“O Brasil virou um destino caro”

Publicação: 2010-11-28 00:00:00
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Sílvia Ribeiro Dantas
Repórter de Economia

O catarinense Abel Castro Júnior ocupa o cargo de diretor de desenvolvimento e novos negócios da Accor Hospitality desde o ano de 2006.  O executivo tem formação acadêmica em Turismo e Hotelaria, MBA em Marketing, com extensão em Negociação e realizou cursos sobre Gestão Hoteleira e Turismo, na Austrália e na Espanha. Nesta entrevista, o responsável pela expansão do grupo Accor – que inclui as marcas Sofitel, Pullman, Novotel, Mercure, Ibis e Formule 1 - em todo o território brasileiro faz uma análise do atual momento da hotelaria no país e conta alguns dos planos do grupo para o Rio Grande do Norte.

Como o senhor enxerga o turismo nacional, atualmente?

Abel Castro Júnior ocupa o cargo de diretor de desenvolvimento e novos negócios da Accor HospitalityA gente pode dividir o setor em turismo de negócios e de lazer, uma vez que os dois não estão na mesma sintonia. O turismo de negócios não para de crescer, e como tem uma relação direta com a economia do país, está bastante fortalecido. Percebemos que essa demanda se encontra em constante crescimento e é bom deixar claro que o turismo de negócios engloba não somente aqueles que viajam em buscar de promover negociações comerciais, mas também os participantes de eventos, como congressos, feiras e convenções.. Já o turismo de lazer está em outra realidade, por uma série de fatores. Hoje, um dos principais pontos que provocam essa realidade é a questão do câmbio, uma vez que com a valorização do real frente ao dólar, os brasileiros passaram a viajar pelo exterior, mas a circular menos dentro do Brasil. Então, os hotéis de lazer têm hoje um resultado inferior na operação, do que aqueles estabelecimentos voltados para a demanda de negócios.
 
Percebemos que a quantidade de turistas estrangeiros que chega hoje ao Rio Grande do Norte é bem menor do que o volume registrado antes da recente crise financeira internacional. Essa é uma realidade vista em todo o país?

Sim. Há um aspecto importante na questão dos turistas internacionais, que é o fato de estarmos vendo uma queda do fluxo, tanto neste estado, quanto no Brasil inteiro. Mas eu acho que, por outro lado, o Ministério do Turismo foi criado há oito anos e tem feito um trabalho absolutamente fantástico. Hoje, vemos o ministro Luiz Barreto desenvolvendo tudo o que foi planejado desde o início, com estratégias, planos e metas muito bem definidas. O que acontece é que, por uma série de  fatores, perdemos alguns turistas. Isso foi um pouco por causa de questões ligadas à aviação, já que a estrutura dos aeroportos é um dos principais gargalos hoje, e esse é um dos pontos polêmicos, para o qual temos que voltar as nossas atenções. Outro fator complicado em relação ao turismo internacional é a questão cambial, uma vez que o real está valorizado, fazendo com que qualquer pessoa que deseje visitar o país perceba que o Brasil se transformou em um destino caro, em relação a outros países da América Latina. E tem uma ação absolutamente necessária, que deve ser analisada pelo Governo Federal com muita atenção, que é a flexibilização do visto dos turistas americanos. Ela deve ser analisada com bastante cuidado, porque essa flexibilização pode ser responsável por mudar o cenário do turismo no Brasil. Isso porque será possível atrair uma demanda que hoje, além de não ser bem cultivada, tem barreiras. Dessa forma, acho que esse é um entrave importante, que deve ser mantido na pauta do próximo presidente.

Quais as principais dificuldades enfrentadas enfrentadas pelo setor, atualmente?

