Nos mimeógrafos da estrada

Publicação: 2019-10-25 00:00:00 | Comentários: 0
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Alex Medeiros
alexmedeiros1959@gmail.com

Meado dos anos cinquenta, a boate Sacha’s – criada por Sacha Rubin e Carlos Machado - como epicentro da cena cultural carioca, do ambiente café soçaite, época do domínio do samba-canção nas rádios, auditórios, bares e restaurantes. Numa noite, o pianista tocava “Ninguém me Ama”, sucesso nacional na voz de Nora Ney, quando um cara levantou da mesa, bateu palmas, e foi ao microfone para reparar um detalhe na letra daquela melodia.

Se como na gravação original o pianista cantarolou “ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de meu amor”, o cliente ao microfone fez uma paródia: “ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de Baudelaire”. A alusão ao poeta francês das “flores do mal” era coisa do próprio compositor do hit de 1952, o jornalista pernambucano Antônio Maria, que naquela noite de boemia resolvera fazer uma intervenção na própria obra.

Aí a roda do tempo rolou, a bossa nova ocupou o espaço do samba-canção, a jovem guarda atropelou a bossa nova, o tropicalismo descascou o iê iê iê e a geração mimeógrafo deu asas à poesia marginal que voou por ruas e becos.

Enquanto Torquato Neto, Cacaso, Leminski, Geraldo Carneiro, Chacal, Ana C. César, Leila Mícolis, Wally Salomão, Vera Pedrosa, Charles e outra galera rasgavam as vísceras dos versos, minha geração iniciava a reverberação.

A poesia pipocava aqui, ali, entre Natal e São Paulo, de Brasília a João Pessoa, como uma segunda onda do maremoto poético. Muitos dos marginais do Movimento Alissara beberam na fonte dos poetas beats do clube Kerouac.

Em versos e gestos, no porte de caderno ou caderneta debaixo do braço como uma arma carregada para ações imediatas de poesia, na rebeldia inerente a todos, ali estava a influência de Jack Kerouac, o bardo que abriu a estrada.

Sempre vi uma ponte neural entre o movimento beat e a melancolia do samba-canção. E nesta semana que o mundo registra os 50 anos sem Kerouac, misturo episódios que demonstram minhas suspeitas sobre as aparências.

No final dos anos 70, o poeta Nicolas Behr resgatou a autochupada de Antônio Maria e tascou “ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama nicolas behr”. O versinho virou rastilho e explodiu em xerocópias natalenses.

No intrépido Grupo Aluá de Poesia, os sarais diários nos bares Zumbar e Mintchura, ou nas travessias entre o Beco da Lama e o Alto do Juruá, versos diversos na caneta de Aluizio Mathias, Ciro Pedrosa, João Barra, Dorian Lima.

De Aluizio saíram “ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de Volonté” e “ninguém me dá dinheiro, ninguém me chama Venâncio Pinheiro”. O resto da tropa saiu em desordem unida praticando paródias do velho Maria.

Lembro que Ciro fez a sua, João Barra e Dorian também; até na Paraíba com Pedro Osmar – frequentador do Festival de Arte do Forte – disparou “ninguém me ama, ninguém me curte pra caralho, ninguém me chama de Zé Ramalho”.

Useiro e vezeiro dos improvisos em guardanapos, muitos guardados pelo colecionador de memórias Lenilton Teixeira, eu também fiz o meu: “ninguém me dá destaque, ninguém me chama de Kerouac”. Ontem, a morte de Walter Franco me trouxe de novo aqueles anos. Quantos ainda seguem na estrada?

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