O amor que contamina

Publicação: 2021-02-25 00:00:00
Alex Medeiros 
alexmedeiros1959@gmail.com

Os amantes sempre morrem, um dia hão de morrer, mas o amor, somente o amor, resistirá ao tempo com a sua eternidade. Isto é fato e a ninguém cabe ou é permitido explicar. Tanto no aspecto do macrocosmo fictício, como nos romances tipo Romeu e Julieta ou Tristão e Isolda, quanto no microuniverso de um jovem e comum casal, como os americanos Christian Kent e Michelle Avila.

Pouco sabemos deles, apenas que em 2018 viviam com os seus pais, em Newport Beach, na ensolarada Califórnia, sonho de consumo dos surfistas nos delirantes anos 60, 70 e 80. Além de viverem sobre as ondas, como no desejo da canção de Nelson Motta interpretada por Lulu Santos em 1982, Michele (23 anos) e Christian (20) se amavam de forma apaixonada.

Não foi o surf que permitiu a ambientação para que o casal se tornasse célebre. O mundo tomou ciência dos jovens por causa do seu amor, que eles escancaravam com paixão, alegria e plasticidade em imagens postadas nas redes sociais. Indivisíveis em seu idílio juvenil, eram um só corpo em cada foto, em cada vídeo, em cada singela frase de declarações amorosas.

O francês François de La Rochefoucauld, que longe de ser filósofo ou poeta foi um aristocrata apaixonado por compor conceitos amorosos e poéticos, disse que “o que faz com que os amantes nunca se entediem de estar juntos é o falar sempre de si próprios”. Trezentos anos depois, Jean-Paul Sartre reeditaria isso afirmando que “O desejo exprime-se por uma carícia, tal como o pensamento pela linguagem”. A vida de Michelle e Christian era assim, uma bolha só deles, imune às desgraças e maledicências do mundo hostil.

Viviam apenas um para o outro, curtindo juntos o surf e as aventuras que o seu amor alimentava. O amor presente, sem pressa, sem adiamento e sem planejamentos que gerem dúvidas com o futuro. Eles eram a ilustração em vida da poesia de Chico Buarque em Futuros Amantes: “não se afobe, não, que nada é pra já, o amor não tem pressa, ele sabe esperar em silêncio...”

Eles contaminaram de amor as redes sociais, já naquele ano um ambiente afetado por ódios, frustrações, invejas e neuroses de toda espécie. As fotos, muitas fotos, postadas diariamente com juras de amor, com palavras de mimo e gestos de carinho de um para o outro, emocionaram pessoas de todas as idades, de tantas cidades, de várias nações. Eles choveram amor entre nós.

No entanto, em meados de outubro de 2018, eles saíram do mundo, se foram. Apareceram mortos, abraçados como nos romances que há séculos emocionam e ao mesmo tempo entristecem os mais distintos corações e mentes. A morte do casal foi um mistério para as famílias e a Polícia. Não houve sinais de violência, nem cartas de despedida, nem resíduos de substâncias proibidas. O quarto da garota, onde o casal foi encontrado morto, era um retrato da sua juventude e do seu amor; cartazes nas paredes, lençóis floridos, fotos do mar e deles, ela e Christian em momentos felizes, os mesmos que eles exibiam nas redes sociais e que conquistaram as pessoas.

No perfil do Instagram, a garota escreveu “A vida é uma aposta”, como a justificar as escolhas pelo estilo aventureiro e o gosto por música e viagens. Suas cinzas foram espalhadas nas águas do Hawaí, local preferido do casal, enquanto o corpo do namorado foi sepultado no mausoléu da família. Os corpos dos amantes se foram, mas ficou o amor, imutável como sempre. Acho que eles não saberiam se inserir no clima de histeria que viria em 2020.

Mas, quem sabe, como todos os amores adiados, um dia poderão ser elementos de estudo dos escafandristas do futuro, como cantou Chico. Ou voltarão juntos com todos os amores, procurando seus pares, como a gritar na imorredoura poesia de Maiakovski: “Ressuscita-me, nem que seja só por isso”. Porque todo o amor não terminado será recompensado com inumeráveis noites de luas e estrelas.

Créditos: Divulgação

Politicagem
No livro “A Morte da Medicina”, de Hélio Angotti Neto, um alerta para a ideologização da ciência médica, que assim como outras áreas foi sequestrada por discursos de manipulação política onde tudo é ferramenta de doutrina.

Carnaval
A pandemia acabou provocando uma coincidência histórica para a folia em Natal. Há 50 anos, em 1971, nossa capital teve o mais fraco carnaval de rua, após ter em 1969 um dos maiores do país. A história se repetiu neste 2021.

Queijo
Ganhador de um prêmio na França em 2019, superando 1.005 tipos do mundo todo, o queijo Serra de Santana, feito em São Vicente, vem conquistando paladares em Natal. Graças ao seu sabor original dos tempos dos nosso avós.

Cinema
O jornalista Rodrigo Hammer lança mais dois números do zine K, completando 80 edições abordando as obras dos grandes cineastas. Chega hoje na Saraiva do Midway e no Seburubu os perfis de Rogério Sganzerla e Max Ophüls.

Luto
Natal perdeu a estampa e a voz de Glorinha Oliveira, nossa estrela maviosa que atravessou as eras desde os auditórios radiofônicos até o YouTube. Se Núbia Lafayette foi a maior cantora do estado, Glorinha foi a rainha da capital.

Pelé
Uns ingleses escrotos fizeram da história do Rei do Futebol um panfleto esquerdopata com lamúrias retroativas de velhos cuecões do jornalismo, como Roberto Muylaert, José Trajano e Juca Kfouri. Até a Benedita entrou na farsa. 









Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.