Economia
Novo Ensino Médio impõe desafios à educação pública
Publicado: 00:00:00 - 28/11/2021 Atualizado: 13:35:10 - 27/11/2021
A partir de 2022, o Ensino Médio sofrerá mudanças em todas as escolas do País, passando a oferecer a modalidade de ensino que desobriga o estudo de alguns componentes curriculares e direcionando para a formação técnica e profissional. Contudo, também poderá se tornar mais um desafio para garantir ensino público de qualidade aos jovens porque nem todas as escolas poderão oferecer os cinco itinerários de formação previstos que consistem em linguagens e suas tecnologias, matemática e suas tecnologias, ciências da natureza e suas tecnologias, ciências humanas e sociais aplicadas e formação técnica e profissional. Esses itinerários começam a ser ofertados em 2022, mas só serão obrigatórios a partir de 2023.

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A rede estadual já oferta educação profissional em nove centros, que terão expansão prevista em 2022 com a construção dos IERNs

A rede estadual já oferta educação profissional em nove centros, que terão expansão prevista em 2022 com a construção dos IERNs


Em entrevista à Tribuna do Norte, o Professor Dante Henrique Moura, Doutor em Ciências da Educação, apresentou uma avaliação negativa alegando que as escolas não têm condição de oferecer o novo modelo do ensino e que os estudantes de  escolas públicas sofrerão mais, seja pela mudança do itinerário, ou pela redução da carga horária referente aos conhecimentos gerais das quatro áreas do ensino médio. 

“Vai haver uma exacerbação, uma radicalização da diferença do ensino na escola pública e na escola privada. Porque a escola pública vai ser obrigada por força legal e do financiamento a implantar a reforma. Além de ser um problema de definição precoce porque o aluno precisa escolher o itinerário formativo logo no primeiro ano, tem outros aspectos muito preocupantes”, pontuou.

Ele frisou que, se todas as escolas não conseguirem oferecer cinco opções de itinerários formativos, o estudante não terá o protagonismo de escolher entre cinco, como prevê a lei. Neste sentido, as escolas precisarão se esforçar para tentar amenizar os prejuízos. “Com esses conteúdos que estão sendo subtraídos da ciência, das letras, das artes, as escolas vão precisar compensar essas perdas dentro dos itinerários”, sugeriu o professor.

O secretário estadual de Educação e Cultura do Rio Grande do Norte (SEEC/RN), Getúlio Marques, diz que há um equívoco na interpretação do oferecimento dos cinco itinerários. “O aluno poderá escolher dentre aqueles que a escola oferecer. Acho que em nenhum estado todas as escolas ofertarão os cinco.

Cada município tem que ofertar pelo menos dois. Temos 133 cidades que só têm uma escola de Ensino Médio e não tem como oferecer tudo numa só. Vamos oferecer, pelo menos, dois em cada município”, disse ele.

Segundo o secretário, municípios maiores que tiverem escolas maiores poderão ter uma diversidade maior e em diferentes escolas. De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, componentes curriculares como geografia, filosofia, sociologia, história, biologia, física e química deixam de ser obrigatórios e passam a ser estudadas no novo Ensino Médio a partir das demandas dos alunos. Somente as disciplinas de matemática, língua portuguesa e inglês deverão ser trabalhadas obrigatoriamente ao longo dos três anos.

Os estudantes que não optarem por nenhuma das quatro áreas do conhecimento poderão ingressar na formação técnica e profissional diretamente. O itinerário alternativo tem a proposta de desenvolver programas educacionais para promover a qualificação profissional dos estudantes de forma efetiva visando a atuação no mercado de trabalho sem necessariamente passar por uma universidade. De acordo com as diretrizes do MEC, neste módulo são levadas em consideração ainda o contexto local e as possibilidades de oferta de projetos de vida e carreira.

“Estamos trabalhando a possibilidade de trabalharmos a educação técnica em todas as escolas de ensino médio do Estado. Fizemos discussões com diversas entidades e alunos e estamos dentro dos prazos estabelecidos pelo Ministério da Educação para começarmos a aplicar em 2022 para os alunos que estarão chegando no primeiro ano do Ensino Médio”, disse Getúlio Marques.

A rede de ensino estadual do RN tem 588 escolas em todos os 167 municípios potiguares, conforme dados do Censo Escolar 2020. Além dos 22 institutos federais (IFRNs), a rede estadual mantém nove centros de educação profissional, com previsão de expansão para 23 unidades de ensino técnico até o fim de 2022, a partir da construção de 12 novas escolas, chamadas de Instituto Estadual do RN (IERN).

