Nova função para a Travessa Pax

Publicação: 2017-08-12 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Ramon Ribeiro
Repórter

Resquício de uma Natal de meados do século XIX, antes de iniciar seu desenvolvimento urbano, a Travessa Pax, na Cidade Alta, é um reflexo de como a cidade trata sua memória: com descaso. O logradouro que liga a rua São Tomé à avenida Câmara Cascudo (antiga Junqueira Aires) é uma das raras vias da cidade que ainda guardam o calçamento original, feito com pedras da maré, também conhecidas como pedras “cabeça de nêgo” - arenito ferruginoso (encontrado na base de falésia da Via Costeira). A via está deteriorada, com buracos e falhas que desconfiguram sua estrutura original. Mas uma ação conjunta entre várias secretarias do município pretende recuperar o calçamento e dar nova função ao local.

Projeto de recuperação e ocupação cultural da rua do Centro Histórico deve sair até novembro, numa parceria de várias secretarias municipais. Para as ativações, um grupo de músicos está se mobilizando para tornar o espaço um ponto de encontro para o chorinho potiguar

Um dos órgãos envolvidos é a Fundação Capitania das Artes (Funcarte). Segundo o secretário de cultura Dácio Galvão, a ideia é transformar a travessa num espaço cultural, aproveitando a localização da via em pleno corredor cultural da cidade. “A rua está numa área tombada pelo Iphan-RN (Instituto do Patrimônio Histórico e Cultural Nacional), tem instituições culturais ao redor, é natural transforma-la num espaço voltado para as artes”, diz o gestor. “Seria uma solução criativa para aquela área”.

A via está fechada para carros, por meio de algumas estruturas de concreto. Mesmo assim é possível ver veículos estacionados no local. De acordo com Dácio, as primeiras providências serão articular o fechamento correto da rua e o restauro da pavimentação original de pedra – feita por escultores especializados em trabalhos com aquele tipo de material.

Com relação às obras do projeto, está previsto a construção de um palco removível, vazado por baixo para respeitar as pedras. Bancos artesanais de granito também devem ser instalados na área, mas de maneira compatível com a estética do espaço. Questões de acessibilidade e de escoamento das águas pluviais também serão solucionadas pelo projeto. Segundo Dácio, outra ideia seria a de colocar esculturas de nomes importantes da cultura popular do Estado, mas vai depender dos recursos.

“Já fizemos visitas técnicas no local, vimos os pontos críticos. É preciso fazer algumas obras simples. Já comunicamos o Iphan sobre o interesse de revitalizar a rua e eles sinalizaram positivamente. Por ser área tombada pelo governo federal, vamos contar com o acompanhamento deles para não termos que interromper as obras no meio do processo”, comenta o secretário, revelando que o projeto arquitetônico está sendo doado pelo escritório do arquiteto Carlos Augusto.

Além da Funcarte, participam do projeto as secretariais de Mobilidade Urbana (STTU), Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb), Limpeza Pública (Urbana), Obras Públicas e Infraestrutura (Semov) e Serviços Urbano (Semsur). “Os recursos devem vir da STTU. Outras secretarias devem entrar com materiais disponíveis, como a Semurb, que conta com reserva de meio-fios. A questão da iluminação da área também precisa de ajustes. É uma ação que precisa da participação de vários órgãos e que concretizada vai beneficiar a cultura e o turismo na cidade”, argumenta Dácio. “O prefeito se mostrou interessado na projeto, vai fazer a articulação interna com as secretarias para dar andamento no processo, mas quer ver o projeto pronto para bater o martelo”.

Essa não é a primeira vez que um projeto para preservar e revitalizar aquela área é pensado. Na STTU existia um projeto arquitetônico que previa uma via asfaltada para passagem de carros, calçadas nos dois lados da rua e estrutura de vidro sobre a pavimentação antiga para tanto preservar as pedras quanto permitir sua visualização. A travessa também ganharia um pórtico de ferro nas duas entradas. Segundo Dácio, a execução desse projeto exigiria mais recursos. Como a prefeitura não os dispõem, optou-se por algo mais em conta. “Aquela estrutura pensada demandaria uma manutenção rigorosa. Então pensamos num projeto de restauro e revitalização que mostrasse a vivência de como aquela rua era”, comenta.

Espaço para o chorinho potiguar
Dácio estima que é possível entregar a Travessa Pax restaurada em novembro, dentro da agenda do Natal em Natal. Segundo o secretário, um grupo de músicos está se mobilizando para tornar o espaço um ponto de encontro para o chorinho potiguar.

“A turma está coletando assinaturas para levar ao prefeito”, conta. “Se a iniciativa dos músicos se consolidar, pensamos em entregar a rua com uma programação que privilegia o choro. Um dos nossos grandes nome do choro, K-Ximbinho (1917-1980), completou 100 anos de nascimento em 2017. Poderíamos fazer uma homenagem. Mas por enquanto tudo são só ideias”.

Se a iniciativa dos músicos se consolidar, pensamos em entregar a rua com uma programação que privilegia o choro.” Dácio Galvão, presidente da Funcarte
Dácio Galvão, presidente da Funcarte, destaca possibilidade de programação ligada ao chorinho

Pavimentação Colonial
A pavimentação da Travessa Pax guarda as rochas originais do século XIX, quando até então só havia em Natal ruas de barro. As pedras eram extraídas de falésias, arrecifes e pedreiros das proximidades. Três tipos de rochas foram utilizadas nos primórdios da expansão urbana: arenito ferruginoso, arenitos calcíferos e granitos extraídos em Macaíba.

O arenito ferruginoso foi o primeiro material pétreo usado na arquitetura local. Por se tratar de blocos irregulares, sua aplicação ficou limitada a elementos estruturais como alicerces e fundações de igrejas e pavimentos de rua. Além da Travessa Pax, outros dois lugares na cidade contam com vestígios de pavimentação do período colonial. Na Rua Quitino Bocaiúva (Rua do Rosário) e na Rua Voluntários da Pátria (Santa Cruz da Bica), já próximo ao Baldo.

Dentre as construções que utilizaram rochas locais, está a Igreja Santo Antônio (Igreja do Galo), nos adornos na fachada e umbrais de portas e janelas. Com relação aos monumentos, estão a Pedra do Rosário (na fundação da coluna que sustenta a imagem de Nossa Sra. da Apresentação), a base do monumento da Independência, na Praça 7 de Setembro, a coluna dos Mártires, na Praça André de Albuquerque, além da base do monumento da Praça João Maria.

continuar lendo



Deixe seu comentário!

Comentários