No RN, há um doador para cada recusa de órgão

Publicação: 2019-11-15 00:00:00 | Comentários: 0
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Ícaro Carvalho
Repórter

A cada uma pessoa que autoriza ser doadora de órgãos no Rio Grande, há outra que a família não permite o procedimento. De janeiro a junho de 2019 foram feitas 62 entrevistas com 32 recusas familiares, alcançando uma taxa de 51,6% de negativas. Há, inclusive, uma leve queda em comparação com o mesmo período de 2018, que foi de 59,3%, sendo 59 entrevistas e 35 recusas.

Raíssa Medeiros, coordenadora da Central de Transplantes no RN confirma dados do MS
Raíssa Medeiros, coordenadora da Central de Transplantes no RN confirma dados do MS

Os números foram repassados à TRIBUNA DO NORTE pelo Ministério da Saúde. Em todo o ano de 2018, por exemplo, o quantitativo de recusas atingiu os 70,3%. Isso porque 71 famílias foram entrevistadas e disseram não à doação de órgãos, enquanto que outras 30 autorizaram o procedimento.

De acordo com Raíssa Medeiros, coordenadora da Central de Transplantes do Estado, os números obtidos pela unidade são de que a recusa apresenta uma ligeira diferença aos números do Ministério, caindo para 48%, segundo informações da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos. Ela aponta que a recusa por parte dos parentes acontece em virtude da família não saber se aquela pessoa queria ser doadora de órgãos.

“Boa parte, do que a gente bate em campanha, é o desconhecimento de que o doador quer ser doador. Ele, em morte encefálica, não tem como opinar e quem dá o sim é a família. E as campanhas que fazemos durante o ano todo são sobre a informação. Converse com a família, fale sobre o assunto, explique que você é um doador de órgãos, para que as famílias, na hora de tomar uma decisão dessa, fiquem até mais confortáveis em dizer sim a doação”, analisa.

Ela explica ainda que fatores culturais e religiosos também influenciam na decisão da família em autorizar a doação de órgãos e reforça ainda que, apesar da pessoa ter afirmado em vida que queria ser doadora de órgãos, o parecer final será dos parentes do falecido. Atualmente, o Rio Grande do Norte faz três tipos de transplantes: rim, córnea e medula óssea. Os processos acontecem efetivamente no Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL), para rim e córnea, e no Hospital do Coração, para rim. O transplante de córnea também é feito em outras clínicas de Natal.

Lista de espera
Atualmente, existem 216 pacientes a espera de um transplante para rim e outros 244 para córneas. Até junho deste ano, por exemplo, foram 58 transplantes e 77 de córnea. No caso dos de medula óssea, Raíssa Medeiros não dispunha dos dados, que segundo ela, são inseridos no sistema de outra maneira.

A coordenadora Raíssa Medeiros explica ainda que há um pequeno espaço temporal para que o transplante seja feito. É a chamada isquemia, isto é, o tempo de retirada de um órgão e transplante deste em outra pessoa. Esse tempo varia de quatro horas, para coração, o menor lapso temporal, para até 48 horas, maior período, no caso dos rins.

“A gente não faz transplante cardíaco nem de fígado, então ofertamos fígados porque existem estados vizinhos que fazem o procedimento e eles normalmente aceitam. No tocante a coração, como o tempo é muito curto, são só 4 horas, a gente só retira para transplante quando existe um doador priorizado e uma logística hábil para se retirar o órgão”, explicou.

De acordo com o Ministério da Saúde, há dois tipos de doador: a pessoa viva, que pode doar um dos rins, parte do fígado, parte da medula óssea ou parte do pulmão, e o doador falecido, que são pacientes com morte encefálica, geralmente vítimas de catástrofes cerebrais, como traumatismo craniano ou AVC (derrame cerebral).

Em 2018, segundo a ABTO, 43% das famílias, se recusaram a fazer a doação de órgãos de seus parentes após morte encefálica comprovada. Dados do Ministério da Saúde mostram que, no ano passado, das 6.476 entrevistas familiares para autorização de doação, houve 2.716 negativas, somando 42%, número que vem se mantendo praticamente constante ao longo dos anos.

Projeto de lei quer autorizar doação em vida
Tramita no Congresso Nacional um projeto de lei para permitir a doação por manifestação própria da vontade, feito ainda em vida e sob acompanhamento de testemunhas. O PL 3.643/2019, determina que a família não poderá interferir na retirada de órgãos de uma pessoa com morte cerebral que tenha manifestado em vida a vontade de ser doadora. Neste caso, se a potencial doadora não tenha tomado essa decisão ainda em vida, a família então seria a responsável pela doação após sua morte.

Números
62 é o número de entrevistas feitas no RN de janeiro a junho

32 é o número de recusas familiares para doação de órgãos

30 doações efetivas aconteceram neste período

216 pacientes esperam um rim no RN

244 aguardam por córneas no Estado



Fonte: Ministério da Saúde






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