Cookie Consent
Quadrantes
Nortista
Publicado: 00:00:00 - 26/06/2022 Atualizado: 11:44:46 - 25/06/2022
Dácio Galvão
[Mestre em Literatura Comparada, doutor em Literatura e Memória Cultural/UFRN e secretário de Cultura de Natal]

O pulmão do mundo sempre esteve em zonas de fronteiras quase sempre curiosas. Seja por ter reserva florestal radicalmente significativa em biodiversidade para o planeta ou por abrigar a maior população de indígenas isolados.

A inserção da Amazônia no tópico da emergência climática tem sido pauta na mídia internacional nos últimos anos. No momento, a notícia-âncora é a tragédia envolvendo o antropólogo indigenista Bruno Pereira e o jornalista inglês Dom Phillips, assassinados quando desenvolviam trabalhos relacionados a vulnerabilidade de povos originários no Vale Javari.

Os sons amazônicos - conexões sul-americanas e caribenhas - estão sendo sistematizados por Manoel Cordeiro, um dos mestres da guitarrada paraense. Craque em lambada, carimbó, marabaixo, cúmbia, merengue... Será enfeixar esse material num livraço fixando a contribuição desses dinâmicos bens imateriais. Dilúvio sonoro. Acervo-entidade da região norte do Brasil. Na virada do século passado para o atual o pintor, performer e escritor paulistano José Roberto Aguilar resolveu conversar com jacarés em Alter do Chão, no Pará. O periódico The Guardian elegeu a Vila, no município de Santarém, destino dos mais interessantes. Sim! Aguilar dialoga com jacarés! Se envolve no imaginário da Festa do Sairé e do Festival dos Botos, rituais tradicionais, religiosos, folclóricos. Decodificando-os. Adquiriu um pequeno espaço por lá e envolveu-se comunitariamente. Lançou manifesto para o Ano da Cultura e da Dignidade Amazônica-2005. Bradando: “Temos que nos livrar e ajudar a apagar esse conceito redutor junto ao país, de que a Amazônia é apenas um paraíso extrativista de matérias primas. (...) vamos exportar conhecimento e cultura. Esta é a veia mais rentável desta mina de ouro: a sabedoria dos povos das florestas e a cultura dos povos das cidades e vice-versa.” Com a textura do látex criou abstrações alquímicas. Pollockiano: pode criar com dripping (gotejamento) e ou pintar com ou sem pincel.

O ativista roraimense de origem indígena Macuxi e artista plástico, Jaider Esbell é significado e significante do imaginário amazônico. Participou 34ª Bienal de São Paulo, do Museu de Arte Moderna (MAM-SP), da mostra "Moquém_Surarî: arte indígena contemporânea", fazendo também a curadoria. Sem folclorização afirmou: “O colonizador condicionou as culturas originárias a repetir padrões da religião, da moral e da arte europeias e agora querem se apropriar daquilo que não entendem, como o sagrado, a cosmogonia, a mitologia e a comunhão ambiental.” Dois trabalhos autorais ‘Carta ao Velho Mundo’ (2018-2019) e ‘Na Terra Sem Males’ (2021), foram adquiridos pelo Centre Georges Pompidou, Paris. 

O som amazônico de Sebastião Tapajós voou e dialogou com o de Gerry Mulligan, o de Astor Piazzolla, Oscar Peterson... Transgrediu territórios em improvisos para além do que Villa-Lobos o romantizou. A escritura xamânica de Davi Kopenawa Yanomami autor do livro ‘A Queda do Céu’ que substancializou o filme ‘A Última Floresta’ é dedicado a causa do seu povo. Kopenawa mantêm acesa a autonomia de uma cultura amazônica identitária e por isto cosmopolita. O alento do substrato nortista é que advém dos mistérios amazônicos e suas morfologias macunaímicas grandezas maiores do que as sombrias ameaças humanas.


Leia também

Plantão de Notícias

Baixe Grátis o App Tribuna do Norte

Jornal Impresso

Edição do dia:
Edição do Dia - Jornal Tribuna do Norte