUFRN explicou que o MEC registrou demanda para o Pronatec acima da expectativa de 200 mil vagas em todo o país, e que durante reavaliação do Ministério da Educação os cursos ligados ao campo das artes ficaram de fora.

Banda de Cruzeta ganha repercussão internacional
O maior exemplo do caráter transformador da música pode ser visto na cidade de Cruzeta. Com 8 mil habitantes e distante cerca de 220 km da capital, Cruzeta se tornou o maior celeiro de músicos do RN. Por lá, desde 1986, o maestro Bembem Dantas ‘instalou’ uma verdadeira usina de formação musical: hoje seus ex-alunos na Banda de Cruzeta (Filarmônica 24 de Outubro) estão na universidade, ou fazendo pós-graduação no exterior, lançando disco ou tocando profissionalmente. Como forma de reconhecimento, a Escola de Música da UFRN abriu no município o primeiro curso técnico fora de Natal.

A atuação destacada, reconhecida em âmbito nacional e internacional, renderam à Banda de Cruzeta e ao trabalho de Bembem Dantas matéria no jornal espanhol El País. Publicada em 20 de janeiro, sob o título “No Brasil a música é um verdadeiro instrumento contra a pobreza”, a matéria assinada por Mariana Kaipper Ceratti destaca o potencial das bandas no tocante a geração de renda: “Em uma das áreas mais pobres do país, uma filarmônica gera R$ 2 milhões por ano em salários e outras receitas”, destaca a jornalista. “A Filarmônica de Cruzeta não só conseguiu satisfazer a vocação artística dos jovens locais, como também tem sido um fator-chave para reduzir a pobreza do município localizado em uma das zonas mais empobrecidas do Brasil”, acrescentou.

O maestro Bembem Dantas sentencia: “Investir em música é gerar desenvolvimento”. Humberto acredita que as 115 bandas no Rn beneficiem, diretamente, 10 mil pessoas.

Impacto social é enorme, diz coordenadora
A professora Raquel Carmona Torres Félix, coordenadora geral do Pronatec da EMUFRN, reforça a importância de se continuar o programa no RN: “Na música acontece um fato muito particular, pois os alunos, antes mesmo de se profissionalizarem, já começam a atuar no mercado de trabalho. Esse programa possibilita que levemos cursos de qualificação para jovens do interior que não têm condições de vir estudar na capital. Muitos, inclusive, moram em cidades castigadas pela seca, e esses cursos geram um grande e positivo impacto social”.

Ela acredita que os cursos “abrem novas possibilidades de trabalho” por incentivar o empreendedorismo e “atualizar o conhecimento”. Vale registrar que pela primeira vez, em 50 anos de Escola de Música, cursos técnicos de instrumentos estão sendo oferecidos fora da sede da EMUFRN em Natal – justamente em Cruzeta, terra do maestro Humberto ‘Bembem’ Dantas.

Atualmente os cursos oferecidos pelo Pronatec vinculado à Escola de Música são: técnico de instrumentos (necessário base musical e ensino médio), regência de banda, músico de banda, músico de orquestra, regente de coral, operador de áudio (ensino médio), iluminação cênica (oferecido em 2012) e assistente de produção cultural. Se tudo correr nos conformes, em 2014 também será ofertado curso de fotografia em parceria com o NAC (Núcleo de Arte e Cultura da UFRN).