Novo modelo deve ampliar oportunidades
O presidente do Sistema Fecomércio/RN, Marcelo Queiroz, defende que o novo ensino médio vai ampliar as oportunidades para a juventude. “Entendo que o novo ensino médio vem com uma proposta de aproximar o ensino profissional do ensino regular, ampliando as possibilidades dos nossos jovens.  A implementação devida dessa proposta certamente trará ganhos”, destacou.

A Fecomércio executa um dos braços do Sistema S através do Serviço Social do Comércio (Sesc) e dentro do Sistema S as escolas também precisarão aderir à nova formação do segundo grau.

Nas Escolas do Sesi (Serviço Social da Indústria), por exemplo, as equipes de educação já estão passando por capacitações que apresentaram novas formas de trabalho pedagógico, promovendo uma reflexão sobre os novos contextos dos processos de aprendizagem e a necessidade de adequação da prática docente para esta mudanças de cenários.

O Sesi e o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) têm trabalhado juntos com turmas piloto, no contexto de implantação do novo ensino médio, propiciando além do ensino regular um curso profissionalizante aos alunos que dele fazem parte. “As turmas têm demonstrado boa evolução, considerando que já partem de um ensino com qualidade para, principalmente, português e matemática, disciplinas cruciais para as áreas que atuamos e que em condições normais muitas vezes precisamos fazer nivelamento de conhecimentos. A expectativa, a depender das orientações do Departamento Nacional e normas federais, é que aumentemos esta demanda nos próximos anos”, explicou o diretor regional do Senai-RN, Emerson Batista.

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Nos Centos de Educação Profisisonal (CEEPs), os alunos já têm aulas práticas em laboratórios

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‘Nova Escola Potiguar’ promete ensino de excelência para os jovens
Com várias ações estruturantes, o projeto “Nova Escola Potiguar” (PNEP) é a aposta do Governo do Estado que promete um investimento de R$ 400 milhões em construção física de novas escolas, reformas, aquisição de equipamentos, capacitação e formação continuada dos educadores, e redução do analfabetismo. Desse valor, cerca de R$ 70 milhões serão direcionados para levar banda larga às escolas.

“Teremos, no Rio Grande do Norte, escola pública estadual de qualidade e excelência para juventude, além do IFRN”, disse a governadora Fátima Bezerra ao apresentar o detalhamento do PNEP.

O secretário de Estado da Educação, da Cultura, do Esporte e do Lazer (Seec), Getúlio Marques explicou que R$ 110,5 milhões de recursos próprios e os outros R$ 280 milhões são referentes à diferença que o Governo Federal não repassou quando da transformação do Fundef no atual Fundeb. “O programa já estava no Plano de Governo da governadora antes da pandemia, quando previa aumentar o número de escolas profissionalizantes e a melhoria da infraestrutura das escolas”, disse ele.

O plano contempla a criação do 12 Institutos Estaduais de Educação Profissional, Tecnologia e Inovação do Rio Grande do Norte (IERN)  até o final de 2022, nos municípios de Alexandria, Areia Branca, Campo Grande, Jardim de Piranhas, Mossoró, Natal, Santana do Matos, São José de Mipibu, São Miguel, Tangará, Touros e Umarizal, que deverão doar terreno com área mínima de 8.500 metros quadrados.  Os 11 Centros Estaduais de Educação Profissional (CEEPs) serão transformados em IERNs. Serão recuperadas, reformadas e equipadas 182 escolas e outras 10 serão construídas. 

“É um novo conceito na educação estadual, seja na arquitetura sustentável das novas escolas, com energia solar fotovoltaica e reuso de água, seja na proposta pedagógica centrada no ensino integral, com protagonismo dos alunos, formação de professores e mediação tecnológica no processo ensino aprendizagem”, destacou o secretário.

Dentro da tônica do projeto, o secretário prevê a compra de 3.200 chromebooks, com carrinhos que comportam cerca de 30 máquinas dessas para serem distribuídos nas escolas. “Vamos capacitar 400 profissionais que serão multiplicadores. Levar esses equipamentos aos alunos é uma forma de aumentar neles o interesse de estarem nas escolas”, sugere o Getúlio Marques.

Ao sistema, será implantado o programa “Geração Conectada” (GC), reunindo programas pedagógicos com foco na inovação e no uso das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs); capacitação dos profissionais em educação; compra de mobiliários, equipamentos de tecnologia da informação para modernização da gestão escolar, com adoção de ferramentas e metodologias que contribuam no fluxo das atividades pedagógicas e administrativas; compra e manutenção de veículos para transporte escolar e efetivação de políticas públicas de combate e superação do analfabetismo.

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