Noite

Publicação: 2019-07-21 00:00:00 | Comentários: 0
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Cena Urbana - Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Lua noite
Gosto da noite. É quando o silêncio se faz mais profundo e a escuridão mais invencível. Até que ela mesma, numa luz tênue, filtrada nos longes, comece a desenhar a silhueta de todas as coisas - os morros, as casas, os edifícios. A noite que se estira, preguiçosa e sem pressa, e que se arrasta como um bicho manso entre as pequenas luzes que brilham calmas, enquanto, nervosas, as lâmpadas dos postes se apertam como se fossem olhos míopes olhando as ruas sem ninguém.

Vem a sensação da velha modinha de Ivo Filho e Olímpio Batista Filho que o menino ouvia sua avó Edith, acordando a cidade antiga que vivia em sua própria alma - Tão fria a noite / tão deserta a rua /o céu tão calmo / mórbido e sombrio. A quem entregar essa saudade que passa os dias não sei onde e algumas noites vem, e feito trilha sonora de um tempo vivido, com todos à mesa, fartos de vida, e hoje dormem profundamente, como no verso triste de Manoel Bandeira?   

No entanto, a noite passa, passa... e é tão bonita. Parece feita de todas as lembranças que ficaram num lugar qualquer da memória. Inúteis para os combates da vida, traços de um tempo no qual viver era natural e naturalmente sem temor. Quando até os pecados veniais adormeciam mais cedo e eram perdoados pelo cansaço das carnes aflitas. A cidade dos seus poetas antigos como Ferreira Itajubá que nos seus olhos bêbados guardava a ‘solidão tristíssima dos morros’.

Moram na noite as casinhas que se acocoravam diante do mar, de janelas que acendiam e apagavam entre um sol e outro. A cidade que no carnaval tinha um rei muito bom e muito pobre que abria os braços da ternura humana feita da alegria de viver. A cidade sem imperadores, casta e boa, que fechava suas horas rezando o ofício de Nossa Senhora entre as badaladas piedosas dos sinos velhos da matriz batendo as trindades do anoitecer: ‘Agora lábios meus dizei e anunciai’...

É essa cidade feita de fantasmas que ainda existe aqui, nas fraldas dos morros sem nome. Onde ainda moram todas as coisas e todas as pessoas da cidade perdida que desaparece pouco a pouco, deixando na saudade de cada um dos seus viventes os vestígios da vida que passou. A noite guardadora e guardiã de todas as ruínas, até do amor que não viveu entre os lábios entumecidos de paixão, quando explodia na boca do povo, pecadora como a boca da noite.

Aqui, no descampado verde que se estende como um tapete até os morros, ainda vivem as últimas horas bucólicas da cidade hoje sem manhãs e sem tardes assassinadas nos expedientes.  Dos bichos que pastam e mastigam suas fomes. De cachorros vadios e famintos. Dos gatos pardos e desconfiados que traçam geometrias no caminho sobre muros retos de quintais antigos. Onde grasnam os bem-te-vis e os galos ainda cantam, anunciando a manhã que vai chegar...

Palco

LUTA
Ninguém se engane: a governadora Fátima Bezerra chegará a Brasília com seu dossiê pronto para garantir o empréstimo de R$ 1,1 bilhão. Pode ser a boa salvação deste ano de 2019.

SILÊNCIO
Agosto já aponta na esquina e ninguém tem uma notícia do edital de licitação das linhas de ônibus de Natal. A STTU bem que poderia dizer qual é a previsão oficial. Ou não tem?

ATENÇÃO
O governo poderá enfrentar uma conflagração planetária de greves ou protestos em áreas como Detran, polícia, saúde e Universidade Estadual. Mesmo com toda crise de grana.

AVISO
O escritor Ivan Maciel de Andrade aceitou reunir uma seleção dos seus ensaios, agora fora da obra de Machado de Assis, estes já publicados. Um livro que poderá sair ainda este ano.

ALIÁS
Os artigos do jurista Ivan Maciel de Andrade, na TN, sobre o papel do juiz e o dever de isenção diante dos autos, só honrou a admiração dos seus leitores. E entre eles, este cronista.

ESTRELA
A direção do Festival Literário de Paraty apontou o novo livro do professor Sidarta Ribeiro, da UFRN - “O Oráculo da Noite, a história e ciência do Sonho” entre os mais vendidos.

SÉCULO
A Igreja de São Vicente de Paula, em Mossoró, completa cem anos. Sua construção serviu para oferecer trabalho aos retirantes e no seu entorno foi o combate ao Bando de Lampião. 

EFEITO
Ao aumentar seus próprios salários, os conselheiros do Tribunal de Contas não foram ilegais. Mas o gesto legitima reajuste dos outros poderes e MP. As castas bastam a si mesmas?

Camarim

SERTÕES I
O Instituto Moreira Sales bancou a terceira e belíssima edição de ‘Sertões Luz & Trevas’, com textos retirados de Os Sertões, de Euclides da Cunha, e fotos de Maureen Bisilliat.
Um livro que mereceu uma edição na Alemanha. É um documento de imagens sobre os sertões.

SERTÕES II
A livraria do Campus da UFRN já recebeu a quarta e definitiva edição de ‘No Calor da Hora’, de Walnice Nogueira Galvão. Indispensável para entender a Guerra de Canudos.
Walnice estuda os textos de Euclides como repórter do Estadão, antes da redação de Os Sertões.

SERTÕES III
Ao fechar o texto de apresentação da nova edição, pela editora de Pernambuco, a professora Heloisa Murgel Starling pergunta ao leitor dessa história sobre a quarta expedição, a que vence Canudos: “Existe algo desse passado que não passou?”. Aí, só o livro pode responder.







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