Brasil
Nuvem de poeira do Saara tem baixo potencial de chegar ao RN
Publicado: 00:00:00 - 28/06/2020 Atualizado: 14:50:36 - 27/06/2020
A nuvem de poeira do deserto do Saara, que saiu da África no começo desta semana e tem chegado às Américas nos últimos dias não deve trazer grandes alterações e problemas para o Rio Grande do Norte. A avaliação de pesquisadores e cientistas climáticos é de que a nuvem “Godzilla”, que viajou pelo menos 10 mil quilômetros e atravessou os oceanos, é de que a massa de ar seco vinda do continente africana será pouco sentida no RN.

De acordo com a professora Judith Hoelzemann, do Departamento de Ciências Atmosféricas e Climáticas da UFRN, essa nuvem de poeira que se desloca da África para as Américas acontece em todos os anos, em determinados períodos. “Não é impossível, mas é pouco provável. Pela situação meteorológica comum que temos, os meses mais propícios para ocorrer tufos de poeira em Natal, seria entre dezembro e fevereiro. Porém, com nossos instrumentos na UFRN, já observamos camadas em junho. Não é impossível, mas primeiro: é numa quantidade pequena, que não é preocupante. Na maioria das vezes, a gente não tem registros dessa poeira chegar na superfície por aqui no Nordeste e se for, não será em quantidades preocupantes.

Segundo a especialista, essa massa de ar se forma de partículas de poeira mineral, do solo, principalmente onde não se há cobertura de vegetação. “Com os ventos próximos a superfície, essa poeira do solo se levanta e as partículas pequenas, sem muita massa, ficam suspensas no ar. E aí o vento pode levá-las embora”, comenta.

O que chamou a atenção dos estudiosos e especialistas na área climática foi justamente o fato de que a intensidade dessa massa de ar, comum e recorrente em todos os anos, fugiu a normalidade. “Todos os anos a gente tem esse transporte, inclusive, em determinadas épocas do ano, entre dezembro e março, a gente consegue observar esses eventos sobre Natal, só que não é na mesma quantidade, são poucas camadas de 3 ou 4 quilômetros que passa aqui por cima”, informa a professora.

Quem corrobora a tese é o meteorologista da Empresa de Pesquisa Agropecuária do Rio Grande do Norte (Emparn), Gilmar Bristot. De acordo com ele, pelo fato da direção dos ventos estarem mais ao Sul e ao Sudeste do País, essa massa praticamente não será sentida em território potiguar.

“Eu diria que para essa poeira do deserto, atingir o deserto é difícil. Primeiro que você teria que ter ventos no Nordeste para trazer essa poeira. Nessa época do ano, o que nós temos são ventos fortes do Sul ou Sudeste. Basicamente não teria condições de ter essa poeira chegando aqui no Nordeste nessa época do ano não porque os ventos são dispersos.”

Mesmo com essa situação de que a nuvem de poeira não terá grandes efeitos em Natal, a professora Judith Hoelzemann avalia que em outros lugares que a massa circulou, como Venezuela, Colômbia, Caribe e América Central e o sul da América do Norte, essa matéria pode chegar a níveis preocupantes, com visibilidade reduzida e diminuição na qualidade do ar.

O coordenador do Programa de Pós-Graduação em Uso Sustentável de Recursos Naturais (PPgUSRN), ligado ao IFRN, Jean Tavares, explica os riscos da nuvem de poeira. “Há sim riscos, porque é material particulado, suspenso no ar, pode ser danoso à saúde também, principalmente se ela chega às zonas urbanas. O principal fator é respirar aquela poeira, que pode trazer problemas de saúde relacionados a isso”, analisa.

A preocupação quanto a massa de ar não ficou restrita aos pesquisadores do Rio Grande do Norte. No Ceará, por exemplo, a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos analisou o caso e informou, em comunicado oficial, que a “nuvem de poeira do Saara não deve impactar de forma expressiva no Ceará”. As simulações apontam que a capital cearense estaria na “periferia” do fenômeno e, diante disto, os possíveis impactos serão simples. O cenário é diferente em áreas dos Estados Unidos, Canadá e México, onde a visibilidade já está bastante afetada.

“Esta nuvem de poeira que se desloca da África em direção ao Caribe é uma massa de ar seco carregada de partículas de areia que se forma sobre o deserto do Saara nesta época do ano e se move para o oeste. Quando ocorre, costuma ser de curta duração, não superior a uma semana, porém a presença de ventos pode fazer com que cruze o Atlântico, percorrendo mais de 10 mil quilômetros. Diante disto, o Ceará não deve ser afetado diretamente”, explica Meiry Sakamoto, gerente de Meteorologia da Funceme. Diante do atual cenário e pelos resultados de tecnologias de previsão, a passagem da “Godzilla”, como vem sendo chamada, pode alterar apenas a coloração do céu visto do Ceará durante o nascer e/ou pôr do sol.




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