No tempo do Teatro

Publicação: 2018-12-09 00:00:00 | Comentários: 0
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Woden Madruga
woden@tribunadonorte.com.br

Remexendo nos papéis da gaveta desarrumada encontrei duas cartas do teatrólogo Meira Pires, ambas falando sobre coisas do Teatro Alberto Maranhão, que ele dirigiu por muitos anos, incluindo a restauração da bela casa de espetáculo projetada pelo arquiteto Herculano Ramos, hoje fechada pelo atual governo do Estado para uma nova “restauração” que não passa da soleira. A primeira carta é datada de setembro de 1972, tempo em que Meira exigia o uso de paletó e gravata para certos eventos,  que mereceu críticas desta coluna. Vejamos, então, o que a carta diz:

“Natal, 27 de setembro de 1972.
Woden, amigo:
É aquela velha história: errar é humano, persistir no erro... Embora eu não tenho errado, acho que suas restrições à exigência do traje ‘passeio escuro’ para os Concertos da Armorial e Orquestra Sinfônica do Recife, procedem. Por isto mesmo, deliberei aboli-lo. Várias outras pessoas me pediram a mesma coisa.
Você sabe que eu sempre fui um homem de bom sendo e o tempo de pegar o pinhão na unha já passou. Você sabe, também, que eu sempre gostei de promoções a rigor (lembra-se dos bailes nos jardins do Teatro e do smoking que eu lhe dei de presente para a eles você comparecer?). Como estou tentando rememorar uma época, julguei que seria aconselhável utilizar um meio termo: ‘passeio escuro’ (não ficaria bem passeio café, feijoada ou jantar) e não smoking ou casaca, como outrora.
Mas, que não seja por causa desta tolice que o público, especialmente o público jovem, fique privado de ver esses dois grandes espetáculos que eu, com o sacrifício que você certamente não desconhece, estou promovendo em honra e louvor do velho Alberto Maranhão.
Assim, o traje para os concertos do dia 29 do corrente e 2 de outubro será a passeio, simplesmente passeio, na cor que o espectador julgar mais conveniente.
Obrigado por ter-me alertado em tempo.
Com o velho abraço de,
Meira Pires”

O Projeto Pixinguinha
A segunda carta de Meira é do ano de 1979, quase seis anos depois da primeira. O mote é o excesso de lotação no Teatro, causado, por exemplo, com o Projeto Pixinguinha, um tremendo sucesso. Meira era contra  esse   “excesso” de público.  A história é contada assim:

“Meu querido Woden:
Foi uma alegria o nosso contato telefônico de hoje. Você sabe o bem que lhe quero e não seria o seu ‘carão público’, que o diminuiria. Tudo claro, portanto.
Eu não sou contrário a qualquer promoção que se pretenda efetivar no Teatro. Sou contra, isto sim, ao abuso de muitas que excedam a nossa lotação e estragam, acentuadamente, nossa tradicional Casa de Espetáculos. Considero isso uma agressão ao bom senso e à lógica. Dispomos, apenas e tão somente, de 710 lugares. Passar disto, prejudica até mesmo a central de ar condicionado projetada unicamente para a lotação. Os demais prejuízos você próprio conhece tanto quanto conhece o meu exaustivo sacrifício para manter tudo em ordem dentro da velha Casa. Por outro lado, o excesso de lotação contraria dispositivos da Lei e do Decreto (Lei 4.111 e Decreto n. 6.019) que proíbem qualquer excesso. O Art. 20 Capítulo VII do Decreto n. 6.019, de 07.3.1975, diz o seguinte:
“Em nenhuma hipótese, nos espetáculos, solenidades e demais promoções, poderá exceder a lotação do Teatro”.
Esse decreto regulamentou a Lei n. 4.111, de 07.12.1972 que organizou o Teatro e deu outras providências.
Foi feito, obviamente, com a intenção de preservar esse nosso Patrimônio que eu cuido como se fora meu. O esforço para isso você conhece e reconhece, tenho certeza.
Estou, portanto, à sua inteira disposição para ajudar na promoção do Pixinguinha pedindo-lhe, apenas, que leve em conta este meu apelo. Aluízio (Alves) me disse, em telex de ontem, que caso se confirme o patrocínio do Ducal (hospedagem), “acho que devemos exigir respeito restrito lotação. Peço conversar com Agnelo e Woden”.
Diante disso e convencido de que você me entende muito melhor do que ninguém e sabe que não estou exorbitando, concorrerá para que se cumpra a legislação pertinente e, notadamente, aquela que decorre da necessidade de impedir que o nosso Teatro sofra consequências irreparáveis.
Este bilhete é muito particular e caso tenha de contar alguma coisa na sua coluna, faça-o como uma opinião sua na defesa do nosso Patrimônio artístico e cultural deixando claro, caso lhe convenha, minha disposição de ajudar.
Com o abraço afetuoso do velho amigo
Meira Pires.
27-6-79.”

Congregação Mariana
Bilhetinho rápido do professor Ulisses de Góis, das maiores figuras humanas deste Estado:

“Natal, 14-7-86
Meu caro Woden
Um abraço
Estou agradecendo a quantos prestigiaram o 68º aniversário da Congregação Mariana.
A você, a colaboração da imprensa, no seu apreciado ‘Jornal WM’.
Amigo dos jornalistas, sou muito grato aos favores que me dispensam. A “Tribuna do Norte” me considera e eu espero corresponder. Sei o esforço dos que se dedicam à imprensa.
Cordialmente,
Ulisses de Góis
Telef. 222.1529”

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