Nos alpendres, como Mário de Andrade

Publicação: 2017-04-02 00:00:00 | Comentários: 0
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No ano de 1928, o escritor modernista paulista Mário de Andrade deu seguimento à sua segunda viagem etnográfica ao Nordeste, para coletar documentos musicais populares. No Rio Grande do Norte, depara-se com o cantador potiguar Chico Antônio, em visita ao Engenho Bom Jardim, na zona rural do município de Goianinha, região Agreste, onde se hospedou por 10 dias, já em 1929. O encontro é registrado no diário do viajante e, ainda no calor da hora, em crônicas na imprensa norte-rio-grandense e paulistana. A vida e a liberdade criadora do cantador valem ao ficcionista como fonte para um entrecho romanesco.
Há dois séculos com a mesma família, que está na sexta geração, Fazenda Bom Jardim produz no engenho cachaças muito famosas
De tão impressionado, comparou tal cantador especial a célebres tenores, como Beniamino Gigli  e Enrico Caruso. De início, o escritor decide aproveitá-lo como um dos personagens principais do romance Café. Mas, não concretizou o projeto. Decidiu, então, publicar, com acréscimos das crônicas de O Turista Aprendiz, em um texto em seis partes, semanalmente, de agosto a setembro de 1943, no rodapé “Mundo Musical” da Folha da Manhã, sob o título “Vida do Cantador”. Chico Antônio, natural da cidade de Pedro Velho, era funcionário do engenho e, nas horas vagas, mostrava seu dom artístico, como embolador, coqueiro e cantador.

Mário de Andrade, figura maior da Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo, em 1922, já consagrado à época de sua viagem ao RN como um dos maiores escritores brasileiros de então, veio ao estado a convite de Antônio Bento e Luís da Câmara Cascudo, para estudar nossa cultura popular. Em Natal, ele permaneceu por toda a segunda quinzena de dezembro de 1928, e, em janeiro de 1929, foi ao Engenho Bom Jardim, para conhecer a família de Antônio Bento.

De início em Natal, na companhia de Câmara Cascudo, não gostou muito do que via e decidiu explorar o interior do estado, com viagem ao Engenho Bom Jardim, onde iria passar apenas um dia e ficou hospedado por dez, e também no município de Vila Flor.

Dona Helena Araújo, matriarca da família e atual proprietária do engenho, conta que nesse período “o escritor estava em viagem de pesquisa musical e etnográfica pelo Nordeste e conheceu no engenho o coquista Chico Antônio. O modernista paulista fez dele um personagem de dois de seus livros. Ele não conhecia o Nordeste, veio para conhecer nosso folclore e escrever o livro Macunaíma”. Em o “Turista Aprendiz”, o escritor fez várias citações do seu encantamento pelo lugar e, principalmente, pelo talento do embolador: “...Chico Antônio não é só a voz maravilhosa e a arte esplêndida de cantar: é um coqueiro muito original na gesticulação e no processo de tirar um coco”.

O encontro de Mário com Chico Antônio foi decisivo para a vida do coqueiro. O estudioso paulista ficou realmente perplexo diante do encantamento que lhe despertou a arte do potiguar. Esse deslumbramento ele iria traduzir em de três crônicas de viagem, posteriormente enfeixadas no volume do Turista Aprendiz, no qual Mário diz coisas assim: “Estou divinizado por uma das comoções mais formidáveis da minha vida”. Chico Antônio não sabe que vale uma dúzia de Carusos”.

“A encantação do coqueiro é um fato e seu prestígio na zona, imenso. Se cantar a noite inteira, noite inteira os trabalhadores ficam assim, circo de gente suada sentada, acocorada em torno de Chico Antônio Irapuru, sem poder partir”, descreve o intelectual modernista. Continua: “E falou coisas de uma comoção tão simples, ditas com a verdade verdadeira dos homens simples;...”.

O registro do encantamento não se limitou às crônicas em que descreveu a personalidade do cantador, mas na abundância de material colhido, no trabalho diário, durante todo o tempo em que esteve no engenho. Material que foi posteriormente aproveitado em dois livros, o primeiro dos quais já publicados, Os Cocos, saído no ano de 1983, sob a supervisão da pesquisadora Oneyda Alvarenga, e o livro “Melodias do boi e outras peças”.

Durante a temporada no engenho, o escritor passava todas as músicas de Chico Antônio para o papel e depois, no piano da casa grande, cifrava todas, deixando o embolador impressionado. A casa grande é um prédio do começo do século XIX, de paredes de taipa, ampla varanda, janelões, e pátio ajardinado, típica construção do Brasil colonial, mantida praticamente a mesma até os dias de hoje, segundo o professor Juvino Pegado Cortez Neto.

Depois do encontro com o escritor, e a oportunidade que o havia dado, Chico Antônio se referia ao patrão Antônio Bento como sendo o seu "compadre" e “protetor”. A Mário de Andrade, tinha como  "um santo", que modificou sua vida e ofereceu a chance de cantar em São Paulo.

Percurso histórico da fazenda
A história da fazenda começa no início do século XIX, quando Manoel Pegado adquiriu terras no município de Goianinha, onde instalou um engenho, que recebeu o nome de Arvoredo.

Por volta de 1850, Pegado passou as terras, por herança, às mãos de seu genro, Coronel Antônio Bento de Araújo Lima, que se casou com dona Maria Camila. Com outras áreas adquiridas, a propriedade recebeu a denominação de Engenho Bom Jardim, nome que prospera até hoje.       

No início, o engenho era movido à tração animal. Naquela época, a economia da região se baseava em atividade agropecuária, destacando-se o cultivo da cana-de-açúcar e do algodão, assim também como a criação de gado.

A partir de 1872, foi instalado o sistema a vapor, que produzia açúcar mascavo, aguardente e melado. No mesmo período, a fazenda recebeu a indústria de beneficiamento do algodão.

Há dois séculos com a mesma família, que está na sexta geração, a Fazenda Bom Jardim produz no engenho, que fica em frente, cachaças muito famosas na região: Maria Boa e a Mucambo, orgulho dessa geração.

Na atual fase da fazenda, a família de dona Helena de Araújo Lima está desenvolvendo o turismo rural, com visitas agendadas à casa grande, onde os visitantes são recebidos com um delicioso e farto café da manhã, servido no seu alpendre.

Patrimônio Histórico
Para preservar a casa grande em memoria do coronel Bento, a família solicitou ao governo do estado, por meio da Fundação José Augusto, o tombamento da fazenda. Iniciativa de Amaro Bezerra de Araújo Lima, um dos familiares dos proprietários, que solicitou ao órgão estadual responsável por tombamentos, com a justificativa de que a fazenda é um conjunto de adereços históricos que demarcam a vida cotidiana de varias épocas, assim também como das pessoas que por ali passaram e deixaram um pouco da sua cultura. E que o tombamento é essencial para a manutenção e preservação das áreas naturais assim também como os bens imóveis.

Casarão bicentenário
Para contar um pouco da história da casa grande, dona Helena de Araújo Lima, 94 anos (94 anos e cinco meses como a mesma se refere), enche-se de felicidade. É a única que ainda mora na casa quase bicentenária. O interior da residência tem poucas alterações, apenas a parte externa sofreu algumas, para receber o público. A estrutura possui quatro quartos e três salas com funções definidas, incluindo uma bastante interessante, cujo acesso das mulheres era proibido. O mobiliário reúne peças que pertenceram a diferentes gerações de moradores. Foi construído um pátio ao lado da casa para servir as refeições aos visitantes, com cardápio elaborado por Dona Helena e suas filhas.


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