O “recado” das urnas

Publicação: 2020-12-02 00:00:00
Ney Lopes 
Jornalista, ex-deputado federal, professor de direito constitucional da UFRN e advogado 

O eleitor deu vários “recados” nas urnas de 2020. Derrotou na gangorra política, a polarização pelos extremos, que destrói o diálogo e impede a paz coletiva. Acolheu a questão social como o tema político mais importante. Veja-se o exemplo de São Paulo, onde Covas e Boulos concentraram preocupações no combate às desigualdades, ao coronavírus, geração de empregos, oportunidades e investimentos na saúde e educação.

Por tais motivos é falsa a premissa, de que a “direita conservadora” ganhou a eleição.  Direita e a esquerda são posições legítimas, desde que não qualificadas por “epítetos”, que conduzem aos radicalismos. A regra é ganhar ou perder, sempre com democracia.

Como afirmou o “Atlas Político”, o eleitor brasileiro declarou a sua independência. Demonstrou, que os “extremismos ideológicos” devem ser superados pela confiança na política, que não pode ser vista como terra arrasada pela corrupção. Rejeitou a “luta santa” do “bem contra o mal”.  Mostrou-se amadurecido, ao optar por nomes mais ao “centro” e abrir espaços para desarmar os espíritos e melhorar o ambiente econômico e social.

No xadrez político ficou claro, que o eleitor não quer saber de novidades e escolheu políticos experimentados. O prefeito de Salvador, ACM Neto definiu bem: “A tal da nova política ficou velha muito rápido". Os candidatos, independente de idade, foram agora julgados, com base na competência e liderança. O critério deverá repetir-se em 2022.

No pleito de 2020, independente de legendas, “jovens” ganharam em Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Recife. “Mais velhos e experientes” venceram no Paraná, Natal, Paraíba, Porto Alegre, Belém, Aracaju, Goiânia, Teresina e outras capitais. O DEM é o partido que mais cresceu. Faça-se justiça, em decorrência do legado de reestruturação, iniciado na presidência do então senador José Agripino. É a quinta maior legenda do país.

Acabou a bazófia do discurso antipolítica, que nasceu em 2018, quando o país mergulhava no caos. À época, o cidadão de boa-fé quis desalojar o PT do poder e não teve outra opção. Prevaleceu a audácia de Bolsonaro, com a pregação da “nova política”. Esse fato deve “abrir os olhos” do Presidente, de que não foi a direita conservadora que o elegeu, mas a rejeição ao PT e o desejo de mudanças. 

Com o final das apurações, cabem as indagações, se Boulos terá sido vitorioso e Bolsonaro derrotado. Vejamos os fatos.  Boulos chegou ao segundo turno em SP pela fragilidade eleitoral de Márcio França, Russomanno e do PT. Aproveitou o momento e mostrou a sua nova face de “cordeiro manso” e não convenceu. Perdeu pela larga margem de 20%, após aglutinar apoio da ultraesquerda. Não pode ser considerado vitorioso.

Já o presidente Bolsonaro não foi derrotado, até porque vacilou em apoiar candidaturas. Mas, as urnas lhe deram vários “recados”, que ameaçam a sua reeleição. Certamente, a primeira providência será filiar-se a uma sigla. O clima mudou e não dá mais improvisações como a de 2018. Aí estará a maior dificuldade. Na escolha partidária, ele terá que priorizar o PP e o PSD, as legendas que sempre combateu, ambas hoje alinhadas ao Planalto, no Congresso Nacional. 

Caso deseje outras alternativas partidárias, todas estarão associadas ao que já desqualificou como “centrão” e “velha política”. O Presidente arcará com o ônus de não ter acenado à conciliação nacional, após assumir o governo. Qualquer que seja a sua escolha, intensificará a tensão na sua base de apoio mais ideológica, que não vê com bons olhos essa aliança tida como "fisiológica".

Surgirão outras “dores de cabeça”. A primeira delas, as revisões inadiáveis na postura da política externa, a partir da vitória de Joe Biden, até hoje não reconhecida. O Brasil sempre preservou política externa “independente”, “aberta” e “pragmática”, ao invés da “imprevisibilidade” atual. Seria perfeitamente possível no tema do meio-ambiente, o país ainda liderar, pela via diplomática, uma “agenda verde”, que conciliasse a produção, com a preservação ambiental.  O que não pode é manter a política de “queimar as caravelas”. Afastado o sectarismo, a estratégia poderia até conduzir ao diálogo com John Biden, que talvez financiasse projetos de preservação ambiental na Amazônia.

Constituem ainda obstáculos para a sonhada reeleição, o negacionismo da pandemia e os vínculos próximos com alas fanáticas da chamada “teoria da conspiração”. Ninguém sabe se Bolsonaro irá reavaliar as suas posições e acreditar no diálogo democrático. O que se sabe é que, se não mudar, a reeleição ficará mais difícil. O “recado” das urnas foi claro.





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