Novos tempos

Publicação: 2020-02-18 00:00:00
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João Medeiros Filho
Padre

Há consciência de que se vive em permanente mutação. Nos últimos anos, assiste-se a uma mudança acelerada de costumes e estilos de vida. “Mutatis mutandis”, lembra um pouco a transformação de mentalidade trazida por Cristo. Este deixou perplexos os seus contemporâneos. “Bem-aventurado é quem não se escandaliza por causa de mim” (Mt 11, 6). Sacudiu a sociedade do seu tempo. Derrubou a bazófia dos doutores da lei: “Em verdade, eu vos digo: as cortesãs e os publicanos vos precederão no Reino dos Céus” (Mt 21, 31). Convidou Nicodemos a se atualizar. “É necessário nascer de novo” (Jo 3, 3). O apóstolo Paulo adverte seus ouvintes a se converter: “Despojai-vos do velho homem e revesti-vos do homem novo” (Ef 4, 22-24). No Areópago de Atenas, pregou o Deus desconhecido (At 17, 23). E o Evangelho traz uma realidade totalmente nova para a época.

Nem todos refletem sobre o que vem acontecendo nas duas últimas décadas. Agenda, calendário, calculadora, máquina de datilografia, fotográfica etc., tornaram-se peças de museu. Na palma da mão, é possível dispor de tudo isso, de maneira cômoda e imediata. É a revolução tecnológica também presente nos smartphones. Muitos, possivelmente, não sentem mais falta dos correios. O e-mail os substituiu no envio de telegramas, cartas, documentos urgentes etc., dispensando telex e fax. Um dia, as crianças perguntarão aos pais o que significa um telegrama (cabograma, poucos ainda se lembram). Várias gravadoras estão fechando com o advento do spotify. O Google – apesar de sua superficialidade – vem tomando o lugar de enciclopédias, dicionários, livros, revistas e jornais. O whatsapp obrigou as operadoras de telefones a reduzir os preços de seus serviços com ofertas, antes inimagináveis. O trivago e o booking abalaram as agências de viagem e os setores de reservas das redes hoteleiras. Antes, quando se buscava um produto, recorria-se às páginas amarelas dos catálogos telefônicos ou classificados dos jornais. Hoje, é comum o emprego da OLX.

São tantos os termos e siglas, que é difícil memorizá-los. Os amantes da sétima arte dirigiam-se às locadoras de vídeo para alugar seus títulos preferidos e novidades. Atualmente, ninguém precisa mais sair de casa, pois a Netflix libera o filme desejado. Os da terceira idade sentem-se perdidos, quando os jovens começam a falar de waze, coach etc. Há muitas palavras não traduzidas para a “última flor do Lácio, inculta e bela”. Muita coisa ficou obsoleta. O disquete foi substituído pelo CD, ultrapassado pelo pendrive que, por sua vez, está sendo relegado a segundo plano pelo onedrive. E nós, idosos, ficamos nas nuvens e confusos. A transformação é geral. E nem se fala aqui do mundo jurídico, ideológico, político etc. Estão sendo citados apenas alguns elementos do âmbito da comunicação. Convém ainda lembrar os aplicativos de banco, que tornam desnecessárias as idas às agências e o uso de cheques.

Nos seminários, aprendia-se a tratar os fiéis nos sermões e homilias por vós ou senhores. Agora, não é raro ouvir vocês, até na saudação e proclamação do texto do Evangelho. Em tempos idos, os futuros sacerdotes aprendiam a fazer sermão. Atualmente, fala-se de reflexão compartilhada. Há algumas décadas, quando éramos pároco em Caicó, costumávamos ir aos sítios confessar os enfermos. Como as estradas eram precárias, viajávamos a cavalo. No caminho, nossos acompanhantes gritavam com os animais: “Ôpa, burro!” Hoje, nas ruas, ao encontrar conhecidos, ouvimos este cumprimento: “Ôpa, padre!” No passado, as pessoas diziam: “Fulano foi a Roma e viu o Papa”. Observa-se, no momento, uma inversão: “O papa viu Cristiano Ronaldo”. Diante de tudo isto, diria o poeta latino: “Quantum mutatus ab illo” (Como tudo está mudado).    

A vida é outra, no plano existencial, cultural etc. Por isso, há os que pretendem introduzir a ideologia do gênero e a “família do século XXI”. Estudamos em escola pública. Hoje, buscam-se os colégios particulares. As pessoas eram atendidas nos antigos institutos: IPASE, IAPB etc. No seu lugar foram criados o INAMPS e o SUS. Mas, a população corre para os planos de saúde. Amedrontados de viver em casas, os cidadãos fugiram para os condomínios fechados. Diante de tantas inovações, rezamos: “Deus in adiutorium meum intende!” (Ó Deus, vinde em meu auxílio!).





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