O apóstolo do Bom Pastor

Publicação: 2018-11-04 00:00:00 | Comentários: 2
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Ramon Ribeiro
Repórter

Padre Tiago me recebe no casarão da rua Bom Pastor, um imóvel da Arquidiocese de Natal, de arquitetura antiga e com uma imensa e centenária mangueira na frente. O local lhe serve de residência desde 1968, ano em que desembarcou em Natal vindo da Bélgica, seu país de origem. Antes da conversa, o padre me pede um tempinho rápido para mostrar algo no computador. Era um documentário francês sobre as atrocidades cometidas nos campos de concentração nazista. As imagens eram perturbadoras demais, o que me deixou incomodado em ter que assistir aquilo até o final. Quando o vídeo termina, ele revela: “Nunca mostrei essas coisas pra ninguém. É absurdo como o homem pode ser capaz de odiar tanto. Um animal mata para comer ou para se defender. O homem é capaz de matar apenas para dominar. Foi por causa disso que decidi ser padre”.

Thiago era criança, na Bélgica, quando vivenciou horrores da guerra. Já adulto, conheceu D. Nivaldo Monte, que o convidou a ser missionário em Natal, então uma cidade pequena no nordeste do Brasil
Thiago era criança, na Bélgica, quando vivenciou horrores da guerra. Já adulto, conheceu D. Nivaldo Monte, que o convidou a ser missionário em Natal, então uma cidade pequena no nordeste do Brasil

Jacques Theisen, o Padre Tiago, está com 88 anos. Ele nasceu em Namur, uma cidade de 100 mil habitantes, distante 60km de Bruxelas, capital da Bélgica. Dos 10 aos 15 anos,  viu na porta de casa as barbaridades da guerra. Escapou com vida, foi atrás de estudar Filosofia e Teologia, até que em 1955 se ordenou padre.

Num dia qualquer, ele encontrou pelos corredores da universidade onde estudava uma figura que lhe chamou atenção. Era um potiguar, o arcebispo Dom Nivaldo Monte, que estava pela Bélgica à procura de novos missionários que pudessem o ajudar no Rio Grande do Norte. Dom Nivaldo o convidou a vir para Natal, explicou que a cidade ficava no Nordeste, a região mais pobre do Brasil. Ele topou a missão e em pouco tempo estava atravessando o Atlântico num navio cargueiro, sem saber uma palavra sequer de português.

Em 2018 o Padre Tiago completa cinco décadas de atuação marcante em Natal, sobretudo entre as camadas mais pobres da população. Foi ele o fundador das paróquias N. Sª Perpétuo do Socorro, nas Quintas, e Santa Maria Mãe, no conjunto Santa Catarina, na Zona Norte. Nessa região ainda construiu mais de 20 igrejas, sempre com salas de aula do lado para trabalhar com crianças da pré-escola. Não por acaso, chegou a ser considerado “O Apóstolo da Zona Norte”, pois abraçou a comunidade. Na área da educação, foi destaque com o projeto de Jardins de Infância, que atendeu pelo menos quatro dezenas de milhares de crianças, muitas delas hoje adultos formadas e com destaque nas mais diversas áreas.

Nesse encontro com o Padre Tiago no casarão do Bom Pastor, ouvimos um pouco de suas memórias e conhecemos mais sobre suas ideias:

Visão do inferno
Eu tinha 10 anos quando começou a guerra, morava na Bélgica. Presenciei o fuzilamento de 11 pessoas. Cheguei a ficar a 800 metros de um bombardeio que matou outras 500 pessoas. Vi a escola destruída, estava um calor danado, os corpos todos em pedaços, as pessoas jogando cal em cima para evitar contaminação. Vivi cinco anos de guerra, comendo apenas uma refeição por dia. Por isso quando cheguei no Nordeste e vi tanta gente passando fome eu fiquei revoltado.

Dom Nivaldo
Conheci Dom Nivaldo na Bélgica. Ele me convidou para vir para Natal. Eu só conhecia a Natal que era uma região na África do Sul. Fomos no mapa e ele me mostrou que a Natal que ele estava falando era a cidade que ficava no Nordeste, numa das regiões mais pobres do Brasil. Eu conhecia o diretor da companhia marítima belga/holandesa. Quando ele soube que eu queria ir para a América Latina, me ofereceu uma vaga num navio cargueiro que ia até o Recife.

