Nos porões da memória

Publicação: 2020-01-14 00:00:00 | Comentários: 0
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Valério Mesquita
Escritor

Neco Dantas, sujeito moralista, bigodão de meter medo, tinha um defeito quando bebia: não se controlava, bebericando, e dormia onde estivesse. Certo dia, alguns amigos encontraram Neco em profundo sono etílico, em uma rua esquisita. Resolveram, então, aprontar uma com ele. Quebraram alguns ovos, enxovalhando a calça do ébrio, principalmente na braguilha e nos fundilhos. Neco Dantas ao acordar, passou a mão no molhado e não gostou. Saiu bravo pelas ruas, procurando quem “fez aquilo”. Ao chegar à barbearia, alguém o saudou: “E aí Neco, tudo bem?”. Brabo, demais respondeu: “Eu queria saber...”. Um freguês que lia um jornal, interrompeu: “Olha aqui essa manchete! Pegaram um bêbado à noite, e fizeram “tudo com ele”!”. Neco Dantas, ouvindo isso, baixou o facho: “Vixe Maria. Notícia ruim anda ligeiro. Vou já pra casa!!”.

02) O sargento Lolô, célebre personagem de um crime ocorrido em Natal, lá pelos idos dos anos cinquenta, participava do júri que definiria sua culpabilidade. Sala cheia, calor, fumaça profusa dos fumantes, tensos e aflitos. O réu, sabendo que o seu destino estava selado, soltou um poderoso flato que chamou a atenção dos circunstantes. Para responder aos olhares dos curiosos justificou-se: “Eu fico preso, mas você sai.”

03) Em Macau, o comerciante Adauto Fonseca viajava com o seu motorista Osório com destino a Natal. Quando passava à altura de Maçaranduba (São Gonçalo do Amarante) o caminhão faltou freio. “Adauto!”, grita o chofer, “segure aí que vou virar o carro pro seu lado”. Resposta espavorida do patrão: “Por que não vira pro seu!!!”.

04) Em Pendências, havia um indivíduo alcunhado de “Cão”. Na zona rural do município, achando-se popular, foi pedir água numa residência. “Quem é?”, gritou lá de dentro a dona da casa. “É “Cão””, respondeu o confiante comunitário. “Então vá beber água no inferno!”, fuzilou a mulher sem mais contemplação.

05) Voltando a Macau, chega-me o causo de Adalberto, que sofria de total surdez. Em 1957, a cidade ainda não era servida pela rede de abastecimento d’água. O precioso líquido provinha de Pendências, distante vinte quilômetros, transportado por caminhão-pipa. O motorista do veículo, o surdo Adalberto, havia casado naquele dia e quando estacionou em frente à casa de Levani de Freitas, este perguntou em voz alta: “Mouco, casou?”. Pensando que o prefeito se referia ao número de viagens para Macau, respondeu de pronto: “Já dei duas!”.

06) O bom Hirohito Santiago, 32 anos de vivencia e convivência em Mossoró, anotou esta e outras jóia do humor potiguar. O restaurante “Quixabeirinha” era parada obrigatória para quem viajava no trecho Natal/Mossoró. Certa vez, o expresso da Nordeste parou no estabelecimento e todos desceram com propósitos diversos. Expedito Bolão, sentando-se no salão, pediu a garçonete: “Por favor, traga-me cuscuz e três ovos mexidos”. A moça anotou o pedido e saiu rumo à copa. Um pouco adiante parou e perguntou a Expedito: “O senhor usa sal nos ovos?”. O irreverente Bolão respondeu: “Não. Eu uso talco Rossi...”.

07) Doutor Zé Leão, mossoroense de boa cepa, um misto de cético e gozador, passeava pelo centro da cidade, quando deu de cara com uma cigana. Foi aquela conversa, aquele papo de enrolação. Zé Leão, precavido, exclamou: “Eu não acredito em nada disso”. A cigana insiste: “Tu me dá cinco contos e fecho teu corpo e nem um mal vai te pegar”. Zé Leão com uma nota de cinco à mão falou: “Fecha, mesmo?”. A cigana assegurou: “Minha palavra é ouro e minha reza é forte”. Em seguida, botou a nota no bolso da saia, fez um blá, blá, blá e completou: “Pronto meu filho, teu corpo tá fechado.” Zé Leão duvidou: “Tá, mesmo?”. Presepeiro como ele só, soltou um pum que mais parecia apito de um navio e emendou, já com a mão no bolso da velha: “Me dá meus cinco. Você deixou um buraco aberto.”


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