Novos donos

Publicação: 2020-10-29 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação

Lamento informar, e logo advirto aos incautos: não estou tão só quando lanço as minhas graves desconfianças do engendramento perpetrado pelos fundos - partidário e eleitoral - que hoje financiam a política. Tenho a boa companhia do ministro Herman Benjamin, do Superior Tribunal de Justiça. Ele também acha que os presidentes de partido viraram uns caciques e passaram a donos das legendas, quando deveriam ser líderes e não proprietários da política.

Só os tolos e suas almas eivadas de ingenuidade - ou má fé - acreditam na geração de falsos líderes que a grana oficial concebeu no seu útero perverso.

Todo mundo sabe que não é confiável entregar recursos públicos a ordenadores de despesa num sistema sem regras e sem regramentos. São donos.

Fazem com querem fazer. Soprados pelas simpatias e interesses, quando não pelas benesses que vão de uma piscina de hidromassagem até a um helicóptero.

No modelo de democracia que os políticos adotaram por sobre a norma salutar das conquistas constitucionais, a desigualdade de chances é a marca que timbrou e oficializou a discriminação de uma sobre a outra, sem as mesmas armas. Privilégios que começam no cofre, com mais para os partidos maiores e menos para os menores, e duas moedas fortes: tempo de tevê e financiamento. Sai do plano nacional o cálculo, sem as prevalências e estruturas regionais.

Resultado: fixamos em lei a divisão não dos partidos, mas da palavra. Uns exercem o direito do mais, outros do menos Uns podem contratar a maquiagem televisiva, outros não. O processo de cristalização eterniza com força de lei a fortaleza e a fraqueza para que sejam eternas e eternamente garantidas. Uns são apagados nas telas, e desaparecem. Outros terão para sempre a ribalta fácil que ilumina, sem critério, até mesmo a banalidade teimosa e sem talento.  

Tem toda razão o ministro Herman Benjamin. Seria pior e mais desigual com o velho sistema do financiamento privado, mas pior ainda é garantir privilégios com verbas públicas. O Brasil sequer chegou à virtude da consciência democrática na sua legislação para garantir o direito igual para todos. Não se sabe, sequer, dos parâmetros para a distribuição de recursos num jogo político que é jogado, naturalmente, entre anjos e demônios, entre céus e infernos. 

O pagamento de despesas não cumpre a transparência dos métodos. Encobre com as sombras fortes o direito negado ao fraco. O ministro reconhece que tem sido mais transparente a prestação de contas a partir de 2016, mas ninguém sabe dizer a que manhas e artifícios essas contas são submetidas, se presas aos interesses dos novos donos fecundados pelas facilidades transformadas em leis para que pareçam legais. O fundo partidário é uma cartola de mágico.  

ANOTE - É cedo, muito cedo, mas não custa nada anotar: o ex-governador Robinson Faria quer ser candidato a deputado federal em 2022. Fábio, deputado, hoje ministro, para senador. 

LUTA - Discreto, mas sem dormir no ponto, o ex-governador tem percorrido os municípios de suas bases e acha que pode conquistar uma das oito cadeiras federais. Quem deseja parte cedo.

PROVA - O retrato perfeito da grana oficial que financia a política está na denúncia de primeira página lá da Folha de segunda: “Menos de 1% dos candidatos retêm 80% do fundo eleitoral”. 

VAZIO - É constrangedora do ponto de vista da atuação política a participação sem nenhum peso na campanha dos oito deputados federais e dos três senadores do Estado. Não fazem falta. 

QUEDAS - A campanha para vereador em Mossoró - sua Câmara tem 23 cadeiras - já perdeu até agora oito candidatos. Entre defecções legais, pessoais e por desistência. Isto é um recorde. 

PESQUISA - Hoje, quinta-feira, tem pesquisa nova no ar medindo a posição dos candidatos a prefeito de Mossoró. Os futurólogos acreditam que a luta pode ficar pouco mais acirrada. Será?

DISPUTA - A crítica aponta nomes cotados para o Jabuti de literatura: Chico Buarque, Nélida Piñon e Martinho da Vila. E Ruy Castro na categoria documentário, com ‘Metrópole Carioca’.

CHURCHILL - O ex-senador Fernando Bezerra segue em confinamento olhando seu pedaço de mar, lá em Areia Preta, e na leitura das mais de mil páginas da vida de Winston Churchill.  

RETRATO - Com cerca de 60% dos votos definidos, a julgar pelos números apontados na segunda pesquisa Ibope, e considerado o universo de brancos, nulos e abstenção que deve girar em torno de 40%, e mantido o ritmo neste momento a campanha toma contornos cristalizados.  

VARIÁVEL - A possibilidade de uma mudança estruturalmente significativa, passa por duas variáveis: uma queda brusca do candidato Álvaro Dias e, simultaneamente, um fato novo que leve Kelps Lima, Jean-Paul ou Sérgio Leocádio a patamares que caracterizem o segundo turno.

PROJEÇÃO - Faltando quinze dias para as urnas, há tempo para a queda e o fato novo, mas não há sintomas projetáveis até agora. Os candidatos de oposição estão caídos no varejo de uma retórica de mesmice e Álvaro Dias colhe os frutos da sua gestão aprovada por 65% de Natal. 









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