Nunu Nobre: "Valor local é ir além da aldeia"

Publicação: 2019-10-18 00:00:00 | Comentários: 0
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Luiz Henrique Gomes
Repórter

Durante mais de 20 anos, Câmara Cascudo se dedicou a reunir sabores acreditando que era possível conhecer a identidade do povo brasileiro a partir da comida. O resultado foi o clássico História da Alimentação Brasileira, publicado em 1968. 51 anos depois, o português Nuno Nobre pisou em Natal, onde Cascudo nasceu e morreu, com a mesma ideia e o objetivo de realçar o valor simbólico da gastronomia local para fortalecer a identidade de um povo e abrir caminhos para a economia ligada à gastronomia.

Chef português diz que é preciso informar para dar ter nossos alimentos valorizados
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Nuno Nobre é consultor gastronômico há mais de 20 anos e atua em diversos países para auxiliar na criação de estratégias e desenvolvimento de projetos que valorizem a gastronomia local. Antes de começar a falar sobre o tema, torna claro que o seu conceito de gastronomia não se resume aos pratos locais na mesa. “Ninguém consegue valorizar algo se não conhecer. Valor local é ir em uma aldeia, ir para o mar e viver como um pescador, conhecer totalmente a identidade, cultura e tradição das pessoas”, explica.

A sua visita à Natal ocorreu no domingo e segunda-feira (13 e 14) no Espaço Terroir do Sebrae, na Festa do Boi, para palestrar sobre o tema aos produtores e público interessado. Antes da palestra, conversou com a TRIBUNA DO NORTE sobre os potenciais do Rio Grande do Norte e a importância humana e econômica de valorizar a gastronomia local. Entre as suas declarações, torna transparente a relação que há com Cascudo, por inconsciente que seja, principalmente quando diz: “A alimentação e as pessoas para mim são a identidade de um lugar”.

O que define o valor local da gastronomia e qual a importância de se criar esse valor?
Ninguém consegue valorizar se não conhece. Como consultor há mais de 20 anos, o que eu falo é sobre boas estratégias. Boas não apenas a nível financeiro, mas a nível de tudo. Portanto, valor local é ir em uma aldeia, irmos a uma comunidade, a um produtor, ir para o mar e viver como um pescador vive, conhecer completamente essa identidade, cultura e tradição das pessoas. Ao fazermos essa imersão, identificamos o saber, se há algum saber que é intrínseco daquela comunidade ou daquela região. Depois, esmiuçamos tudo, desde memórias, conhecer o que os mais novos fazem hoje, o que os avós e bisavós faziam antes. Isso inclui culinária, hábitos, costumes, festas, romarias. Toda a vivência daquela comunidade.

Como essa investigação pode trazer retornos para uma aldeia ou comunidade?
Em primeiro, identificamos o potencial que aquele produto tem, cultural e de identidade. E, depois, falando em uma matriz de quatro pontos, temos a proposta de valor – portanto, o que nós descobrimos ali e investigamos – e fazemos uma proposta de valor local, que é onde vemos se há o valor para a educação, ciência, gastronomia ou no turismo, por exemplo. Logo depois, vamos criar esse valor com um conjunto de ações, para produzirmos cursos, introduzirmos pratos nos menus do restaurante, ir aos hospitais e mostrar que determinado produto local pode combater doenças. Por último, temos que gerar retorno, financeiro, de turismo, para movimentar a economia local.

Em relação ao Rio Grande do Norte, um estado que tem uma economia muito voltada para o turismo e a relação com Câmara Cascudo, quais são os potenciais que o senhor enxerga na gastronomia local?
Alimentação e as pessoas para mim são a identidade de um destino. Mais cedo, nós estávamos no almoço com produtores e eu perguntei quais deles já tinham turismo de experiência. Ou seja, quantas pessoas podem vir ao Rio Grande do Norte e passar por essa experiência imersiva na produção de mel naquela comunidade, para ver qual o processo, conhecer as pessoas, fazer o mesmo mel, fazer uma degustação. Ou qual é o grupo de pessoas que vai à comunidade das ostras e vai ver o processo, vai conhecer o produtor, vai comer no local e vai embora. O que me disseram é que isso não está muito consolidado. Então, é uma oportunidade.

Isso é algo que precisa ser feito a nível mundial?
Uma das ações que está na cartilha das Nações Unidas para um mundo melhor em 2030 é essa de valorizarmos o patrimônio que temos e movimentarmos a economia da experiência, o turismo sustentável. Da minha experiência, há uma oportunidade efetiva de nós dignificarmos essas comunidades não só a nível do que elas produzem, de arranjarmos compradores para eles. Ao invés de ir comer uma ostra em Ponta Negra nesta comunidade produtiva que fica, não sei, há uma hora daqui, tem que a ver o oposto, que é ir gente daqui a pessoas que estão no seu local. Isso eu acho que é uma oportunidade.

Programação: Espaço Terroir – Sebrae
18 de Outubro – Cozinha Show

14h - Mar e Sertão: Influências e Características, com Daniel Cavalcanti

16h - Atum, a lenda do mar -

Joelson Leite, do Lotus

18h - Shot Comestível: Caipiostra - Thiago Gomes - Senac

20h - Rotolo Potiguar - Francisco Gasteasoro - Camarões

19 de Outubro

14h Comida de Boteco Vegana - Renata Lopes - Senac

16h  - Gastronomia Campeira do Gaúcho na mesa de bar - Paulo Arsand - Senac

18h - Bao Potiguar - Amanda Navarro - Senac

20h - Comida de boteco com cachaças e cervejas artesanais - Lilian e Marcelo Labre UnP










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