No Mundial feminino, seleção dos EUA quer o tetra e direitos iguais

Publicação: 2019-06-04 08:04:00 | Comentários: 0
A+ A-
A seleção feminina de futebol dos Estados Unidos chega ao Mundial da França, que começa sexta-feira, como a favorita ao título. Mas uma estrela a mais na camisa e o tetracampeonato não bastam para as 23 jogadoras norte-americanas. Elas não querem só ganhar. Herdeiras da luta de outras gerações por equidade entre homens e mulheres no esporte dos EUA, elas fizeram da exposição na competição uma bandeira por direitos iguais e espaço para as mulheres nos estádios.

Taça da Copa do Mundo de Futebol Feminino
Copa do Mundo de futebol feminino começa em três dias

Com os cabelos platinados com mechas rosas, a estrela e meia Megan Rapinoe anunciou há uma semana: "A mudança que temos visto não é suficiente". "Para os recursos e capacidade que sinto que a Fifa tem para implementar essa mudança, eu não acho que estejam fazendo o bastante", disse a jogadora. A Fifa aumentou o prêmio dado no Mundial Feminino, é verdade. De US$ 15 milhões (cerca de R$ 58 milhões) em 2015 para US$ 30 milhões (R$ 117 milhões)neste ano, o que ainda não passa nem perto da verba de US$ 400 milhões (R$ 1,5 bilhão) para a Copa do Mundo masculina. E não é apenas o dinheiro, disse, mas é preciso deixar de reproduzir apenas o que é feito no campeonato masculino.

Fora dos campos, a batalha de 2019 do atual time de futebol começou em março, no Dia Internacional da Mulher, quando 28 jogadoras decidiram processar a federação americana de futebol para pedir salários iguais aos dos jogadores. Em 2016, a entidade já havia sido obrigada na Justiça a corrigir discriminações como diárias de alimentação mais baixas para as mulheres do que para os homens.

Megan Rapinoe esteve nos bastidores e holofotes dos dois movimentos nos tribunais. Na Corte, alegam que jogaram 19 partidas a mais do que a seleção masculina em um período de três anos, gastaram mais tempo em treinos, viagens e coletivas de imprensa. A receita dos jogos femininos também não deixa a desejar nos Estados Unidos, pelo contrário.

O que gera o sucesso do time feminino de futebol no país? Apesar de não ser possível creditar a um só fator, a resposta para a pergunta sempre inclui e começa pela expressão "Título IX". O "Título IX" é uma lei federal que foi parte de emendas de educação em 1972 e abriu o caminho para a participação das mulheres no esporte, garantindo o fim da discriminação baseada em gênero no financiamento de times e atletas nas instituições de ensino.

"Ainda que essa não tenha sido a ideia original por trás da lei, acabou tendo um enorme impacto nos esportes femininos. A ideia principal era focar no fim da discriminação de mulheres nas instituições de educação", explica Susan Ware, historiadora e autora do livro Title IX: a brief story with documents.

"Sempre houve mulheres que quiseram praticar esportes e eram boas nisso. Mas não se estabelecia que havia algo de errado com o fato de os times masculinos receberem 99% do orçamento para esportes e os femininos receberem 1%. As pessoas achavam que essa era a forma como as coisas deveriam ser. Houve uma consciência coletiva a partir dos anos 70 e as pessoas abriram os olhos e viram o quão desigual o tratamento era", afirma a pesquisadora.

A lei se aplicou a instituições de ensino - mas não ao esporte profissional. Mesmo assim, a mudança é vista como o trampolim que revolucionou o ingresso das mulheres nas carreiras profissionais esportivas. Nos Estados Unidos, há bolsas de estudo para atletas frequentarem as universidades, que são pagas. O Título IX tornou ilegal o não oferecimento de bolsas a atletas mulheres. "Isso criou o terreno para o esporte feminino começar a ter, finalmente, suporte para atingir seu potencial pleno", diz Susan.

Na Olimpíada do Rio em 2016, a corredora Allyson Felix, que levou para casa três medalhas, agradeceu à lei de 72. "O Título IX criou oportunidades para mulheres no esporte. Eu me sinto orgulhosa e inspirada pelas mulheres no nosso time", disse. As americanas levaram 61 medalhas para casa nos últimos Jogos Olímpicos - enquanto os americanos levaram uma a menos: 60. Nos Jogos de Munique-1972, portanto antes da lei entrar em vigor, as mulheres dos Estados Unidos conquistaram 23 medalhas. Os americanos tiveram o triplo de conquistas: 71.

A geração da seleção de futebol de 1999, que conquistou a segunda estrela da camisa americana, é considerada o primeiro fruto dessa mudança legislativa. Vinte anos depois, o time de 2019 sabe que chegou aqui graças ao combate à discriminação entre gêneros e se sente na incumbência de impulsionar algo além.

Quatro das 28 jogadoras que estão processando a federação de futebol decidiram criar uma marca - a Re-INC, que será lançada na próxima quarta-feira e deve vender artigos esportivos. A ideia não é só fazer dinheiro, mas aumentar a presença de donas (e não donos) de empresas nos negócios do esporte. O nome é uma referência às palavras reinvenção e redefinição.

Estadão Conteúdo








continuar lendo


Deixe seu comentário!

Comentários