Rubens Lemos Filho
O ano das multidões
Publicado: 00:00:00 - 23/01/2022 Atualizado: 16:52:19 - 22/01/2022
Rubens Lemos Filho
rubinholemos@gmail.com

No rigor didático do Almanaque Abril, enciclopédia anual cobiçada por 11 entre 10 brasileiros, a população de Natal, de acordo com o IBGE, chegava a 343.166 habitantes em 1976. Em nove clássicos ABC x América disputados naquele ano, passaram pelas bilheterias do Estádio Castelão, 294.529 pessoas, numa fenomenal média de 32.725 torcedores por partida, algo que jamais será igualado em tempos de arenas paquidérmicas.
Reprodução


O tempero emocional do ano das multidões nunca esteve sequer em sabor mediano. Sempre em alta. Desde que Alberi deixou o ABC para ir ao América que perdeu o atacante Reinaldo para o maior rival, num troco à altura como se, nos bastidores, houvesse um imaginário ringue com dois irmãos brigando: José Rocha, pelo bicampeão América e Bira Rocha, lutando pela retomada da liderança em preto e branco.

Emoções sacudiam bares e velórios, igrejas e transportes coletivos, salas de aula e prostíbulos. Nada seria ou será igual a 1976 na memória do futebol potiguar. Briga acirrada, dentes afiados, nervos à flor da pele, estádio transformado em teatro ou basílica em fervor rigorosamente igual na divisão entre os maiores clubes do Rio Grande do Norte.

O América conquistou o bicampeonato em 1974 e 1975 e seu charme ultrapassou as divisas do Estado pelas boas campanhas no Campeonato Brasileiro. Juntar os dois maiores craques da terrinha, Hélcio Jacaré e Alberi, parecera um duro golpe no ABC, em transformação geral com o desmonte do que restava daquele timaço tetracampeão em 1973. Dele, como emblema, o maestro Danilo Menezes.

O América estava convicto do seu primeiro tricampeonato. Seu meio-campo, ainda treinado por Sebastião Leônidas, significava um luxo em toque de bola: Juca Show, malandro de virtude inegável, Alberi e Hélcio Jacaré. O ABC, com Reinaldo no ataque, ganhava em volúpia e fome de gols.

Para a vaga de Alberi, a diretoria do ABC sacou o talão de cheques e contratou nada menos que: Zé Carlos Olímpico(ocupou o lugar de Zico nas Olimpíadas de 1972), Amauri, ex-Fluminense, Zé Carlos Henrique, do Fortaleza, Raimundinho, do Bahia, Joel Maneca, do Fortaleza e o jovem Zezinho Pelé.

A disputa da Taça Cidade do Natal foi um senhor aperitivo, posto que o Alecrim formou um bom time e brigou nas cabeças com os adversários mais fortes. O passional mexeu com todas as torcidas e as irmanou na dor pela morte do maior dirigente e comunicador esportivo do Estado: João Cláudio de Vasconcelos Machado, que daria nome ao Castelão a partir de 1989.

Carismático, gozador emérito, culto, anarquista, presidiu a Federação de Futebol por 23 anos. Um derrame cerebral calou para sempre João Machado no crepúsculo da noite de 20 de fevereiro, uma sexta-feira. Por sua causa, o velho Estádio Juvenal Lamartine voltou a ser o centro das atenções do futebol local. Foi numa das salas do JL que houve o concorrido velório do cartola-mor, sepultado no sábado à tarde no superlotado Cemitério do Alecrim.

A ausência de João Machado mobilizou a comunidade futebolista e as torcidas fizeram um minuto de silêncio seguido de longas palmas, antes de a bola rolar domingo, às 16 h30 para ABC x América numa das semifinais da Taça Cidade do Natal. O ABC estreava o lateral-direito Fidélis, presente na patética Copa do Mundo de 1966.

O América, recebia de volta o meia Garcia, que formava trio com Zeca e Alberi, Juca Show sumido do mapa em rotineira irresponsabilidade. Reinaldo não podia jogar, pois atuara pelo ex-clube na primeira rodada da competição. Jogo tenso. Um corpulento zagueiro, chamado Pradera, também encarava o primeiro duelo diante do América.

Aos 15 minutos do segundo tempo, os zagueiros Alberto e Queirós, do América bateram cabeça e a bola sobrou livre na grande área para Zé Carlos Olímpico deslocar o goleiro Sombra.  ABC fez 1x0, segurou o resultado, ganharia a Taça Cidade do Natal derrotando o Alecrim e começava a demarcar a virada sobre o América.

No ano das multidões, o ABC ganharia dois turnos, o América, um e a decisão terminou 0x0, alvinegro festejando o campeonato que não via desde 1973. Reinaldo foi artilheiro com 19 gols, vendido ao Santos(SP) por 1,5 milhão de cruzeiros. Nunca haverá outro ano igual a 1976.

Hoje

A coluna tentou mostrar, ao longo das últimas três edições, que antiguidade é posto no clássico ABC x América. A intenção foi a de ser o mais minucioso possível para que os jovens de hoje saibam que frequentam mera sombra do que já foi tempestade de explosão popular.

A partida de hoje não tem dono. Nunca houve, na história do clássico-rei, senhor absoluto dos resultados. A lógica existiu, claro,  quando um time era absurdamente superior ao outro, América em 1981 e o ABC em 1973, no tetracampeonato.

Desde a divisão sentimental da cidade, em 1915, quando um e outro foram fundados, quem entrou no Juvenal Lamartine ou no Castelão em dia de guerra, sofreu até o fim.

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