O último imperador italiano

Publicação: 2021-03-27 00:00:00
Alex Medeiros 
alexmedeiros1959@gmail.com

Quando a censura no Brasil liberou em 1979 a exibição de “O Último Tango em Paris”, o filme do diretor Bernardo Bertolucci que escandalizou o mundo em 1972, minha geração aos vinte anos tinha nas paredes do quarto um pôster do filme “1900”, feito por ele três anos antes, em 1976, e fundiria a cuca em 1980 (estreia no Brasil) com o roteiro transgressor do filme “La Luna”.

Quem viveu os movimentos estudantis do final dos anos 1970 (bateu saudade de Moisés Domingos), praticamente adquiriu – com uma obrigação ideológica – a enorme fotografia dos camponeses italianos marchando na cena icônica do filme “1900”. Era figurinha fácil nas barracas e toalhas da galera que vendia souvenires cults durante as politizadas reuniões anuais da velha SBPC.

No atraso de sete anos da chegada ao Brasil do polêmico filme em que Marlon Brando lubrificava Maria Schneider com manteiga, nós consumimos Bertolucci nas sessões tipo cine clube dos centros acadêmicos. Pouco tempo após conferir a obra que o popularizou, eu vi “Estratégia da Aranha”, baseado num livro do argentino universal Jorge Luís Borges.

Diretor, produtor, poeta e roteirista, Bernardo Bertolucci abriu um buraco de luto nos cinéfilos quando sua morte foi anunciada no final de 2018. Muitos fãs sequer sabiam que ele enfrentava um câncer. Morreu em casa, na cidade de Roma, de insuficiência respiratória.

Filho de um poeta e professor amigo do cineasta Pier Paolo Pasolini, logo cedo foi atingido pela magia do universo artístico, arriscando alguns curtas metragens com o seu irmão Giuseppe, estreando em 1962, com apenas 21 anos, dirigindo duas produções: “A Morte” (inédito aqui) e “Antes da Revolução”.
Virou auxiliar de Pasolini e decidiu beber na fonte de Godard e Kurusawa, os também cineastas francês e japonês já consagrados. As referências ao cinema noir e ao realismo cotidiano denunciaram a inspiração de Bertolucci em ambos. Em 1970, com “O Conformista”, ele apresentou seu cartão de visita ao mundo.

A trama baseada em livro de Alberto Moravia o ajudou dois anos depois quando lançou “O Último Tango em Paris”, abrindo as portas da distribuição, em que pese o choque moral das pessoas e a censura em alguns países, como no Brasil e no Chile, além da Itália, liberado só em 1987.

Polêmicas e debates intelectuais à parte, Bertolucci passou a ser tratado como um monstro da sétima arte com os filmes “1900”, um drama sócio-político da própria Itália (com Robert De Niro), e “O Último Imperador”, de 1987, em que um garoto é tirado da mãe para ser rei e viver recluso numa cidade proibida.

Após o duplo sucesso, sua criatividade explode nos anos 90 e nos presenteia com grandes obras, como “O Céu que nos Protege” (1990), “O Pequeno Buda” (1993), “Beleza Roubada” (1996) onde Liv Tyler brilha aos 19 anos; e entra no terceiro milênio em 2003 com “Os Sonhadores”, uma crítica ao maio de 1968.
Seu último filme, “Tu e Eu”, de 2012, é um retorno ao tema de “Os Sonhadores”, uma abordagem dos conflitos e alienações juvenis. Em quase sessenta anos de militância cinematográfica, Bertolucci nunca deixou público e crítica indiferentes às suas obras, garantindo assim que jamais será esquecido.

Créditos: Divulgação

Que tempos
Toda a catrevagem da corrupção, os espertalhões das emendas, os prestidigitadores das licitações, os capatazes de partidos de aluguel, todos camuflados de arautos morais e cívicos no discursinho em nome da ciência.

Fake news
Assim que se espalhou nos EUA a notícia dos assassinatos no Colorado, a imprensa esquerdofrênica (versão Folha em inglês) acusou o monstro de ser um cristão branco. Só que o safado se chamava Ahmed El-Issa. Entendeu?

Solidariedade
Eu sei que gente de bem faz o bem sem olhar a quem. E enalteço a rapidez com que o procurador Raimundo Nonato e os artistas plásticos Alfredo Neves e Wilton Bezerra se solidarizaram ontem com o violonista Giovani Montini

Mais Beatles
Já na segunda edição na Espanha, o livro “Beatles Para Palmípedos”, da jornalista Maria Carbajo Pascual, está perto de ganhar uma edição em português, pelo menos em Portugal. Mais perto do que longe de Pindorama.

Narrativa
O livro é uma revisão radical da história da banda, bem mastigada como diz no subtítulo, escrito para fãs e não simpatizantes. É dividido em 14 capítulos, sendo o primeiro “Big Bang” e os outros com títulos dos 13 álbuns históricos.

Cancelamento
A Fundação José Saramago emitiu nota cancelando para 2022 a 12ª edição do Prêmio Literário que leva o nome do escritor. No ano que vem será realizado com as comemorações do centenário de nascimento do grande autor luso.

Cancelamento II
Na França, o Sindicato Nacional dos Editores, que promove anualmente o Salão do Livro de Paris, suspendeu outra vez o evento (pelo mesmo motivo do ano passado). A pandemia segue atingindo em cheio o mundo das artes.

Meteoros
Itaperuna, Rio Bonito, Angra dos Reis, Búzios, Duque de Caxias (no RJ); Pato de Minas, Poços de Caldas (em MG); São Paulo, Cerqueira César, Morro Agudo (em SP), todas voltaram a filmar meteoros rasgando o céu da cidade.











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