Nos porões da memória

Publicação: 2018-06-12 00:00:00 | Comentários: 0
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Valério Mesquita
Escritor

01) Sabe-se que os vereadores são os políticos mais próximos ao povo. Funcionam como veículos dos anseios populares. Agarrado às raízes, o vereador é tema permanente para o folclore político. Conta Caboré que o fazendeiro Nelson Canuto, do velho PSD, certo dia apresentou uma emenda ao orçamento municipal. Na hora da votação o presidente da câmara, como de praxe, indaga ao plenário: “Os que concordarem com a matéria, permaneçam sentados!”. Canuto levantou-se para o espanto dos seus pares. Curioso, o presidente perguntou: “Nobre vereador, V.Exa é a favor ou contra a emenda?”. O indecifrável Canuto, sem entender o que estava ocorrendo, disparou a inquietante interrogação: “Qui inmenda??”.

02) Falar em mineiro, vale a pena recordar uma história do inesquecível Tancredo Neves. Em certa fase da política dos Alterosas, Tancredo teve que se reaproximar do seu arqui-inimigo Aureliano Chaves da antiga UDN. Dona Risoleta Neves, mulher altiva e sincera, represava velhos rancores de Chaves. E resolveu fazer coro ao lado de uma legião de amigos contra essa conciliação. “Estás lembrado Tancredo, das perseguições que o Aureliano te impingiu?”. “Sim, Risoleta”, respondeu o velho cacique pessedista Tancredo Neves. “Só que não te disse, também, o que eu fiz contra ele?”.  Qualquer semelhança com fatos ou pessoas da política potiguar é mera coincidência.

03) O amigo Joaquim Tavares, enviou-me duas curiosidades. Flores da Cunha foi interventor no Rio Grande do Sul, nomeado por Getúlio Vargas. Era viciado em corrida de cavalo e mulher. Tinha três, quatro mulheres, dizem. Foi um homem de posses, de fortuna mas morreu pobre. Certa vez, um jornalista lhe perguntou: “General, o senhor foi um homem rico e hoje perdeu sua fortuna, como o senhor explica?”. “Meu filho, de cavalo lerdo e mulher ligeira ninguém escapa”.

04) Na Paraíba havia uma disputa entre Rui Carneiro e Zé Américo pela senatória. Rui Carneiro era acusado pelos adversários como “político que desviava dinheiro do governo de Juscelino” que mandava para os flagelados da seca. Num comício em Catolé do Rocha, um eleitor perguntou: “Senador Zé Américo, porquê carneiro só engorda na seca?”. Zé Américo  responde: “Porque come as folhas de pagamento dos flagelados”. Zé Américo foi aplaudido de pé.

05) Cenário dessa história é o Tribunal de Júri, reunido em Macaíba cuja jurisdição abrange o município de Bom Jesus. Um dia, antes do julgamento, a única testemunha de um crime ocorrido na cidade era o popular Chico Timbuca. Foi procurado por familiares do réu para negar terminantemente que presenciara o crime. Na hora de sua inquirição, após a leitura da qualificação da testemunha, filiação, profissão, etc., veio, ao final, a pergunta arrasadora do juiz: “O senhor estava presente ao assassinato de Fenelon?”. Chico Timbuca, levantou a cabeça, fitou o réu e calmamente se dirigiu ao juiz: “Espere, Doutor, e o compadre Fenelon morreu?”.

06) Manoel Paulino, ex-prefeito de Jardim do Seridó, foi um capitão de longo curso da política seridoense. Figura afável, temperamento calmo, sempre cultivou uma legião de amigos, inclusive aqui em Natal. Um deles, o Dr. Nélio Dias que sempre gostava de ouvir as prosas do homem do interior. Perguntou-lhe Nélio qual teria sido o momento mais difícil de sua vida política. Paulino pensou e respondeu: “Foi no meu segundo mandato de prefeito”. E continuou. “Uma comadre me procurou para se queixar do marido, um insaciável, furibundo e libidinoso homenzarrão. Deplorava a pobre mulher exigindo  sexo sem ao menos respeitar aqueles dias sagrados do regulador Xavier. Ela se sentia exausta, estafada”. O velho Paulino se viu numa sinuca de bico. Confessou que foi o momento mais dramático de sua vida político-paroquial. Imaginava como abordar um assunto tão íntimo com a figura franca e estúpida do seu compadre. Mas criou coragem, respirou fundo, e chamou o compadre para em tom professoral ensinar: “Meu compadre e amigo, queria lhe fazer um pedido muito delicado. Poupe mais a minha comadre, a fim de você usufruir mais”.


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