O abraço da sanfona

Publicação: 2019-06-16 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Natural do município de Nova Cruz, Zé Hilton do Acordeon chegou em Pedro Velho aos três anos de idade. Logo cedo foi pra o roçado ajudar os pais. Depois começou a se meter em tudo que é canto para arranjar uns trocados. Um dia seus olhos bateram numa sanfona, foi amor à primeira vista. Aprendeu a usar o instrumento de forma autodidata, vendo os outros tocarem. E sanfoneiro tinha de ruma em Pedro Velho. Antônio Casaca, Timbó do Acordeon,  Luiz Preá, de cada um Zé Hilton tirou um pouquinho.

Quando estava com 15 anos ele se meteu na Festa do Boi para dar uma canja. Recebeu seu primeiro cachê e se empolgou. Na época ela estava fazendo bico na borracharia do irmão e num frigorífico. Largou tudo e abraçou a sanfona com força. Começou a tocar em tudo que é lugar: quermesse, arraiá, porta de mercado. Até que Messias Paraguai apareceu lhe convidando para fazer parte de sua banda. Era hora de Zé Hilton correr o mundo.
Zé Hilton se apaixonou pela sanfona ainda adolescente
Zé Hilton se apaixonou pela sanfona ainda adolescente

Foi morar Natal e de lá passou a sair para fazer show em tudo que é cidade do interior, e de outros estados. Se aperfeiçoou na sanfona, tocou com Dominguinhos, Nando Cordel, Xangai, Elino Julião. Com o grande nome do forró potiguar, aliás, foi até Portugal. Também se firmou como músico de estúdio, tendo gravado até o momento algo em torno de 400 músicas, com os mais diversos artistas.

Aos 41 anos, Zé Hilton do Acordeon é um dos compositores da linha de frente do forró nacional. Divide a autoria com seus parceiros da Usina de Hits, de sucessos como “Tentativas em vão”; “Escravo do amor”; “O que tem que ser será”, dentre outras músicas. Gabriel Diniz foi outro que também gravou canções do potiguar. “Teus olhos” e “Reapaixonar” foram lançadas pouco antes do acidente que tirou a vida de Gabriel.

“Faço música, faço show, gravo, ensaio muito. Eu sou um cara que vivo só da música. Mantenho minha família assim. Sou muito grato pela escolha que fiz, de ter abraçado a sanfona”, avalia Zé Hilton. Confira a entrevista.

Crescer em Pedro Velho

Eu nasci no sítio Lagoa Limpa do Fernandes, em Nova Cruz, fronteira com Passa e Fica. Com três anos me mudei para Pedro Velho. Cresci trabalhando no roçado com meu pai, pescando, indo pra rua vender fruta, castanha, verdura no carrinho de mão. Foi uma infância que eu gostei porque fiz muita coisa. Hoje moro em Parnamirim, mas vou à Pedro Velho toda semana.

Terra de sanfoneiros

Novinho também trabalhei na borracharia do meu irmão Romildo. Comecei a pegar na sanfona lá. Quando não tinha ninguém pra atender eu corria para o instrumento. Nessa época meu irmão me levava pra casa do povo pra tocar. Assim conheci outros sanfoneiros, como Antônio Casaca, Luiz Preá, já falecido, Timbó do Acordeon, que me deu muita dica. Pedro Velho tem muitos sanfoneiros. Até os mais novos se interessam. Tenho dois sobrinhos que tocam sanfona, e meu filho também toca.

As tardes no Quintal Bar

Na frente de casa tinha um clube, o Quintal Bar. Cresci assistindo as bandas ensaiarem durante a semana. E no fim de semana tinha os shows, mas ai eu não podia ir. Cheguei a fazer show lá quando tinha quinze anos. Eu acompanhei a banda Piratas do Forró. Foi a primeira vez que toquei com uma banda.

Do frigorífico para sanfona

Teve um período que eu era como freelancer. Trabalhava de tudo. Fazia uns trabalhos na Borracharia e outros num Frigorífico. Um dia fui pra Festa do Boi pra tocar nas barracas. Uma das barracas me pagou um dinheiro bom. Percebi que se continuasse tocando poderia tirar uma grana melhor que a do frigorífico. Ai me animei.  Uma semana depois um grupo de Montanhas me chamou pra tocar e fui. Foi quando passei a me dedicar à música. Deixei a borracharia e o frigorífico para abraçar a sanfona.

Tocar com Elino Julião

Cheguei em Natal ainda garoto. Vim pra tocar na banda de Messias Paraguai. Morava na casa dele, lá na rua dos potiguaras. Depois, com 17 anos, fui pra banda Cebola Ralada, foi quando conheci uma estrutura grande. Em Natal também fiz amizade com Jubileu Filho, de Currais Novos. Morava no Alecrim, me deixava passar um tempo na casa dele. Ele me mostrou muita coisa nova. Depois me chamaram pra tocar com Seu Elino Julião. Com ele fiquei quatro anos e conheci o forró autêntico de verdade. Também toquei com Domiguinhos, Xangai e Nando Cordel. Passei a gravar com muita gente daqui. Tenho mais de 400 gravações com a minha sanfona.

Música com Aviões do Forró e Durval Lélys

De tanto trabalho no estúdio conheci o Cabeção do Forró. Ele me procurou para botar uma sanfona na música dele. Daí criamos amizade, combinamos de compor juntos. Foi quando surgiu “O que tem que ser será”. No início ninguém queria a música. Diziam que estava totalmente fora do que o mercado queria. Nessa época a gente fez também “Escravo do Amor”, que de início o pessoal também não gostou. Falavam que parecia música evangélica com aquele negócio de “Ei, ele é rei”. Mas “O que tem que ser será”  é a música mais marcante pra mim. Depois vieram outros sucessos, mas essa foi a que primeiro mostrou a gente. Ela estourou. Aviões tocou no Fortal, Durval Lélys ouviu e pediu para o seu irmão vir aqui em Natal negociar com a gente os direitos pra gravar.

Tentativas em vão

Um dia cheguei com uma melodia para Cabeção. Dai fomos compor juntos. Surgiu “Tentativas em vão”. Mostramos para o pessoal e de cara ninguém gostou. Ficamos com ela parada um tempão. Quando o Cabeção foi pra Fortaleza eu disse pra ele oferecer de graça pra alguém, só pra ser gravada, ver se funciona. A Márcia Fellipe quis. Como era de Fortaleza, a história chegou no ouvido da equipe de Wesley Safadão. Ele não gostou, mas a cunhada dele pediu pra ele gravar. A música estourou. Até hoje ele agradece a gente quando canta.

Gabriel Diniz

Também já compomos para o Gabriel Diniz. “Reapaixonar”, que ele lançou alguns meses atrás, é nossa. Ele estava querendo algo novo, soube que a gente estava em Fortaleza e foi lá no hotel sozinho, de Uber, saber o que a gente tinha pra mostrar. “Teu olhos” é outra. Essa era uma música que estava um tempão com Wesley, mas não estourou. O Gabriel relançou pouco antes do acidente. É a música que todo mundo tá cantando pra lembrar dele.

Rotina de compositor

Quando os artistas querem algo novo eles chamam a gente pra mostrar. Pagam a nossa passagem, hospedagem de 10 dias pra trabalhar, tudo. Já fomos pra São Paulo dessa forma, Goiás, Fortaleza a gente vai direto. Composição ainda dá uma grana boa. Mas você não pode parar. Uma música dura uns quatro meses. Então, assim como no futebol, onde o atacante que não estiver fazendo gol sai, no mercado da música é a mesma coisa. Sem música ninguém do mercado te procura.

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