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O último alcaide
Publicado: 00:00:00 - 11/01/2022 Atualizado: 23:46:03 - 11/01/2022
Valério Mesquita
Escritor

Quando assisti a reprise do programa “Memória Viva” da TV Universitária que nos devolveu o estadista Dix-Huit Rosado, entrevistado por Carlos Lyra e Dorian Jorge Freire, não contive a emoção ao revê-lo e ouvi-lo. Procurei uma crônica que escrevera logo após o seu encantamento e decidi republicá-la. Só para relembra-lo e constatar a falta que faz ao mundo político de hoje um homem do seu nível e preparo intelectual.

Dix-Huit, da saga política dos Rosado, foi um samurai que edificou o país de Mossoró ao lado de outros obreiros, irmãos na argila e no sangue. De longe, sempre acompanhei a trajetória da família Rosado emblemática, carismática, atávica, mágica. Quando faziam política juntos representaram o santo mistério da unidade. O tempo implacável com as suas angústias, dividiu a família, plantando-lhe as sementes da discórdia. Sofridos, abatidos por tragédias, os irmãos se dividiram e sucumbiram ao peso medonho do insensato jogo do Poder e da política perversa - amor e perdição.

Mossoró, hoje é um país confederado. Um país de sobrinhos e primos beligerantes que desbotaram o rosado para a cor rubra e negra do próprio ofício desagregador. Fragilizou-se igualmente a Roma, quando dividiu o império para ser destruído depois pelos bárbaros. E o destino quase sempre trágico das oligarquias benéficas. Desde Dix-Sept, Mossoró teve tempos idos e vividos, consumados com tanta generosidade e autenticidade de espírito, com tanta sensação de perfazer a ventura da vida com grandeza e respeito interior, que hoje, morto Dix-Huit, não tenho como deixar de proclamar que os Rosado eram felizes e não sabiam.

Dix-Huit era o perfil do burgo-mestre com raízes telúricas e emocionais, daqueles que tem a cara do seu município e de sua gente. Dispunha de ineludível capacidade de reinventar o fluxo virtual da sua atividade, assumindo os contornos de um lirismo político inaugural que contrastava com a politicagem dominante na cidade.

Evidentemente, que outros fatores também contribuíram para a queda desse mundo político semidesaparecido. É preciso que se devolva a Mossoró o sentido e o rumor do humano, da civilidade, da paisagem e do tempo. A recomposição dos gestos e dos exemplos do passado, voltando-se a resgatar a Mossoró libertária, lutando, resistindo sempre, com paz e amor, portanto, ao som das mesmas canções eternas. Dix-Huit, mas do que um estadista: Um alcaide. Um exemplo.

Dix-Huit Rosado, nasceu em uma tradicional família potiguar de origem portuguesa. Tendo sido médico do serviço de saúde da Polícia Militar do Estado do Rio Grande do Norte. Foi prefeito do município de Mossoró por três mandatos. Deputado estadual de 1947 a 1951, deputado federal de 1951 a 1955 e de 1955 a 1959, senador de 1959 a 1967. Casou-se com Nayde Medeiros Rosado com quem teve seis filhos: Liana Maria, Mário, Margarida, Maria Cristina, Nayde Maria e Carlos Antônio. Foi agropecuarista, industrial, jornalista, médico e líder político. Preterido três vezes para o governo do Rio Grande do Norte. Hoje, procura-se um nome para o duelo da disputa eleitoral e não temos.

Dix-Huit não queria apenas exercer o cargo por questão de vaidade. Desejava sobretudo, para completar o mandato que seu irmão Dix-Sept Rosado exerceu por escassos cinco meses de governo, até o desastre do Rio do Sal, em Sergipe, no dia 12 de julho de 1951. A morte prematura do então governador foi a maior frustração na vida pública do Rio Grande do Norte para a família Rosado. Foi o último alcaide.

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