“O Brasil não vai cavar um fosso entre a Copa dos sonhos e a Copa do que é possível”

Publicação: 2012-04-29 00:00:00
Vicente Estevam
Repórter de Esportes

Na semana em que visitou Natal a fim de verificar com andam as obras da Arena das Dunas e os projetos de mobilidade urbana, o ministro Aldo Rebelo voltou a tranquilizar a população potiguar ressaltando que o processo da Copa do Mundo na capital potiguar é irreversível e que tem confiança que a cidade irá realizar uma bonita festa no período da competição. Ele também desafiou os deputados e jornalistas que acusam desvios de verbas no projeto, a apontarem em quais cidades está ocorrendo o problema. Rebelo também acredita que o país irá organizar uma competição sob medida entre aquilo o que é sonho e o que pode realmente ser realizado.
Aldo Rebelo, ministro do Esporte
Como o ministro vê o andamento das obras da Copa, com otimismo ou já existem algumas que estão preocupando o governo?

Temos de encarar esse desafio como uma tarefa de muito trabalho, muita eficiência, mas que não tem mistério e nem segredo. Essa é a vigésima Copa do Mundo, o Brasil organiza a segunda, há um padrão nas obras, nos desafios e nas ações necessárias para organizar essa Copa. O Brasil tem a Copa em alta conta, nós achamos que ela ajuda a trazer desenvolvimento para o país, gera emprego, renda, melhorias na área de engenharia civil, ambiental, na área de telecomunicações, turismo, mas também é preciso dizer que nem é a mais difícil e nem a mais importante das obras que o Brasil já realizou.

Qual o padrão de Copa que o Brasil pretende oferecer ao mundo: a Copa dos sonhos ou a Copa daquilo que é possível realizar?

Eu acho que o Brasil não vai cavar um fosso entre a Copa dos sonhos e a Copa do que é possível. Eu acho que a Copa dos sonhos é no Brasil por que foi o único país que participou de todos os Mundiais. A Copa dos sonhos é no Brasil por que somos o único país que ganhou cinco vezes a Copa. A copa dos Sonhos é no Brasil por que é o país que possui o maior artilheiro de todas as Copas e por que é o pais que ofereceu o maior número de astros, de grandes jogadores, desde a primeira edição da competição em 1930 no Uruguai. Ao mesmo tempo teremos de realizar nossa competição dentro daquilo que é possível, por que apesar de o Brasil ser a sexta economia do planeta mantém, mesmo num mundo carregado de dificuldades, uma economia ainda estável e em crescimento. O Brasil também vai tentar superar deficiências para organizar essa Copa. Aliás, a organização desse torneio é um desafio as nossas virtudes, as nossas qualidades, mas também será um desafio as nossas deficiências. Então o Brasil tem a condição de fazer da Copa possível a Copa dos sonhos, atingindo as expectativas do próprio povo brasileiro e da população mundial.

Quanto às exigências que a FIFA faz para um país sediar uma Copa, será que o Brasil não cedeu demais à entidade para poder organizar essa competição?

Nenhum país cede demais ou de menos, o país assina compromissos Todos os que se candidatam os assinam, pois se trata de uma pré-condição para se poder concorrer a organizador do Mundial. Os que antecederam o Brasil aceitaram esses compromissos e os que sucederão o nosso país na organização de uma Copa do Mundo: Rússia e Catar assinaram os mesmos compromissos. Tivemos de concorrer contra nações muito importantes para ter o direito de organizar esse mundial, porque a competição é um acontecimento virtuoso para o país que o acolhe.

Quando lançaram a ideia de candidatura do Brasil, que vem desde 2010, se falava que não haveria dinheiro público aplicado nos projetos para Copa do Mundo. Hoje o que se vê é muito dinheiro público aplicado maciçamente. O senhor tem ideia de quanto já foi investido pelo Governo nesta organização? Esse dinheiro terá retorno?

