Natal
Nossa Senhora da Apresentação: muito além dos dados da violência
Publicado: 00:00:00 - 13/05/2018 Atualizado: 15:26:16 - 14/05/2018
Luiz Henrique Gomes
Repórter

"No conjunto Nova Aliança, na zona Norte, mais um jovem foi morto por uma dupla que estava em uma moto", anuncia o apresentador de um noticiário policial de Natal para a audiência, em uma narrativa que se repete quase que diariamente. Nova Aliança faz parte do bairro de Nossa Senhora da Apresentação, o recordista em números absolutos de homicídios na capital. A repetição e a estatística, para muitos, são suficientes para considerá-lo o mais violento da cidade. Mas, para os moradores, é diferente: a violência existe, mas não é maior do que a presente em outros bairros. Com a análise dos dados proporcionais, essa última visão é reforçada.

Magnus Nascimento
No Parque dos Coqueiros, que faz parte do bairro, único posto policial está sem funcionar

No Parque dos Coqueiros, que faz parte do bairro, único posto policial está sem funcionar


No Parque dos Coqueiros, que faz parte do bairro, único posto policial está sem funcionar (foto: Magnus Nascimento)

Leia Mais



Nossa Senhora da Apresentação é o maior e mais populoso bairro da Região Metropolitana de Natal, com 1.024 hectares e aproximadamente 100 mil moradores. Até o dia 11 deste mês, 31 homicídios foram registrados neste espaço – o maior número entre os bairros da capital. Visto de forma proporcional, no entanto, tem índice de homicídios médio, segundo o Observatório da Violência Letal do Estado (Obvio), instituto que reúne os dados. São 31 homicídios por 100 mil habitantes, enquanto o Bom Pastor, na zona Oeste, registra 58 homicídios por 100 mil habitantes – e está no topo dessa estatística; Nossa Senhora da Apresentação está em 11º.

“Existe violência, desemprego e muitos outros problemas sociais, com educação, saúde, mas não é exclusividade”, declara Wéllis Freitas, diretor da Unidade Básica de Saúde do Vale Dourado, um dos conjuntos do bairro. “Hoje, o bairro sofre estigma muito grande por causa dos índices, mas ele não se resume a isso”, conclui. Para ele, Nossa Senhora da Apresentação não é 'o inferno', mas também não é 'o paraíso'. Essa opinião é seguida por moradores e, para entender a complexidade do bairro, é preciso resgatar a sua história.

Se fosse um município, Nossa Senhora da Apresentação seria o quarto mais populoso do estado. Os moradores estão espalhados em conjuntos e loteamentos, ocupados em diferentes épocas e contextos sociais. A ocupação do território onde fica localizado começou ainda na década de 70, com migração da população do interior do estado. Com baixa escolaridade e índice de pobreza alto, cresceu de forma desordenada e se configurou em periferia de Natal. Somente em 1994 foi reconhecido como bairro e ficou apto a receber políticas públicas.

Mesmo após reconhecido, continuou a ser expandido, criando “periferias da periferia” - termo acadêmico utilizado para definir áreas de um bairro com maior ausência do Estado. São nesses espaços, segundo especialista Ivênio Hermes, coordenador do Obvio, que os homicídios estão concentrados. “As mortes do bairro ocorrem nas mesmas ruas e conjuntos, onde não tem política pública nenhuma. Se continuar assim, a tendência é que a violência se dissipe no território”, conta. “A dinâmica observada nesses mesmos locais não difere em nada da vista em bairros como o Bom Pastor: violência onde não tem planejamento”.

A desigualdade interna está evidente na diferença de Índice de Desenvolvimento Humano Municipal entre conjuntos do bairro, apresentado pelo IBGE no censo de 2010. Parque dos Coqueiros, fundado na década de 1980 e um dos mais conhecidos, tinha 62,7% dos jovens com ensino fundamental completo. Já loteamentos mais recentes, como o Jardim Progresso, da década de 2000, tinham 35%. A renda per capita do primeiro em 2010 era de R$ 621, e a do segundo, R$ 316.

Leia também

Plantão de Notícias

Baixe Grátis o App Tribuna do Norte

Jornal Impresso

Edição do dia:
Edição do Dia - Jornal Tribuna do Norte