Novos kits vão permitir testagem mais rápida no Lacen/RN

Publicação: 2020-07-03 00:00:00
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Mariana Ceci
Repórter

Com o avanço da pandemia no Rio Grande do Norte e o número cada vez maior de pessoas infectadas pelo coronavírus, a Secretaria do Estado de Saúde Pública (Sesap) tem buscado maneiras de ampliar a capacidade de testagem das amostras que chegam ao Laboratório Central de Saúde Pública do RN (Lacen). A expectativa é aumentar esse número a partir dessa semana, com a chegada de novos kits que vão permitir uma testagem mais acelerada, inclusive de profissionais de áreas essenciais, que criticam algumas das regras impostas para que possam ter acesso aos testes-rápidos disponibilizados.

Créditos: Adriano AbreuNovos kits permitirão reduzir etapas na centrifugação das amostras, acelerando os resultadosNovos kits permitirão reduzir etapas na centrifugação das amostras, acelerando os resultados


Atualmente, a extração do material para testagem ocorre de forma manual, e o Laboratório tem capacidade de realizar cerca de 100 testes por dia. Mesmo com suporte de outras instituições, como a Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que já realizou mais de 6 mil testes através do Instituto de Medicina Tropical, a demanda diária supera em muito a capacidade de testagem dos labortórios e, todos os dias, cerca de 500 novas amostras chegam para serem testadas, enquanto a capacidade diária é de um quinto dessa quantidade. 

"O novo método [também de extração manual] reduz algumas etapas que temos que cumprir atualmente e atrasam os resultados. No kit que temos hoje, você tem que centrifugar a amostra várias vezes, enquanto no que esperamos receber para a próxima semana, não", explica Derley Galvão, diretor do Lacen. De acordo com ele, ainda não é possível estimar em quanto será aumentada a capacidade de testagem do laboratório, informação que deve estar disponível a partir do fim da próxima semana, quando os primeiros testes com os novos kits forem realizados.

O outro método existente, da extração automatizada, facilitaria em muito o trabalho dos técnicos. A Sesap chegou a adqurir 62 kits neste modelo, cada um com capacidade para 96 exames. Entretanto, os kits já acabaram e, apesar da Sesap ter planos para adquirir 15 novos kits, o Ministério da Saúde não enviou nenhum kit de testagem automatizada ao Laboratório, que continua recorrendo ao método de extração manual.

Hoje, o tempo médio de espera para os casos graves, de acordo com Derley, é de no máximo 24 horas. Os exames costumam ser feitos e entregues ainda no mesmo dia. Para os demais, no entanto, o resultado pode variar de 3 a 4 dias, e parte dos testes está sendo enviado para a Fiocruz a fim de desafogar a demanda local.

De acordo com Derley, a intenção da Secretaria é chegar ao ponto de ser capaz de testar todos os casos sintomáticos, o que ainda não é uma realidade. "Vamos avaliar como vai ficar esse novo kit de extração manual, e estamos em vias de implementar uma testagem mais ampla, cujos critérios vão ser definidos pela própria Sesap", afirma o diretor.

O RN conta hoje com 33.750 testes RT-PCR, que necessitam de requisição médica, e 15.500 testes rápidos. Os testes rápidos são reservados principalmente para os trabalhadores de áreas essenciais, como saúde e segurança, que estão mais expostos ao vírus diariamente. 

De acordo com a Sesap, a Unidade Central de Agentes Terapêuticos (Unicat) fez a distribuição de testes rápidos para os municípios de acordo com as determinações da Nota Técnica do Ministério da Saúde emitida no dia 10 de abril, que se baseia em critérios como: a tipologia do município segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o total de profissionais de saúde daquela localidade, o total de profissionais da segurança, cuidadores diretos de pessoas idosas que atuam em Instituições de Longa Permanência para Idosos e pessoas em situação de rua. Esse último fator é o mais difícil de ser avaliado, considerando que o RN não possui um Censo para população em situação de rua a nível estadual.

Créditos: Adriano AbreuDerley Galvão disse que, geral, resultados demoram de 3 a 4 diasDerley Galvão disse que, geral, resultados demoram de 3 a 4 dias


No RN, cerca de 18% dos servidores da segurança foram testados
Os critérios estabelecidos para a realização dos testes rápidos são questionados por profissionais de áreas essenciais, como saúde e segurança, que afirmam que os trâmites determinados pelo Ministério da Saúde aumentam as chances de contágio entre os outros membros das equipes e suas famílias.

O atual protocolo demanda que a pessoa esteja apresentando sintomas por 7 dias para que, só então, possa fazer o exame. No caso dos profissionais da segurança, os testes estão sendo realizados no Hospital da Polícia Militar. Além disso, eles precisam preencher um formulário de cadastramento virtual que tem até 48 horas depois, para informá-los sobre a situação de seu agendamento e se estão aptos ou não a realizar o exame. Para o agendamento, são considerados critérios de sequência automática do cadastro, o quantitativo do exame disponibilizado para cada instituição de segurança e as determinações do protocolo do Ministério da Saúde.

Até o dia 25 de junho, 1.926 profissionais da segurança, entre policiais militares, peritos, bombeiros militares, policiais civis e agentes penitenciários foram testados. Na prática, o número corresponde a apenas 17,9% do total de servidores na ativa nessas instituições. 

Além disso, o número de testes rápidos disponibilizados para cada um é muito inferior à quantidade de pessoas que permanece trabalhando. Para a Polícia Civil, por exemplo, foram 300 testes rápidos disponibilizados em junho, enquanto o efetivo de escrivães, agentes e delegados corresponde a 1.330 pessoas. O Corpo de Bombeiros, que possui 646 militares na ativa, o menor dos efetivos das forças de segurança do Estado, tiveram 130 testes disponibilizados.

A dificuldade de acesso aos testes rápidos levou a entidades representativas da área, como a Associação de Delegados de Polícia Civil do Rio Grande do Norte, Associação de Escrivães e Sindicato dos Policiais Civis a protocolar um ofício conjunto, endereçado à governadora do Estado, solicitando providências para disponibilizar testes rápidos de forma ampla para os profissionais da segurança de forma periódica, considerando o risco de exposição. 

Na Polícia Civil, de acordo com um levantamento do Sinpol, ao menos 90 agentes já foram afastados por suspeita ou confirmação da doença. Na Polícia Militar, até o dia 6 de junho, 115 PMs tinham tido testes confirmados para covid-19, e a categoria já acumulava 4 óbitos pela doença entre seus profissionais.

A presidente da Associação de Delegados, Taís Aires, explica que o objetivo da ação é evitar que haja uma disseminação maior da doença entre os membros da categoria, que por estarem nas ruas todos os dias, podem inclusive transmiti-la para a população que procura o serviço e as pessoas com que residem. "É fato que os policiais estão trabalhando normalmente, então por mais que se tenha cuidado, os ambientes são propícios para contágio. O objetivo é evitar que haja um prejuízo ainda maior para o serviço público A Polícia Civil já tem um déficit de dois terços em seus recursos humanos, então se aumentar o número de contaminações, vai prejudicar ainda mais o serviço", afirma a delegada.

"Foram mobilizados 300 testes para a Polícia Civil, mas você só pode fazer com 8 dias de sintoma. É preciso haver uma flexibilização pelo menos para quem teve contato com algum caso confirmado na delegacia em que trabalha, porque isso já ajuda. Na Delegacia de Homicídios, por exemplo, já temos três casos. Há delegacias em que só ficou um policial trabalhando, é uma situação complicada", completa.