O ano letivo que não existiu na rede estadual de ensino do RN

Publicação: 2020-09-16 00:00:00
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Cassiano Arruda

Um ano diferente de todos os outros não vai terminar nem quando acabar a pandemia, responsável por toda essa revolução que modificou a vida de cada um de nós.

E ninguém - ninguém mesmo - nas duas pontas da vivência dessa enorme questão, se arrisca a fazer alguma projeção do que se pode esperar, assim como avaliar o que já aconteceu.

2020, para alunos e professores, continua sendo um enorme mistério. Inclusive para avaliar o passado; o que se passou nesses sete meses. - A questão da Educação é plural.

Com múltiplas visões: a do aluno, do professor, dos pais e de um novo personagem: - o gestor, como o pessoal da administração está gostando de ser chamado.

No Brasil, são diferentes visões. E mesmo em cada Estado são muitas as situações a serem analisadas. Aqui mesmo, no nosso Rio Grande do Norte, os alunos de parte das escolas particulares, estão voltando a ter aulas presenciais. O aluno da escola pública no RN já sabe que este ano não tem aula com professor e aluno na sala de aula.

NINGUÉM PREPARADO
No meio de tantas diferenças, existe um aspecto comum: Todos foram surpreendidos para enfrentar um problema que nunca havia sido previsto, em nenhum lugar.

Do mesmo jeito que na área médica, onde o tratamento foi sendo definido enquanto estava sendo ministrado, com o ensino a situação foi parecida.

Definida a necessidade de suspensão das aulas, cada um foi ver o que era possível fazer. Todos atendendo uma voz de comando muitas vezes repetida: - Fique em casa.

Para simplificar as coisas vamos concordar que na nossa escola pública serão 200 dias sem aula de verdade, as chamadas aulas presenciais. Isso porque 200 dias é o número mínimo de aulas que o governo exige por cada ano letivo.

Na escola particular existe uma expectativa de que possam ter ainda uns 70 dias de aulas, embora metade do alunado vá participar da aula presencial a cada semana, enquanto a outra metade continua no sistema remoto, com uma tabela de rodízio, para atender as limitações impostas pelas autoridades sanitárias. Tudo para evitar o retorno das infestações com o novo coronavírus.

O EXEMPLO DE MANAUS
A primeira capital no Brasil a retomar as aulas presenciais, Manaus, não registrou nenhum novo caso da covid-19 em sua rede de escolas particulares, nos dois meses seguintes.

A decisão de retomar as aulas em julho, foi baseada no diálogo constante com as famílias e as autoridades de saúde pública do Amazonas. Um plano de volta às aulas foi montado com base nos protocolos internacionais, a partir de seis eixos: distanciamento, higienização, uso de equipamento de proteção, maior espaço entre pias e banheiros, aferição de temperatura corporal e comunicação imediata se alguém apresente sintomas.

Na rede pública houve uma tentativa de retomada na mesma época, cancelada depois que 342 professores comunicaram ter contraído a doença, confirmando as previsões difundidas pelo sindicato da categoria para se pronunciar contra o retorno das aulas. Existem conversações para que haja uma nova tentativa na escola pública.

SEM AULAS
Com 200 dias sem aula, o Brasil conquista mais um título mundial. Não tem pra ninguém.

Uma visão de vários países, oferece um quadro com a interrupção das aulas em vários pontos. Na Dinamarca, por exemplo, as escolas públicas ficaram sem aulas presenciais durante 30 dias.

Na França foram 56 dias, na Alemanha, 68...

Em todo o mundo, o número de crianças infectadas pelo Coronavírus é em torno de 1% desse universo; e o registro de óbitos fica na casa de 1% daquele 1%. Mas no Brasil foi criado um movimento que terminou sugestionando os pais dos alunos, que deram força aos sindicatos dos professores contra a volta às aulas.

Para os professores que ficaram efetivamente com aulas virtuais, me revelou um deles, o pior é a falta de segurança na apreensão pelo aluno do conteúdo das aulas ministradas, ficando as provas aplicadas como a única forma de feedback possível. Em compensação está ficando um arquivo das aulas dadas à disposição dos alunos, podendo ser consultado inúmeras vezes.

O ANO QUE NÃO EXISTIU
- Esse ano não existiu, do ponto de visto do processo estrutural de ensino e aprendizagem.

A afirmação é da Presidente do Sindicato dos Professores do RN, Fátima Cardoso, que ainda tira uma carta de seguro, numa entrevista a Cláudio Oliveira da Tribuna do Norte:
-A realização de processos seletivos só privilegia os alunos da rede particular que tiveram 100% de acesso e alto investimento das escolas na aula remota. Temos professores que estão fazendo grande esforço na produção de aulas, para manter contato com os alunos, mas ainda é uma situação vulnerável e insuficiente para competirem com os alunos da rede privada.

As escolas particulares tiveram de fazer um grande esforço, até com manifestações de rua para voltar a ter aulas de verdade, proibidas pelo governo, e preparar melhor os seus alunos, sobretudo os que estão concluindo o curso médio.

Na conclusão do curso existe uma avaliação aceita por todos que termina num confronto com data marcada para ser realizado: 17 e 24 de janeiro do próximo ano, com a realização do ENEM. Escapando desta, há a inevitável avaliação do mercado que é implacável com os menos preparados.

São 17.657 estudantes das escolas públicas do RN que estão inscritos para o exame nacional que dá acesso à Universidade, o ENEM. E que, pelas palavras da Presidente do Sindicato dos Professores, não estão preparados para o exame. Aula presencial só em 2021. Se o Covid-19 não reincidir.








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