No meio das dunas cristalinas do Gramoré

Publicação: 2017-04-30 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
repórter

Com um trabalho autoral defendido com muita personalidade, onde se misturam, samba, mpb, rock e muita música regional, Khrystal não esquece a importância que o Gramoré teve em sua vida. O conjunto habitacional, localizado no bairro Lagoa Azul, na Zona Norte de Natal, foi onde a cantora cresceu e se descobriu na música. Para ela, o Gramoré foi seu grande laboratório para por em prática a paixão musical que herdou dos pais. E foi na meninice, época em que cruzava os quintais dos vizinhos comendo goiaba do pé, que ela deu seus primeiros passos, cantando nas missas e participando das rodas de violão com amigos.

“Gramoré já foi um paraíso perdido no meio das dunas”, recorda Khrystal. Quando criança, ela passava o dia na rua, jogava biloca, andava de bicicleta, saia com os amigos para mergulhar na Lagoa do Sapo. Desses anos, uma de suas recordações mais fortes são do período junino, cujas festas uniam várias famílias, tinham fogueira, comidas caseiras, brincadeiras. As boas memórias a fizeram escrever a música “Meu Lugar”, do disco “Não deixe pra amanhã o que você pode deixar pra lá” (2016). “Meu amor pelo São João vem de lá, certeza. Escrever sobre memórias é sempre uma viagem boa no tempo. Eu gosto”.
Apesar de não morar mais no bairro onde cresceu, Khrystal mantém as referências de suas memórias quando compõe.
Apesar de não morar mais no bairro onde cresceu, Khrystal mantém as referências de suas memórias quando compõe.

Hoje, mesmo vivendo no Barro Vermelho, ela não deixa de visitar o local onde cresceu. Motivos não faltam. Vários amigos de infância ainda vivem no conjunto, como Daguia, uma “figuraça”. No Pátio da Feira Livre é onde Khrystal encontra o sanduda do Naldo, outro morador “das antigas”. “Já passei por lá tarde da noite pra laricar e é sempre ótimo”. Mas o principal motivo da cantora sempre se fazer presente no Gramoré são os pais. As visitas se dão a maior parte das vezes no domingo, quando toda a família costuma se reunir no quintal de casa para papear.

Khrystal reconhece que a região hoje é muito diferente da de sua época. As mudanças foram várias e velozes. Uma de suas principais preocupações é a criminalidade na área. “Hoje é dos bairros da zona Norte talvez que mais apareça nos noticiários policiais. Isso é uma tristeza na minha vida”, lamenta.

Chegada no Gramoré

Antes do Gramoré, nós morávamos no Centro da Cidade, alí na Rua Padre Pinto. Lembro muito da casa, dos amigos de meus irmãos, dos passeios com meu pai pela Praça Vermelha, da minha mãe na máquina de costura. Deixamos de viver de aluguel e fomos todos para Gramoré. Lembro muito das dunas, das casas que não tinham muros. À tarde eu corria pelos quintais dos vizinhos, comia goiaba do pé. Brincava muito na rua, de biloca, de bicicleta. E tinha a Lagoa do Sapo que era linda e o mergulho era delicioso. Lembro de levar as amigas de colégio pra se banharem por lá, eu adorava. Tive uma infância linda.

Relação com a música
Minha tendência para a música certamente vem de meus pais e irmãos. Todos são muito musicais. Mas Gramoré foi palco desse meu descobrimento. Cantei nas missas algumas vezes, participava de grupo de Jovens, nas rodas clássicas de violão com amigos. Vamos dizer que a família colocou leite na minha mamadeira de musicista e que Gramoré foi meu grande laboratório pra descobrir e vivenciar isso.

Medo infantil
Lembro muito das loucas que tinham no bairro. Uma delas, eu sei que já se foi, a outra ainda está por lá. Isso era uma coisa que me apavorava, seus semblantes furiosos... eu via os meninos tirando brincadeiras  e elas corriam atrás, puxavam cabelo e se exaltavam mesmo.  Tinha tanto medo que sonhava com elas. Se encontrava com uma delas na rua, eu saia correndo de volta pra casa.

Zona Norte e Zona Sul
A música “Zona Norte, Zona Sul” (do disco Dois Tempos, de 2012) é de Ricardo Baya. Ele fez pra mim. Sente-se na pele todo dia a dureza que é vir de baixo.  Mas a Zona Norte tem dado seus passos. Vem se desenvolvendo rápido. De quando eu cheguei para como está agora, mudou e foi demais. Sempre que atravesso a ponte, me lembro de uma música chamada “Nordeste Independente” (Bráulio Tavares e Ivanildo Vilanova) e sempre sinto que a Zona Norte podia ser outra cidade se quisesse.

Violência
Gramoré já foi um paraíso perdido no meio das dunas e hoje é dos bairros da Zona Norte talvez que mais apareça nos noticiários policiais. Isso é uma tristeza na minha vida. Nunca fui afetada diretamente pela criminalidade da região, mas na família já aconteceu. Minha família vive no Gramoré, estão sujeitos as alegrias e dificuldades de se viver lá. Assim como estamos nós aqui, do outro lado da ponte. Moro no Barro Vermelho e já vi um cara levar bala na rua do lado. Sinto que hoje em dia, em todas as zonas de Natal, é tudo igualmente inseguro.

Bom para conhecer
Vou a Gramoré com frequência. Meus Pais vivem lá. Sempre que dá, passo pra pedir a benção. Domingo saboreio o maravilhoso dindim de côco de Dona Neném e papeio com meus pais no fundo quintal. É sempre muita gente, a família é grande.
De lugares para conhecer, no Pátio da Feira Livre tem um sanduba ótimo, de Naldo, figura das antigas. Já passei por lá tarde da noite pra laricar e é sempre muito bom. Tem as pizzarias caseiras também, minhas sobrinhas  tem as manhas. São massas deliciosas e minha mãe adora”.

Gramoré ainda está presente
No Gramoré muita coisa mudou. É quase outro lugar. Mas ainda é possível encontrar resquícios da época em que vivi no conjunto. As escolas estaduais ainda estão de pé, muitos amigos de infância ainda estão lá, como Citaria, a amiga mais próxima de todas, e Daguia, uma figuraça.

São João no Gramoré
Na música “Meu Lugar” eu falo das lembranças juninas por lá. Aff como era bom! Tinha tudo que um São João precisava pra ser bom. Famílias trabalhando o milho, as decorações da rua, fogueira, muita música, muitos amigos, crianças correndo, chuva pra deixar a quadrilha mais divertida. Meu amor pelo São João vem de lá, certeza. Escrever sobre memórias é sempre uma viagem boa no tempo, eu gosto.



Colaborou: Cinthia Lopes
Editora



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