No embalo da alta...dos combustíveis

Publicação: 2017-08-13 00:00:00 | Comentários: 0
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Marcelo Filho
Repórter

Apesar do disparo nas bombas dos postos de Natal e cidades do interior do Rio Grande do Norte, nos dias que sucederam-se ao anúncio do reajuste do PIS/Cofins sobre combustíveis, em julho, dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP) revelam que o impacto no preço dos derivados de petróleo não foi tão elevado no RN, quando considerada a variação percentual entre o período pré e pós aumento. O preço médio da gasolina ao consumidor no estado, na semana anterior à majoração de tributos (de 09/07 a 15/07), era de R$ 3,719. Na semana mais recente levantada pela ANP (de 30/07 a 05/08), o valor era de R$ 3,826 - elevação média de 2,87%, a menor do país. No topo do ranking, está o Amazonas, com 17,60%. Ainda assim, fatores ligados à concorrência e  ao consumo motivaram os aumentos repentinos e amargos no bolso dos consumidores potiguares, conforme especialistas.
Alex Azevedo reduziu a frequência das viagens de carro
Alex Azevedo reduziu a frequência das viagens de carro (foto: Clara Rodrigues)

Mas a constatação de menor reajuste percentual médio do país não reflete o espírito de motoristas, que passaram a frequentar menos os postos de combustíveis. Encher o tanque se tornou privilégio. Frentistas ouvidos pela reportagem da TRIBUNA DO NORTE, em bairros da zona Oeste e Leste da capital, confirmam a diminuição no fluxo de clientes.

"Antes, a gente vendia cerca de 8.000 litros de gasolina por dia. Hoje, diminuiu para 6 mil", diz uma frentista que preferiu não se identificar, em um posto localizado na avenida Alexandrino de Alencar. Enquanto há postos que registram queda de 20% no movimento, outros conseguem manter o fluxo através de convênios. "Por aqui continua a mesma coisa, não houve queda [de clientes] não. Mas são os convênios com empresas que abastecem os veículos que ajudam a manter", afirma o frentista Júnior Reinaldo, funcionário de um posto na avenida Coronel Estevam. E ainda há posto que conta com a conformação dos motoristas. "Com o tempo o pessoal se acostuma", disse um outro frentista de um posto localizado na avenida Olinto Meira.
Flaviana Dantas trocou a gasolina pelo etanol para economizar
Flaviana Dantas trocou a gasolina pelo etanol para economizar (foto: Marcelo Filho)

Para alguns consumidores, o “costume”, porém, ainda não é realidade. A advogada Clara Rodrigues, 25 anos, moradora do bairro Neópolis, zona Sul de Natal, se viu obrigada a revisar a utilização diária do próprio automóvel. Por ser sócia de um escritório no bairro de Lagoa Nova, Clara conta com a vantagem do home office - desempenhar funções do trabalho na própria casa, o que contribui para dispensar o deslocamento de carro. Após o anúncio do aumento de tributos que incidiu sobre os combustíveis, a mudança na rotina foi inevitável.

"Comecei [a adaptação] no dia imediatamente posterior ao aumento. Antes, eu ia todo dia ao escritório. Agora, só vou quando realmente necessito estar no escritório para trabalhar", afirma.

Antes do reajuste, a advogada gastava, em média, R$ 330 por mês - o que representava o abastecimento de dois tanques e meio com gasolina. Hoje, ela reduziu o abastecimento para dois tanques, mas ainda não tem certeza se essa quantidade irá se manter pelos próximos meses, visto que ainda não fez os cálculos na relação consumo por litro. "Dá para economizar, mais ou menos, R$ 70. Com esse dinheiro, estou realizando manutenções no próprio veículo ou guardo na poupança para garantir dinheiro de reserva", explica Clara.

Em caso de deslocamento durante a noite, a jovem opta por meios como Uber ou caronas com amigos e familiares, por considerar mais seguros em relação a outros tipos de modais. "De maneira geral, estou organizando mais caronas. Quando vou sair com a família, antes cada um ia em seu próprio carro. Agora procuramos ir todos juntos", destaca Clara.

Consumidores mudam rotina e abastecimento

A técnica em enfermagem Flaviana Dantas, 28 anos, precisa se deslocar, de segunda à sexta, além dos finais de semana em que está de plantão, de Nova Parnamirim, onde reside, até o hospital em que trabalha, em Petrópolis. Apesar do aumento nos preços dos combustíveis, ela não deixou de utilizar o próprio carro para ir aos compromissos ou atividades de lazer. Para diminuir o impacto do aumento, a jovem trocou a gasolina pelo etanol. Enquanto o preço médio do primeiro produto custava, entre os dias 30 de julho e 5 de agosto, R$ 3,83, o segundo era vendido a R$ 3,20 nos postos de Natal, conforme dados da ANP.

"Eu costumo abastecer quando o tanque está quase na reserva, mas ainda não sei medir a economia real dessa mudança. Mas a diferença que percebi é de R$ 15, em média, entre um e outro", afirma Flaviana. Outro aspecto positivo da troca de combustível é o fato de que o carro percorre, com a mesma quantidade de etanol, quilometragem igual quando abastecido com gasolina.

O dinheiro economizado é destinado a serviços para o veículo. "Por mês, devo economizar, aproximadamente, R$ 60. No fim, vai fazer diferença. O valor da economia dá para garantir três lavagens do carro por mês", declara.

Com vistas a economizar, a consumidora também tem optado por um uso mais racional do carro, ao evitar viagens desnecessárias, por exemplo. "Se vou ao shopping, resolvo várias coisas de uma vez para não ter que retornar outra hora", explica. 

Do outro lado do Potengi, Alex Azevedo, morador do bairro Nova Natal, na zona Norte da capital, trabalha como técnico de informática em uma empresa localizada no bairro do Alecrim, na zona Oeste. O expediente é de segunda à sexta. Alex possui um carro e uma motocicleta. Antes, ele fazia uso do automóvel quatro dias na semana. Após o reajuste nas bombas, reduziu a quantidade de viagens, agora restritas às segundas e sextas.

"Eu usava com mais frequência para sair com a família também", explica. O jovem afirma que abastecia com gasolina ao preço de R$ 3,20, e que agora paga R$ 3,80 pelo combustível. Segundo ele, o aumento nos valores e a desvantagem no consumo por litro diminuiu a quantidade de viagens.

"A diferença para mim foi 'gritante'. Para se ter ideia, antes, com 20 reais, eu abastecia 5,8 litros em média. Com o valor reajustado, só rende 5,1 litros. Essa quantidade não dá mais pra eu rodar a semana toda", explica Alex.

Nos dias em que não utiliza o carro para ir ao trabalho, o técnico em informática precisa reprogramar os horários para chegar a tempo no serviço, pois depende de ônibus agora. "Eu já pensei em outros meios de deslocamento, mas Natal não dá prioridade para transporte público. Mesmo de carro, eu teria de sair 6h da manhã. De ônibus, tenho de sair muito mais cedo para evitar o engarrafamento total da zona Norte. Sem falar na qualidade do serviço dos ônibus, que podem quebrar no meio do caminho, e o cumprimento do horário na empresa é bem rígido", declara.

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