O anjo me sorriu

Publicação: 2020-10-28 00:00:00
Alex Medeiros
alexmedeiros1959@gmail.com

Eu tinha só 9 anos em 1968. Meu irmão amava os Beatles e os Rolling Stones e eu adorava os artistas da bola, como Pelé, Garrincha, Alberi, Pancinha e Icário. Eram dias felizes e eu buscava a magia das brincadeiras, improvisando futebol com tampinhas de garrafas e caixas de fósforo, uma alternativa à insuficiência financeira da família que não podia dar-se ao luxo de comprar brinquedos fora do período natalino. Os botões niquelados eram caríssimos.

No rádio valvulado de última geração, eu ouvia os jogos do campeonato local, nas narrações impecáveis de Roberto Machado ou Hélio Câmara, os comentários de Rubens Lemos, Mário Dourado. Um dia anunciaram um amistoso entre Alecrim e Sport do Recife; meus olhos brilharam, o coração gelou.

Era um jogo beneficente com a presença dele, o mágico da camisa 7 do meu Botafogo; o gênio que encantou o mundo nas copas de 1958 e de 1962.

Natal era só um pedacinho de um Brasil em convulsão política, deslocado da conjuntura das passeatas estudantis, das greves de soldados e marinheiros, do jogo ideológico “militares versus militantes”. Eu queria os dribles de Garrincha.

Acordei com os pés em nuvens de alegria, aquela mesma emoção que brotava dos pés do ídolo e invadia o coração das multidões em festa. Um radinho de pilha espalhou pelo ônibus “roda pela vida afora e põe pra fora essa alegria...”

No meu entender de menino, o sucesso de Wilson Simonal naquele ano, Sá Marina, tinha uma relação com o futebol e mais ainda com o Mané, amigo do mítico cantor. “Dança que essa gente aflita se agita e segue no seu passo”.

Meu mundo era colorido, como pintava a geração hippie na moda da Jovem Guarda, feito a explosão das torcidas e as capas das revistas em quadrinhos; era como se cada manhã eu acordasse dentro de um filme, um seriado de TV.

No rumo do pequeno estádio Juvenal Lamartine, eu só pensava em Garrincha; a cabeça num caleidoscópio de imagens construídas nas narrativas sobre ele; só faltava uma trilha sonora de Buddy Kaye, como em Jeannie é um Gênio.

Minha satisfação era parte da felicidade da nação que, ao amar um anjo torto, esquecia o cotidiano, como dissera Carlos Drummond de Andrade: “Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas”.

Garrincha consagrou um povo e deixou para terceiros as glórias e os registros históricos. Porque ninguém foi maior do que ele em Copas do Mundo. Estraçalhou defesas em 1958 e ganhou a taça de 1962 com dribles e gols.

Sempre que ouço Moacir Franco na Balada nº 7 aflora na face aquele menino que eu fui: “Cadê você, cadê você, você passou, no vídeo tape do sonho, a história gravou”. As lágrimas rolam como bolas mágicas de lúdica saudade.

E é na saudade dos dribles gravados que eu sei que o gênio inocente jamais passará, comprovando o prognóstico de João Saldanha: “Nos próximos 400 anos, sempre que alguém falar em futebol vai ter que falar no Mané Garrincha”.

Mané será sempre um livro inacabado, aberto em folhas novas para que sua história vá ganhando capítulos “ad perpetuam”. O futebol todo dia se manifesta em coisas dele, como no grito de “olé”, no jogo do “bobo” e até no “fair play”.

Foi no México, driblando marcadores do River Plate, que Mané fez a arquibancada emitir o grito das touradas; foi diante do zagueiro Pinheiro, caído em campo, que ele atirou a bola para fora, chamando o atendimento médico.

Com o amigo e compadre Nilton Santos, num jogo épico contra o Flamengo, resolveu coroar a goleada botando na roda um zagueiro potiguar e outro cearense. Surgiu então a brincadeira do “bobo” que até hoje aquece craques.

Era louco e era deus, na expressão de Sêneca; “não há grande gênio sem um toque de loucura”. As asas de Hermes no voo rasteiro em ziguezague. Nos versos de Vinicius, todo seu encanto: “Feliz, entre seus pés – um pé de vento”.

1968 – 4 de fevereiro numa tarde mágica. “Garrincha, Garrincha, Garrincha”, gritei olhando o ídolo na camisa esmeralda. Num lançamento, chegou tarde na bola. Parou, mãos na cintura, um olhar para cima, um sorriso para o garoto que gritava. Garrincha, um passarinho, não passará até que todos passem. Hoje faz 87 anos do seu nascimento.

Nosso calo
Não é uma novidade o resultado da pesquisa da CNI que mostra o Brasil como o sexto país que mais gasta com funcionalismo público. A maioria esmagadora da sociedade trabalha para sustentar uma minoria devastadora do erário.

No fundo
Uma pena que nenhuma operação especial será realizada para investigar os gastos do Fundo Partidário durante a campanha eleitoral. Se correria o risco de um cancelamento generalizado do processo, jogando o País numa grave crise.

Corrupção
Ontem, no dia do aniversário de Lula, a Justiça Federal acatou denúncia do MPF contra o chefe do PT e mais Antonio Palocci e Paulo Okamoto, por lavagem de dinheiro com a Odebrecht. O novo crime envolve R$ 4 milhões.

Biografia
O escritor Fernando Morais está escrevendo a história do Zé Dirceu, um dos maiores cúmplices de Lula no assalto ao Brasil. Em 2008, após publicar a biografia de Paulo Coelho, Morais jurou não biografar mais personagem vivo.

Preservação
O deputado Vivaldo Costa solicita ao governo estadual a restauração da histórica casa do Barão de Serra Branca, em São Rafael, já tombada pela Fundação José Augusto. O local é hoje espaço destinado a invasores do MST.

Autoritarismo
Os discursos em favor de obrigatoriedades e as ações de censuras em diversas partes do mundo, revelam a face dissimulada da democracia. É a tirania de 50% mais 1 contra a outra metade representada em 50% menos 1.











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