No solo imaginário das palavras

Publicação: 2017-08-13 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

A área de Clotilde Tavares não é uma, são várias. Seu solo é um terreno fragmentado, um mosaico geográfico que atravessa o mundo físico, palpável, chegando até o mundo dos livros, do teatro, da cultura popular, passando pela internet e até pela Medicina. Sua vida está distribuída por essas áreas e é juntando todas essas áreas feito um tabuleiro de quebra-cabeça que se encontra a verdadeira Clotilde. Natural de Campina Grande, na Paraíba, mas radicada em Natal desde o início dos anos 1970, quando veio a concluir o curso de Medicina na UFRN, Clotilde foi professora da área de saúde na instituição, é atriz e dramaturga, já fez cordel, novela, literatura infanto-juvenil.

Clotilde Tavares | Escritora e atriz
Clotilde Tavares | Escritora e atriz

Dentre alguns de seus livros estão “O Monstro das Sete Bocas” (2015), “Natal, a Noiva do Sol” (2005) e “A Botija” (2003) – que chegou a ser selecionado pelo Ministério da Educação para ser distribuído em bibliotecas de escolas públicas de todo o país. Por seu trabalho a escritora percorre o Brasil ministrando cursos e palestras. “Ensinar é muito estimulante, é uma coisa que faço com o maior prazer”, diz.

Clotilde também tem uma produtiva relação de quase 30 anos com a linguagem da internet. Montou movimentados sites e blogs, hoje mantém perfis nas redes sociais. A novidade agora são os vídeos sobre filmes, séries e livros que têm publicado no Facebook. Para quem transitou por tantos cantos – e ainda se sente motivada para caminhar por muitos outros confins – é natural que a pessoa tenha seu porto seguro, espaço de descanso e de trabalho, ponto de chegada e de partida para os mais variados lugares: A Bolha.

A Bolha é seu apartamento/estúdio em Lagoa Nova, lugar onde escreve, lê, vê suas séries e filmes, se conecta com os diversos mundos. “É onde vivo e trabalho desde que a violência não me permitiu mais morar na minha casa de Capim Macio onde eu também tinha meus bichos e plantas. Chamo de Bolha por causa da temperatura, sempre constante, de 22 graus”, brinca. Os vídeos que publica nas redes sociais são gravados lá. E é de lá também que ela respondeu ao “Minha Área”.

O que a Medicina tem para ter lhe atraído profissionalmente?
Sempre tive muita curiosidade pelas coisas do corpo humano, pelos mecanismos que causavam a doença e a saúde. Também precisava de uma profissão e isso me levou naturalmente à Medicina.

No final dos anos 1970 você publica seus primeiros trabalhos literários. A literatura é a área que você mais tem afeto?
Comecei a publicar nessa época mas escrevo desde a adolescência e fui criada numa casa cheia de livros. Escrever para mim é natural, é quase um estilo de vida.

Em seus livros, o universo da cultura popular é algo bem presente. Como surgiu seu interesse por essa área?
Eu  não “me interessei” pelo cordel: eu fui criada no meio disso, com Mamãe lendo os folhetos pra gente ouvir, trazendo da feira todo sábado pra gente ler, as tias contando histórias, papai ele próprio poeta parnasiano e sonetista mas conhecedor da tradição popular. Além do cordel e da tradição oral, também convivi com música e cinema americanos, histórias em quadrinhos – os famosos gibis -, e o rock and roll, que nasceu e se criou praticamente junto comigo. Isso foi na longínqua década de 1950.

Nos anos 1990 você tem uma produção bem intensa na área das artes cênicas. Foi atriz, dramaturga e diretora. Como o teatro lhe fisgou?
Eu só “fui” diretora, porque experimentei e não gostei muito de dirigir, não me saí muito bem. Aí, “fui”, não sou mais. Quanto a atriz e dramaturga, continuo sendo, tendo feito trabalhos bem recentes. Estou inclusive escrevendo um texto. O teatro me fisgou desde que subi no palco a primeira vez, aos dez anos de idade. Sempre tive um pé lá dentro, me sinto absolutamente feliz quando estou com um trabalho em curso, seja como atriz ou dramaturga.

Nos anos 1990 você decide se afastar da medicina e se dedicar exclusivamente a área artística e cultural. O que a fez tomar essa decisão?
Na Medicina eu trabalhava com Saúde Pública, uma área muito difícil pois sempre está misturada com a política. Muitas vezes havia a solução técnica para um problema grave que afetava a população mas por razões políticas, muitas vezes de política partidária, não era possível implantar essa solução e me cortava o coração ver as pessoas sofrendo. Nem a militância – que sempre exerci – conseguia me consolar. Aí, eu fui ficando triste, e chateada, e para não entristecer de vez caí fora e fui me dedicar apenas à Arte e à Cultura, onde também posso defender aquilo em que acredito.

Que tipos de lugares você mais gosta de visitar?
Não gosto de viajar. Fui há pouco tempo à Europa mas essa foi a minha primeira viagem fora do Brasil. Era algo que eu precisava fazer, já fiz, não penso em fazer de novo. Viajo pelo Brasil sempre para palestras e cursos, e para divulgar meus livros. Não tenho o espírito viajante. Acho viajar muito cansativo, para mim não compensa. Minha viagem preferida é na poltrona, um bom livro, ou, no máximo, o GoogleMaps...

Recentemente você mergulhou na área dos vídeos de internet. Como tem sido essa experiência?
As pessoas lêem menos, mas gostam de ver vídeos e foi por isso que comecei a fazê-los. São vídeos simples, sem nenhum apuro técnico. Eu boto um batom, ajeito o cabelo, ligo a câmera do notebook, falo o que tenho a dizer e desligo. Simples assim. Se complicar mais vira trabalho e obrigação. Coloco no Facebook dois vídeos por semana, um na terça e outro no sábado. Tenho um Canal no Youtube onde esses vídeos também estão disponíveis. É só digitar “Clotilde comenta” na barra do navegador.

Dentre as coisas que você lê, assiste e escreve, seria o universo da fantasia a área que você mais gosta de visitar?
Gosto de uma boa história. Pode ser no mundo da fantasia ou da realidade. Meu leque de preferências vai de Game of Thrones a Quentin Tarantino, passando por House of Cards, Star Wars, Universo Marvel, Irmãos Cohen, The Big Bang Theory, nas séries e cinema; na literatura de ficção gosto de romances históricos mas leio de tudo, tudo mesmo, incluindo poesia. Você pode ver isso pelo que mostro nos vídeos. Também leio muitos ensaios, sobre filosofia e história. Nada como um bom filósofo para acalmar as dores de viver, e vou sempre de Nietzsche e Schopenhauer. E também tem o Bauman, que está na moda, para os desafios deste mundo doido, violento e insano.

Como você consegue passar por tantas áreas e ainda assim ter essa inquietude para experimentar novos campos?
Isso faz parte da minha natureza. Não sei ficar quieta. Vivo cheia de ideias e projetos que precisariam de uns 500 anos para serem todos realizados... E é porque nem falamos de outras coisas que faço como, por exemplo, o crochê. Sou uma crocheteira incansável, porque não sei ficar na frente da TV com as mãos abanando. Aprendi a crochetar sem olhar para poder ler as legendas da tela. E tem também a família, os amigos, a vida cotidiana com suas tarefas, pois moro sozinha e não quero abrir mão dessa autonomia nem tão cedo. Essa inquietude da qual você fala é uma inquietude boa, sem ansiedade. Sou movida pela curiosidade, pelo desafio do novo, pelas surpresas que o Mundo e a Vida ainda têm para me fazer.


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