Nosso reggae: Banda Alphorria volta com tudo e lança oficialmente o EP 'Quilombola'

Publicação: 2020-09-30 00:00:00
Tádzio França
Repórter

Banda que pôs o reggae de sotaque potiguar no mapa nacional, o Alphorria pode não ter pressa para lançar discos, mas faz questão de caprichar quando reaparece em cena. O grupo retomou as atividades em torno de seu novo trabalho, o EP “Quilombola”, que após um pré-lançamento em janeiro, terá seu lançamento oficial no próximo sábado (03/10), com direito a videoclipe e uma live às 20h, direto do restaurante Tempero da Zefinha, em Tabatinga, um lugar paradisíaco do litoral sul que serve de cenário e também inspiração para os novos sons do quarteto regueiro.

Créditos: DivulgaçãoNova formação tem metade do número de integrantes que o grupo tinha nos anos 90 e 2000, o que não deixou o balanço do Alphorria menos felizNova formação tem metade do número de integrantes que o grupo tinha nos anos 90 e 2000, o que não deixou o balanço do Alphorria menos feliz

“Quilombola Sibaúma” foi escolhida para ser a música de trabalho e ter o primeiro videoclipe. É a canção que sintetiza a temática do disco, um registro das lutas do povo negro potiguar por liberdade. O mote é a origem do quilombo de Sibaúma: conta-se que os escravizados sobreviveram ao naufrágio de um navio negreiro, chegando à costa potiguar e fundando um quilombo. “Sobreviveram duas vezes: à escravidão e ao naufrágio, verdadeiros guerreiros. A questão racial ainda esta muito presente em nossas vidas. O preconceito precisa ser combatido sempre”, afirma Jolian Joumes, cantor e baixista.

A mensagem politizada de “Quilombola”, segundo Jolian, entra em sintonia com as demandas contemporâneas de movimentos como o 'Black Lives Matter', e à busca por identidade do negro brasileiro. “É urgente que cada ser humano repense seus conceitos e abomine os preconceitos. Por isso enaltecemos antigos atos de bravura que reverberam até hoje”, enfatiza Jolian. A música também faz referências ao zambê, dança negra de origem, e ao quilombo Negros do Riacho, de Currais Novos.

O músico ressalta que o novo trabalho também tem espaço para outros temas, como o amor em “Zen”, a espiritualidade de “Iêmãejah”, e a festa de “Rasta pé”, com a turma do DuSouto, que mixam reggae com forró para provar que os ritmos vêm da mesma fonte. Já “System base of life” retoma o tema politizado, misturando frases em inglês e português, com uma pegada de hip hop.

O vídeo de “Quilombola” também vem cheio de ação e simbologias. Foi gravado na comunidade da África, na Redinha, uma área vulnerável mas cheia de arte. O cenário foi o galpão do projeto Novos Valores, um espaço ocupado por grafiteiros, rappers e atletas, no qual a banda pôde sintonizar sua música à vontade. Assim como na música, o clipe também conta a participação dos rappers Breno Slick e Koala, da banda Time de Patrão.

Os b-boys do projeto Novos Valores também comparecem com dança e movimento em cena. O vídeo, que foi dirigido, roteirizado e editado por Carito Cavalcanti e Fernando Suassuna, é complementado por imagens raras do documentário clássico “Africa Speaks” (1930), do norte-americano Walter Futter.

“Quilombola” é o primeiro trabalho inédito do Alphorria desde o disco homônimo de estreia, lançado em 1995. São 25 anos de estrada. A banda agora está mais enxuta, tendo, além de Jolian nos vocais e no baixo, Chico Bethoven (sax, flauta, percussão e voz), Carlos Suassuna (guitarra) e Sívio Franco (bateria e percussão). Em algumas ocasiões, dois músicos são chamados para complementar os metais.

É metade do número de integrantes que o grupo tinha nos anos 90 e 2000, o que não deixou o balanço do Alphorria menos feliz. “Os músicos estão mais experientes, a sonoridade alcançou uma maturidade. Ainda temos a vontade de tocar, que é o estopim de tudo. Enquanto houver o desejo de subir no palco e tocar, se divertir e divertir quem estiver junto, vamos continuar fazendo nosso som. O público se renova e isso nos dá uma motivação grande”, afirma Jolian.

A segunda metade dos anos 90 foi a época em que o reggae virou pop no Brasil. Nomes como Skank e Cidade Negra mandavam nas paradas, e no rastro desse balanço surgiu o Alphorria. O disco emplacou “Banana Reggae”, que teve um vídeo com alta rotação na MTV (e foi regravada anos depois pela banda baiana Araketu), além de uma versão de “Malandrinha”, de Edson Gomes, “Sonho rasta” e “Aponto pro futuro”. Abriram shows para estrelas como Cidade Negra, Lulu Santos, Tribo de Jah, Asa de Águia, e Edson Gomes. A banda também chegou a puxar bloco no Carnatal.

Após ter o primeiro lançamento de “Quilombola” atrapalhado pela pandemia, o grupo espera que após o controle do coronavírus as novas ideias do Alphorria possam ser apreciadas melhor. “Depois da pandemia queremos tocar esse novo trabalho o máximo de vezes possível. Gravar um segundo clipe. Ir a festivais, participar de eventos e compor mais músicas, já tem algumas na agulha pra finalizar”, conclui.

Serviço:
Lançamento do EP “Quilombola”, do Alphorria. 
Sábado (03), às 20h, no Youtube da Beju Produções. 









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