O governo não está investindo na Copa. O único dinheiro público aplicado na Copa é para construção de estádios e mesmo assim a título de empréstimo, com todas as garantias de qualquer outro empréstimo privado. O governo está investindo no desenvolvimento do país, dos estados e das metrópoles que vão receber a Copa. O dinheiro para o aeroporto do Rio Grande do Norte, não é para Copa. O dinheiro para a melhoria da infraestrutura de transporte de Fortaleza ou de Manaus, não é para Copa. São investimento que beneficiarão o desenvolvimento dessas cidades e todos eles já previstos antes de nós cogitarmos em fazer Copa do Mundo. A ampliação do aeroporto de Natal, a construção do aeroporto de São Gonçalo do Amarante não está ocorrendo devido a Copa, é por que Natal tem ampliado o seu papel como destino turístico, o seu destino de negócio para o Brasil e para o Mundo, a mesma coisa ocorre nas demais capitais. Nada do que está sendo feito sairá do país, a única coisa que os estrangeiros poderão nos levar e a taça de campeão, mas essa eu também acredito que ficará no Brasil. Dentro desse ponto de vista não há gasto com a Copa, mas o que existem são investimento que ocorreriam mesmo se não tivesse o Mundial.

Os estádios estão progredindo lentamente, em algumas cidades já são detectados um certo atraso nos projetos, atrelado a isso vem essa onda de greve em projetos para o Mundial. Esse panorama já começa a preocupar o governo?

Todos os desafios relacionados à construção de um estádio para Copa do Mundo assinalavam a possibilidade de eventos inesperados como as greves e licenciamentos que são próprios de um país democráticos. Logo, não vejo qualquer tipo de risco na construção dos estádios por que os cronogramas já foram planejados levando em consideração esse coeficiente de atrito, ou seja, a ação dos órgãos de fiscalização e controle e a possibilidade de movimentos trabalhistas previstos na legislação brasileira.

O governo vem realizando investimento, como o senhor mesmo disse, mas ao mesmo tempo o TCU se manifesta alertando para o risco de alguns estados estarem erguendo possíveis elefantes brancos, praças que não se auto sustentarão após o mundial. Como é que o ministro recebe esse tipo de alerta?

Eu não conheço essa opinião do TCU. Eu conheço todos os estádios, a forma como eles foram planejados, o papel que eles terão como equipamentos que serão úteis não apenas para jogos de futebol, mas para ajudar essas cidades a encarar os desafios de se tornarem destinos de outros tipos eventos. Alguns desses lugares muitas vezes são carentes de centro de convenções, espaços para realização de congressos, de conferências, a realização de espetáculos mais numerosos como é o caso de Brasília. Acho que todos os estádios são compatíveis com a grandeza das cidades onde estão sendo construídos. Qualquer cidade menor que Natal situada na Europa tem um estádio com as dimensões da Arena das Dunas, então eu creio que esses estádios são compatíveis com a grandeza, com o nível de desenvolvimento e com o futuro das cidades e das metrópoles onde estão sendo construídos.

O fato de termos quatro capitais do Nordeste escolhidas como sede da Copa, faz o governo pensar que isso será o suficiente para alavancar o desenvolvimento da região?

A Copa do Mundo é um fator para o desenvolvimento, mas o Nordeste vem conhecendo um grau de desenvolvimento importante e recente, muito antes de se falar em Copa do Mundo. Por isso creio que ocorreu justamente o contrário: foi o desenvolvimento do Nordeste que permitiu atrair a Copa do Mundo para Salvador, Recife, Natal e Fortaleza. Todas essas capitais já que conhecem — se tomarmos como referência indicadores como o turismo, da procura por serviços aeroportuários, o da elevação da renda da população mais pobre — um índice de desenvolvimento invejável, superior, inclusive, ao índice de desenvolvimento do próprio Brasil. Então eu creio que foi isso que ajudou a trazer a Copa, e a presença do evento, naturalmente, estimulará ainda mais a geração de empregos, a divulgação dos nomes dessas cidades nordestinas como destinos turísticos no Brasil e no Mundo e deixará uma herança importante para consolidar a vocação e o desenvolvimento dessas capitais.

Com o advento da Copa se falou também na necessidade de qualificação dos trabalhadores, das pessoas que terão contato direto com os turistas neste período, mas aqui em Natal esse projeto ainda não saiu do papel. Isso vem ocorrendo em outras praças? Preocupa o governo?

O Ministério do Turismo e outras instituições têm já um projeto neste sentido que deve atingir em torno de 200 mil pessoas, não tenho o número exato, mas a ideia é preparar e treinar esse pessoal para trabalhar na Copa do Mundo. Acho que essa será outra herança importante que ficará para as cidades-sede e acredito que Natal não deverá ficar de fora no âmbito desse projeto governamental.

Como anda a relação do governo brasileiro com a FIFA, aquele problema criado pelas declarações do secretário-geral Jérôme Valcke foram superados?

