O audiovisual para a juventude

Publicação: 2017-11-04 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter


Embora ainda distante de uma dinâmica forte de produção, exibição e formação de público, o cinema infantil no Brasil tem um horizonte promissor. Em 2017 o segmento ganhará pela primeira vez um edital específico para o audiovisual infantil, demanda antiga de realizadores e produtores que atuam na área. O edital do Ministério da Cultura (MinC) será lançado em Natal, com a presença do secretário do Audiovisual (SAV), João Batista Silva, na segunda-feira (6), na abertura do Fórum Pensar a Infância, que pela primeira vez será realizado no Nordeste. O fórum é uma das ações do 15º Festival Internacional de Cinema Infantil (FICI), que acontece em Natal do dia 2 até 12 de novembro.

Carla Camurati: Muitas pessoas pensam a infância, mas poucos dispõem tempo para debatê-la. O fórum é um espaço para os participantes falarem das suas experiências
Carla Camurati: Muitas pessoas pensam a infância, mas poucos dispõem tempo para debatê-la. O fórum é um espaço para os participantes falarem das suas experiências

O Fórum será realizado dentro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em parceria com o Ministério da Cultura, entre os dias 06 e 10 de novembro, com entrada gratuita. Estão previstos encontros entre realizadores audiovisuais, educadores e pesquisadores, além de sessões especiais com crianças e adolescentes. Dentre os convidados estão o cineasta e pintor chileno Andrés Waissbluth, o diretor e roteirista pernambucano Paulo Caldas, o dramaturgo e diretor de teatro e cinema João Falcão, a professora e coordenadora pedagógica Vilma Guimarães, e o animador Andrés Lieban.

Idealizadora e diretora do FICI, a cineasta Carla Camurati está entusiasmada com o edital, mas diz ainda não ter os detalhes de quanto deverá ser destinado de recursos e de como a ferramenta funcionará. Em Natal por ocasião do FICI, a carioca conversou com o VIVER sobre o mercado audiovisual infantil, a maturidade do festival que está produzindo, os principais debates que devem se travados no Fórum:


Qual o papel do Fórum Pensar a Infância?
Muitas pessoas pensam a infância, mas poucos dispõem tempo para debatê-la. O fórum é um espaço para os participantes falarem das suas experiências, como a do diretor chileno Andrés Waissbluth com a produção do belíssimo filme “Um Cavalo Chamado Elefante”. Também vamos abordar questões referentes a dramaturgia, televisão. A professora Vilma Guimarães, de Pernambuco, é outra profissional importante, com rica experiência em projetos educacionais para o Canal Futura e o Telecurso. O fórum quer desenvolver a escuta e o pensamento na infância, fazer a sociedade se voltar para isso. Vamos falar sobre o que a gente acha de mais importante no Brasil para as crianças.

Pela primeira vez o Fórum está sendo realizado em dois momentos. Qual a diferença para o encontro realizado em setembro em São Paulo?
Pela oportunidade de estarmos realizando o Fórum no Nordeste, queremos focar nas experiências dessa região. Aqui se produz coisas muito boas e importantes para o país. O trabalho de teatro infantil do João Falcão, que é de Recife e também atua no cinema, por exemplo, é incrível. Ele tem um olhar lúdico e leva de forma muito positiva essa característica para seus filmes. Queremos conhecer mais o que é feito aqui.

O Festival Internacional de Cinema Infantil, que acontece paralelamente ao Fórum, está completando 15 anos. Ele está mais maduro?
É uma idade importante, reforça nosso caminho de amadurecimento. Quando criei o festival estava grávida do Antônio. Ele cresceu com o evento, viveu esse período importante de crescimento do audiovisual infantil brasileiro. Enquanto a sociedade não disser o que quer em se tratando de educação, não vamos crescer enquanto país. O investimento na infância é fundamental. É uma economia para a sociedade. E o o audiovisual como linguagem é algo muito forte nesse sentido. É o futuro da comunicação.

O que você destaca do perfil do FICI?
Desde o início senti que o festival tinha que ser internacional. O que se tinha de produção brasileira na época não fechava a programação. Mas não só por isso. Ter filmes de outros países ofereceria aos cineastas a oportunidade de ter contato com outros cinemas voltados para crianças.

Qual o futuro para o audiovisual infanto-juvenil brasileiro a partir do inédito edital da Ancine para o segmento?
Esse edital foi uma luta muito antiga que diretores, roteiristas, organizadores de mostras e demais profissionais travavam. Já conhecemos muito do que é feito no mundo e pudemos contribuir com o que a gente acredita que seja benéfico para o país. O edital vai proporcionar mais produções nacionais, mais conteúdo brasileiro. Mas não só isso. O audiovisual hoje é um dos mais importantes registros históricos da cultura que se tem. Então o edital também tem essa importância de fortalecer o registro da produção infantil, algo que não vinhamos tendo no país.

Como funcionará o edital?
Não posso entrar nos detalhes do edital até porque ele ainda não foi lançado. O que dá pra dizer é que só investir na produção não é suficiente. Nem sempre é possível atingir a todas as crianças do território brasileiro. É preciso mais espaço na TV aberta e o investimento em outras formas de exibição.

A Disney é uma referência para o mercado de produções infantis no Brasil?
A Disney é uma referência muito grande e distante pra gente. Não dá para vislumbrar produções e audiências no Brasil daquela magnitude. Mas podemos desenvolver as nossas características. Somos fortes no humor infantil. O filme DPA (Detetives do Prédio Azul), baseado na série, é um grande sucesso, por exemplo. É uma das sessões que mais bomba no festival.

Sobre essa perseguição a museus e exposições de arte, por causa de supostos conteúdos de obras impróprias para menores, você teme que algo do tipo possa chegar ao cinema?
Nessa polêmica sobre pedofilia em museus há uma série de equívocos. Mas prefiro não entrar nesse assunto. No Festival, a gente acha importante a indicação classificativa que o Ministério da Justiça dá para o conteúdo. Fazemos isso no festival desde a primeira edição. Não é censura, mas uma indicação. Fica a critério dos pais levar ou não os filhos para as sessões. É importante que esse direito seja respeitado. Conteúdos adolescentes, que tocam no amor, também recebem sua correspondente classificação indicativa. No site do festival detalhamos as informações sobre só filmes, com sinopse, imagens, trailer.

Como você vê crianças cada vez mais novas já familiarizadas com o Youtube e aparelhos de exibição de vídeos?
Tem um educador que diz que a sociedade está fazendo o inverso do que deveria ser feito. Ao invés de dizer para a criança sair do celular, se deveria ensina-la a utilizar melhor essa tecnologia, prepara-la para essa interface. O audiovisual não vai extinguir a escrita.

Como nasceu o seu interesse pelo segmento infantil?
Sempre gostei e lidei muito bem com crianças. Mas a ideia do FICI veio quando estava participando como homenageada num festival na Suécia. Na ocasião também estava acontecendo um grande festival de cinema para crianças. Fui visitar o evento e fiquei o dia inteiro lá. Vi aquele movimento, escola, famílias.Perguntei a mim mesma por que o Brasil não tinha algo do tipo. Ao retornar, tratei de articular o projeto.

E filmes, tem trabalhado em algum projeto novo?
Por enquanto não. Passei os últimos dez anos bastante envolvida com dois projetos enormes. Fui presidente da Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro, a obra de restauro do teatro levou muito tempo. Também fui diretora do conteúdo dos Jogos Olímpicos do Rio. Voltar agora com foco total no festival já está sendo um passo importante pra mim.


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