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Alex Medeiros
No horizonte da poesia III
Publicado: 00:01:00 - 12/05/2022 Atualizado: 21:35:45 - 11/05/2022
Alex Medeiros 
alexmedeiros1959@gmail.com

Testemunhar toda aquela efervescência “arteira” que se espalhava por Belo Horizonte, me levava diariamente a ter noção de um fenômeno que era nacional, uma catarse poética atingindo uma geração que buscava seu espaço num período histórico que apontava para uma ideia possível e não para o sonho da década anterior que John Lennon dissera já ter se acabado. A poesia urbana mineira era a mesma das ruas de Natal, de Brasília, de Recife, do Rio.

Cada jovem poeta espalhando e gritando poesia pelas tardes da capital mineira, cada músico embalando as noites dos tantos bares e baladas estudantis, formava individualmente o tecido cultural de uma ação coletiva. A arte a serviço das pautas políticas da época, os versos e sons bradando por anistia, eleições diretas, democracia e anarquia cantadas como se fossem irmãs siamesas. Eu e Jorginho vimos aquilo tudo como víamos aqui em Natal.

O jovem Marcelo Dolabela era como um farol a clarear o rumo dos seus iguais, apesar da noção de todos em sabê-lo um diferencial, condutor de múltiplas rotas, diverso no experimentalismo da forma e do conteúdo da prática poética.

Ele já vinha desde os vinte anos, em 1977, rodado no mimeógrafo e num movimento que gerou a revista Cemflores, um icônico documento que registrou o sentimento e engajamento daqueles dias do marginal-mor Roberto Soares.

Mais velho do que a maioria da Praça Sete, beirando os trinta anos, Roberto era a consubstanciação das gerações, o performático existencial, misturando em versos o romantismo e a marginalia, o poeta ao pé da letra, pobre de mavé.

Ele e Marcelo se conectavam no fazer poético e produziram juntos uma literatura improvisada e artesanal, como versão do improviso sonoro que a gente em Natal tentava anexar em recitais inspirado nos poetas de cordel. 

Marcelo era um coringa de “belzonte”, criou toda a sua poesia em quase todos os veículos de linguagem, como a música e o cinema. Um dos points musicais, o bar “O Outro Lado da Moeda”, tornou-se palco e emprego noturno de Jorge.

Guitarrista virtuose, Jorge Banda tornou-se atração do lugar que era frequentado por gente grande, como no dia em que o aniversário de Paulinho Pedra Azul foi festejado ali por um monte de expressões do Clube da Esquina.

A militância de Marcelo também na música o levou a formar uma banda que fez história com sua performance e marcou o tempo conjuntural com um nome provocativo, Divergência Socialista, antítese do jornal Convergência Socialista.

Quarenta anos se passaram até que eu pudesse compreender a dimensão artística e intelectual que aquele jovem poeta alcançou em sua cidade, em seu estado, em nosso país. E só no ano passado soube da sua morte aos 62 anos.

Vítima de AVC, Marcelo Dolabela morreu em janeiro de 2020, enlutando Minas Gerais, que ao longo do tempo o reconheceu como seu maior poeta urbano, o mestre das letras que leu, estudou e repercutiu a grande poesia do seu tempo.

E na transversal do destino, como um improviso de viagem astral, pouco depois partiu também Roberto Soares, prestes a fazer 67 anos. Os dois expoentes da velha revista Cemflores foram cultivar poesia em outras galáxias.

Eis Roberto dos 80: “Alice, se existe um país das maravilhas não sei com quem fica a chave das sete portas: na sua viagem cuidado para não entrar pelo (…)”. E Marcelo: “Tudo fica como é, eu não te tenho e morro, e morro toda vez que não te tenho”.

E do que eu fiz no ambiente deles, durante um recital no Festival de Inverno de Diamantina, gosto dos versinhos abaixo: 

Minissoneto
(Alex, setembro 1982)

Leia meus poemas
sem dote sem pena
sussurre em ouvidos

No pegue ou no paga
minha letra magra
meus doces gemidos

Ou apague meu sonho
meu rosto risonho
meu jeans encardido

E então passe o rodo
vá ver Viva o Gordo
após Sétimo Sentido.

Divulgação


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