São relações normais entre o país que recebe a Copa e os organizadores do evento. Nós procuramos manter a relação em um ambiente de cooperação, respeito e de harmonia, porque achamos que se trata de uma questão importante neste tipo de relação. Quando ocorrem divergências naturais na interpretação de uma ou outra questão nós conversamos, negociamos com a FIFA e quando não há um entendimento prevalece sempre o interesse público, o interesse nacional que é o interesse do governo na organização da Copa do Mundo. Quanto ao episódio específico do secretário-geral, consideramos superado, houve uma resposta firme do nosso governo, logo após ocorreram reiterados pedidos de desculpa por parte deles e acho que agora o importante é organizar e realizar bem a Copa do Mundo.

Qual avaliação faz sobre a Lei Geral da Copa?

Já foi aprovada na Câmara dos Deputados de acordo com o projeto original enviado pelo governo, creio também que será aprovada no Senado, não há indicio de nenhuma dificuldade para aprovação dessa lei no Senado Federal.

A imprensa tocou muito no tema da liberação da venda de bebidas alcoólicas nos estádios, como o senhor encara essa situação?

O Brasil não vai alterar a legislação de bebidas a não ser para um episódio e um evento. Há no Congresso votações muito mais importante e radicais com a proposta de proibição da veiculação de comerciais de bebidas alcoólicas em rádio, jornal, tevê, espaços públicos. Não creio que venha adotar essa solução porque toda restrição, proteção contra os efeitos maléficos das bebidas precisam também de equilíbrio. Nós precisamos garantir a saúde, a segurança pública, mas precisamos garantir ao país um certo grau de democracia e de liberdade. Mesmo os países muçulmanos que adotaram a posição de receber a Copa tiveram também a mesma posição do Brasil. Ou seja, o que o país está fazendo é cumprir o acordo internacional com o patrocinador da Copa e que todos os demais países que já organizaram o Mundial também o fizeram e que os próximos também irão fazer. Tudo dentro da normalidade.

Romário disse que iríamos ver na Copa o maior roubo de todos os tempos. Como ministro do Esporte, qual a opinião do senhor sobre esse tipo de crítica?

Ele precisa apenas cumprir a missão dele como deputado federal, que é de fiscalização. Mas tanto ele quanto qualquer jornalista que fizer uma afirmação desse tipo tem o dever de apontar onde está a irregularidade. É em Natal? Em Recife? É em Fortaleza?  Aonde? Eu não vi nenhum fato concreto apresentado.

Em termos de fiscalização, os projetos da Copa inibem o desvio de recursos?

São mais de dez órgãos de controle, não há qualquer dinheiro público, nem privado que estejam sendo mais fiscalizados que os recursos aplicados nos projetos da Copa de 2014. As pessoas que torcem contra a Copa, seja por razão de convicção ou por razões políticas, eu acho que vão perceber mais adiante que o Brasil que já fez coisas muito mais importantes que uma Copa do Mundo e pode organizar perfeitamente uma competição desse tipo, embora tenha para mim que as pessoas que não acreditam em si mesmas, também dificilmente acreditarão no país.

O ministério do Esporte está realizando algum tipo de trabalho para que o Brasil possa desfrutar da condição de potencia olímpica já nos Jogos do Rio?

O país não pode se tornar uma potencia olímpica do dia para noite. Nós temos de investir em esporte educacional, esporte escolar, investir mais nos atletas que já temos, mas principalmente na turma que tem condições em chegar disputando medalhas em 2016 e investir em equipamentos. Não há como se pensar em ter boas participações nos esportes dissociando os atletas dos equipamentos e isso o governo federal está se propondo a fazer.

Quais informações que o senhor, lá de Brasília, tem de Natal em relação à Copa do Mundo?

São as melhores possíveis. O estádio está dentro do cronograma previsto pelo governo federal, temos convicção de que o estádio será entregue dentro do prazo previsto para receber a Copa. Temos otimismo também em relação às obras de infraestrutura que, com investimento do governo do estado, da prefeitura e do governo federal, ajudarão Natal a receber a Copa da melhor forma possível e a permanecer como uma cidade importante para o turismo do Brasil e do Mundo.

O atraso nos projetos de mobilidade nas cidades, inclusive aqui em Natal, não fez acender ainda nenhum sinal de alerta dentro do governo?

Achamos que temos tempo, essas obras podem ajudar na realização da Copa, mas havendo algum atraso provocado por contingencia da própria legislação do país, esse problema não comprometerá a realização da Copa de 2014 nem em Natal e nem em nenhuma outra cidade-sede.

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