O barroco sertanejo de Ambrósio Córdula

Publicação: 2019-02-21 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

De Acari saem santos para o Brasil inteiro e até países da Europa. São os santos de Ambrósio Córdula, artista potiguar requisitado nacionalmente pelas esculturas sacras que reproduz com alta capacidade técnica no estilo barroco e certo toque autoral. O que, na opinião do curador da Galeria de Arte Antiga e Contemporânea do Centro de Turismo,  padre Jocimar Dantas, seria um nova leitura do barroco baiano, pernambucano e mineiro. “O barroco tradicional é muito carregado e extravagante. Nas peças de Ambrósio, ele consegue dar um toque diferente. Seus rostos são bem expressivos, mas com uma tonalidade diferente, é como se desse aos santos o rosto do povo sertanejo, diria até que potiguar”, comenta.

Ambrósio Córdula
Herdeiro do sobrenome forte na arte popular, Ambrósio Córdula produz peças sacras barrocas de rico detalhismo e um certo toque autoral

Filho do acariense Fé Córdula, artista naif que obteve reconhecimento nacional, Ambrósio trabalha com arte desde a adolescência. Começou entalhando couro e metal até chegar na madeira, a qual prefere a umburana. Aos 60 anos, ele já produziu peças sobre diversos temas populares, mas há pelo menos duas décadas se concentra no repertório sacro. Em seu atelier, em Acari, ele chega a produzir 20 santos nos mais variados tamanhos e posições por  mês. Também restaura obras históricas a pedido de igrejas. Para ajudar na grande demanda de trabalho, o artista conta com 10 assistentes, a maioria cria da casa. A rotina é de segunda à sexta, mas Ambrósio ainda vai no atelier aos sábados. A arte, segundo ele, é não só seu ofício e ganha- pão, é sua vida também.

“Comecei a trabalhar com madeira aos poucos, por curiosidade. No início fazia tudo sozinho. Aprendi a pintar, me aprimorei no barroco e quando ganhei segurança parti para fazer peças maiores. Recebo muitas encomendas de Pernambuco, Alagoas e Brasília. Já soube que minhas peças foram levada até para Roma. Em Portugal eu sei que tem muitas porque eu costumo trocar por material de pintura”, conta Ambrósio. Ele não lembrou, mas uma obra sua já foi até presente para o Papa Francisco – uma escultura em homenagem aos Mártires de Cunhaú e Uruaçu.

Padre Jocimar ressalta que, embora autodidata, Ambrósio pode ser considerado erudito pela técnica que desenvolve. “Ele trabalha com pintura em folhas de ouro, usa olho de vidro. Da escultura, é um dos nossos artistas mais completos”, afirma o curador da Galeria da Centro de Turismo. O local, inclusive, conta com 40 obras do artista em seu acervo.

Na opinião de Ambrósio, as peças de devoção são as mais difíceis. “Tem que ter expressão”. E quanto ao santo do qual é devoto, ele cita todos. “Quando o negócio aperta, a devoção aumenta”, brinca. “Mas tenho predileção pelas santas do nosso estado. Da Guia, aqui de Acari, Luzia, de Mossoró, Santana, de Caicó. Dos santos, gosto de São Francisco de Assis”.

Natural de Cruzeta, mas radicado há muitos anos em Acari, o artista comenta que no Seridó existe uma cultura forte de entalhadores. “Temos o Ivan do Maxixe e Dona Luzia, em Currais Novos, sei de outros ateliês aqui em Acari e de dois em Jardim do Seridó”, diz.

Dona Luzia, citada por ele, é, assim como Ambrósio referência em esculturas sacras. Ela, por sinal foi uma de suas mestres. “Visitei algumas vezes o ateliê dela. Mas não posso dizer que cheguei a frequentar. É é referência pra mim mais por suas obras. Aprendi muito observando suas peças”, explica. Em Natal, ele também cita outras referências da época em que residiu na capital. Como Jordão e Manxa.

Imagem barroca
Imagem sacra tradicional, as santas são a predileção do artista. Esta foi pintada a mão e está em exposição na galeria de Arte de Centro de Turismo, um dos locais de venda em Natal da produção de Córdula

Os Córdulas
Ambrósio é herdeiro de um sobrenome forte nas artes brasileiras. Seu pai, Fé Córdula, era um dos expoentes da arte naif.  Falecido em 2016, em Goiás, onde morou a maior parte da vida, o artista nascido em São Rafael ganhou reconhecimento com suas pinturas que expressam de modo simples e popular o imaginário sertanejo.

“Papai foi uma influência pra mim. Ele colocou todo mundo da família para trabalhar com artesanato. Lembro de quando a gente morava em Brasília e ia vender os trabalhos na Feira Hippie, lá na Torre de TV, nos anos 70 e 80”, recorda o escultor, que preferiu vir morar no Rio Grande do Norte enquanto seu pai seguiu em Goiás. “A gente conversava por telefone vez por outra. Papai era um homem de personalidade forte. A gente se admirava por fazer trabalhos diferentes”.

Outro parentesco de Ambrósio nas artes é com Raul Córdula, artista plástico, professor e crítico de arte paraibano. “Raul é primo do meu pai. Seu trabalho é completamente diferente do nosso. É de uma linha mais erudita, é professor de arte, tem uma galeria em Olinda. Da última vez que conversamos ele me mandou o livro dele”, conta o artista potiguar que raramente se afasta de Acari.

“Já recebi visita de estudantes aqui no ateliê. Como o espaço fica na beira da estrada da cidade,  é comum algumas pessoas pararem para entrar. E vez por outra aparece um colecionador garimpando alguma peça também”, diz Ambrósio. Quem não puder ir até o atelier, pode encontrar as peças do artista no site www.ambrosiocordula.com.br, ou na Galeria de Arte Antiga e Contemporânea do Centro de Turismo, cujo Instagram é @galeriadearte3852.











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