Novas cepas do coronavírus colocam o Rio Grande do Norte em alerta

Publicação: 2021-02-23 00:00:00
O Rio Grande do Norte entrou em estado de alerta no início da noite do sábado passado (20), após o Ministério da Saúde confirmar a circulação de duas novas variantes do coronavírus, a P.1, inicialmente identificada em Manaus (AM), e a P.2, registrada no Rio de Janeiro (RJ).

Créditos: DivulgaçãoEstudo de sequenciamento genético de amostras colhidas em pacientes com passagem pelo RN e pela PB confirmaram novas cepasEstudo de sequenciamento genético de amostras colhidas em pacientes com passagem pelo RN e pela PB confirmaram novas cepas

De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap), essas linhagens são associadas a uma maior dispersão e transmissibilidade do vírus. As novas cepas foram confirmadas em meio ao aumento dos casos de covid-19 e à ocupação dos leitos críticos para tratamento da doença acima de 85% nos hospitais públicos potiguares.

Conforme divulgado pela Sesap em nota oficial, o Ministério da Saúde confirmou que as variantes P.1 e P.2 do vírus Sars-CoV-2 foram identificadas em amostras coletadas entre os meses de dezembro de 2020 e janeiro e fevereiro de 2021. Foram retiradas 91 amostras para exames laboratoriais mais detalhados entre os pacientes diagnosticados com a covid.

Do total colhido, 23 amostras pertencem à linhagem P1. Dessas, 15 delas são de pacientes de Natal; duas de João Pessoa, capital da Paraíba; uma de Ingá e uma de Conde, cidades paraibanas. Outras quatro são de pacientes de Manaus (AM) que foram internados no Hospital Universitário Lauro Wanderley, em João Pessoa, transferidos após o colapso dos hospitais da capital do Amazonas por falta de oxigênio, de leitos críticos e clínicos. Desde a segunda quinzena de janeiro, o Rio Grande do Norte também recebeu aproximadamente 50 pacientes transferidos de Manaus.

De acordo com a Sesap, a maioria (46) das amostras foi identificada como sendo da variante P.2, inicialmente descoberta no Rio de Janeiro, e que agora parece já estar circulando no Rio Grande do Norte. No fim do ano passado, praias como São Miguel do Gostoso (litoral norte) e Pipa (litoral sul) receberam milhares de turistas de todas as partes do Brasil para festas de réveillon com artistas locais e nacionais autorizadas pela Justiça.

Logo após as festas, foi registrado um aumento do número de casos. A disseminação das novas cepas pode ter relação com esses eventos. Apesar do aumento de casos, festas voltaram a ser registradas na Pipa no fim de semana passado, de Carnaval.

No sábado, a governadora Fátima Bezerra (PT) publicou novo decreto restringindo o horário de funcionamento de bares e restaurantes em todo o Rio Grande do Norte para conter as aglomerações. Esses empreendimentos só poderão funcionar até às 22h. Barreiras sanitárias serão criadas nas regiões de divisa com a Paraíba e Ceará.

Além disso, a governadora confirmou a abertura de mais 39 novos leitos críticos em hospitais da Grande Natal para desafogar a demanda crescente de internações pela covid-19. Conforme dados mais recentes da Sesap, o Estado contabiliza 160.752 casos confirmados e 3.498 óbitos pela doença.

Créditos: Alex RégisPesquisadora não fez relação com novas cepas e aumento de casosPesquisadora não fez relação com novas cepas e aumento de casos

Selma Jerônimo detalha pesquisa do IMT-UFRN
  Para a diretora do Instituto de Medicina Tropical da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (IMT-UFRN), Selma Maria Bezerra Jerônimo, não é possível afirmar se o aumento nos casos de covid-19 registrado nos últimos meses no RN tem ligação com as novas cepas. “Nós analisamos as amostras que foram coletadas em novembro (de 2020), exatamente no mês em que o número de casos começou a subir por aqui, mas não podemos dizer se são elas as responsáveis (pelo aumento). O que a gente pode dizer é que não se pode baixar a guarda na questão da prevenção (manter distanciamento das pessoas, usar máscara, fazer a higiene das mãos). Nas próximas três semanas nós vamos começar a sequenciar amostras de diversas localidades do RN.

 Então, nós vamos ter mais dados para entender como o vírus está evoluindo aqui no Nordeste”, esclareceu.

Sobre uma possível interferência das variantes na eficácia das vacinas contra a covid-19, a diretora do IMT declarou que  ainda é cedo para formular uma resposta, Entretanto, segundo ela, é provável que uma pessoa se contamine após a imunização, ainda que não houvesse  a existência de variantes. Nesses aspectos, no entanto, o quadro da doença não evolui para casos graves.

“A gente não tem ainda uma resposta (sobre a interferência de uma nova cepa na eficácia de um imunizante), porque as pessoas começaram a se vacinar recentemente e essa variante também foi descoberta recentemente. É possível que você seja infectado mesmo após ser vacinado e, ainda que não haja variantes, porque o vírus está no ar (a gente chama de aerosol). Você inala esse aerosol e pode se contaminar. Só que você terá uma boa resposta e o vírus não causa uma doença importante, podendo ser caraterizado como assintomático”, explicou Selma Jerônimo

“De qualquer forma, quem foi vacinado, da mesma maneira que  quem teve a doença, precisa continuar com os mesmos cuidados até que todos sejam imunizados e a gente consiga diminuir a transmissão do vírus”, reforçou.

Pesquisa
A pesquisa foi financiada pelo MCTI, Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pelo Ministério da Educação (MEC), com a colaboração de pesquisadores do Laboratório de Bioinformática do LNCC-MCTI, coordenado por Ana Tereza Vasconcelos; do IMT-UFRN, Selma Jerônimo, Francisco Freire, Eliana Tomaz, Iara Marques, Gloria Monteiro, Paulo Nascimento, Ingryd Câmara e alunos de graduação e pós-graduação da Saúde e da Bioquímica; do Departamento de Biologia Celular e Genética (DBG-UFRN), Lucymara Agnez Lima, Katia Scortecci, Susana Moreira, Daniella Martins; do Departamento de Análises Clínicas (DACT), Ivanise Rebecchi, Marcela Galvão, Ramon Brito, Andre Luchesi, Vivian Silberger, Igor Domingos, Ana Claudia Galvão Freire e Antônia Claudia Jácome da Câmara; do Departamento de Bioquímica (DBQ), Leonardo Ferreira; da Escola Multicampi de Ciências Médicas (EMCM), João Rodrigues Neto; além de pesquisadores do Laboratório de Biologia Molecular da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

A iniciativa é ainda parte da Rede Corona-ômica-RJ da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ). O IMT-UFRN recebeu recursos do MEC, CNPq e JBS para enfrentamento da covid-19. Os resultados do estudo foram comunicados às Secretarias de Saúde do Município de Natal e do Estado do RN, para que tomassem conhecimento e efetuassem as medidas cabíveis.