Trabalho manual
Fiquei 14 dias no mar, com 40 marinheiros à bordo. Andei o navio todinho e descobri o valor do marinheiro. Falar disso me lembra a história do senhor. Morreu com 33 anos. Até os 30 anos ele não disse para ninguém que era o messias. Viveu como carpinteiro esse tempo todo, mostrando o valor do trabalho manual. Eu quando vejo os garis recolhendo a sujeira das ruas, correndo atrás do caminhão, eu admiro eles. São os mais desprezados. Seja sempre humilde na vida. Quem é você para se exibir para os outros. Vamos cumprimentá-los.

Um lugar deserto
Quando cheguei aqui não tinha nada. Só o Leprosário. Os belgas gostam muito dos leprosos, porque Damião morreu leproso. Fui lá viver com eles. Então eu ia celebrar missa lá no leprosário. Ia à noite, sem luz na estrada, sem nada, apenas eu uma freira e dois ou três acompanhantes. Ai num dia encontrei esse casarão no caminho. Perguntei de quem era, disseram que era da Diocesse. No dia seguinte fui lá. Passei um bom tempo morando aqui sem luz, nem água, apenas com um cacimbão.

A natureza por perto
O Bom Pastor era o bairro mais perigoso de Natal. As pessoas matavam as outras por aí. Lembro do Brinquedo do Cão com quatorze anos. Depois, bandido, ele vinha aqui me visitar. Conversava uns 10 minutos e ia embora. São tantas coisas de furar os olhos, como dizem os franceses. Mas estou rodeado de coisas boas. Olha aquela mangueira [ele aponta pela janela]. Tenho a natureza perto de mim, as galinhas, os pombos, os macaquinhos que vem aqui fazer companhia na janela da cozinha.

Minha meditação
Está vendo aquele pé de manga caído. Bem antes dele cair, um dia arriou um dos seus galhos doente de cupim. No chão tinham umas 500 pequenas mangas que nunca amadureceram. Eu pensei, se essa mangueira tem 100 anos e por ano ela dá pelo menos 500 mangas, ela teria dado em vida 50 mil frutos. Esta árvore de 100 anos podia ser hoje uma floresta de 50 mil árvores. Quando vejo uma pessoa na igreja, pra mim ela é uma manga.

Cadê o evangelho?
São nove receitas de felicidade aos bem aventurados. Você pega um cristão hoje e pede para ele lhe dizer duas, ele não sabe dizer. Na missa, por exemplo, se você perguntar para alguém qual foi o evangelho de domingo, a pessoa não sabe. Então você foi fazer o que lá dentro? Se sentar ao lado de alguém que não faz ideia de quem é e não se interessa em conversar com a pessoa. Depois vem como pai nosso. Pai nosso nada! Pra muita gente a história é apenas pai meu. O pessoal depois quer pagar promessa. Pagar a graça? Que história é essa? Turismo espiritual pra mim é uma das piores coisas que podem existir na base do dinheiro. Fazer um teleférico até uma estátua gigante? Para onde vamos? Cade o evangelho?

A árvore
A bíblia é o tronco e os galhos. As folhas são o que é dito. Os frutos, o que é feito. Árvore que não tem fruto, pow!, vai ser derrubada, ou então será deixada de lado. Jesus falava para ensinar o evangelho.

Gente que na verdade serve o dinheiro
A gente vê hoje homens se fazendo de protestante para puxar voto. Vai pegar no evangelho “A verdade o libertará”, da campanha da fraternidade, para fazer política. Gente que desvia a palavra de deus a favor de si mesmo. Gente que diz que segue o evangelho, mas na verdade serve ao dinheiro. Fazem barbaridades em nome de deus. A igreja é um lugar para unir, independente da raça e da condição financeira. É um lugar para quem quer dar um sentido a sua vida. Amar como eu vos amei, disse Jesus.


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Comentários

  • aniziosobrinho

    quero parabenizar , o repórter; Ramon Ribeiro,pela brilhante reportagem com o padre tiago. reportagens assim ,deixa o leitor aguçado por leitura .

  • mafatima.alencar

    Padre Thiago um dos homens mais inteligentes que já vi. Lembro um dia na minha casa eu reclamei a ele da minha filha que tinha sido batizada e crismada mais não frequentava as missas. Ele olhou para mim e disse minha santinha quando você tinha a idade dela vivia na Igreja cada um no seu tempo.rsrs