Quando falamos do setor hoteleiro, hoje há alguns problemas que o afetam com mais força. Uma das grandes dificuldades é a de encontrarmos terrenos disponíveis para a construção de novos empreendimentos, porque o mercado imobiliário está em um momento espetacular e disputamos esses espaços com interessados em erguer prédios residenciais, de escritórios, shoppings, hospitais ou lojas de varejo. A situação chama tanta atenção, que atualmente não há um único hotel sendo construído na cidade de São Paulo. Isso termina refletindo para os clientes, pois com o tempo poderá gerar uma dificuldade em encontrar hotéis para se hospedar, além de elevar o preço da diária. Mas, mesmo assim, continuamos em forte ritmo de desenvolvimento. Comprovar o que estou dizendo, vemos que durante 2009 a Accor teve 18 empreendimentos contratados e este ano, até o momento, foram 21. Outra questão é o financiamento, que normalmente os prazos e taxas estabelecidos não são muito adequados à atividade, mas por outro lado o Ministério do Turismo vem desenvolvendo um trabalho para alongar cada vez mais esses prazos, melhorando a carência e buscando taxas mais adequadas. Prova disso é que o Banco do Nordeste do Brasil (BNB) já está praticando taxas e prazos diferenciados, mas ele só está presente na região Nordeste e parte dos estados de Minas Gerais e Sergipe. Acredito que os bancos privados têm que entrar nessa atividade também.

A falta de mão de obra especializada também afeta a hotelaria?

Ainda não sentimos diretamente a questão da dificuldade em encontrar mão de obra, em parte porque, para minimizar essa questão, a Accor tem uma universidade corporativa, que forma as pessoas dentro da empresa, já há 18 anos. Mas começamos a perceber que em vários setores econômicos há a carência de pessoal qualificado e se há carência na construção civil, por exemplo, isso terminará por refletir na hotelaria, na hora em que planejamos erguer mais hotéis ao longo dos próximos anos.
 
Como o setor hoteleiro do Brasil está se preparando para a Copa de 2014?

É importante deixar muito claro que  a gente não pensa, em momento algum, em construir hotéis para a Copa do Mundo. Eu acho que no Brasil há um equívoco comum, principalmente por parte do Estado, que é o de fazer as contas de oferta hoteleira em função de assentos em estádios. É uma relação que a FIFA (Federação Internacional de Futebol) faz, mas não condiz com a realidade. Bom, o que posso garantir é que não faremos nenhum hotel voltado para o evento esportivo e seria um equívoco, no nosso ponto de vista, alguém tomar esse tipo de iniciativa. Estamos desenvolvendo hotéis, inclusive em todas as capitais que serão sede da Copa, porque o país precisa de hotel, com ou sem o mundial de futebol. Além disso, hotel é um tipo de empreendimento que precisa ser viável independentemente da realização desse evento, uma vez que após a Copa é preciso manter a sua operação. Um hotel é um investimento de longo prazo, que o empresário opta por um tipo de negócio, pensando em ter renda para a perpetuidade. Não dá para pensar em operar ao longo de um ou cinco anos, por exemplo. É um tipo de negócio que demanda investimentos altos, significativos, que devem gerar receita para a perpetuidade. Então, aconselho a nunca desenvolver um hotel para um evento pontual. Imagine que o retorno financeiro de um hotel é  obtido após um período de sete a oito anos. Dessa forma, é inviável construir um empreendimento desse tipo, voltado a um evento que tem a duração de um mês. Mas, mesmo assim, como já falei, nós estamos desenvolvendo hotéis em todas as capitais que serão sede da Copa e um exemplo claro que eu posso dar é o Rio de Janeiro, que é o melhor mercado no Brasil, onde há as maiores ocupações e, consequentemente, são praticadas as mais altas diárias. É um destino cobiçado por todas as redes, no qual há uma grande dificuldade de se inserir, por causa da escassez de terreno, provocada, em parte, pela própria topografia do lugar. Mesmo assim, a Accor contabiliza sete hotéis sendo construídos na cidade, incluindo um Ibis em Copacabana.

Então, a Copa do Mundo não provocará mudanças na hotelaria do Brasil?

Eu acho que a Copa do Mundo é importantíssima para o país, que vai ser fantástico trazer o evento para o Brasil, pois vai provocar uma exposição absolutamente maravilhosa ao redor do mundo. Entretanto, volto a destacar, não devem ser desenvolvidos hotéis pensando apenas em um evento pontual, como o mundial de futebol.
 
Falando da Accor, quais são os atuais planos de investimento da empresa para o Brasil?

Nós temos hoje um total de 142 hotéis em operação no país, mais 2 que abrem a operação em 1º de janeiro de 2011. Além de contabilizarmos 73 empreendimentos em construção no país. Isso mostra o tamanho do nosso apetite, em relação ao Brasil. A Accor é uma rede francesa, que chegou ao território brasileiro há 35 anos, pensando em se estabelecer no país e com o espírito de expansão. No Brasil, temos um crescimento muito forte, principalmente com o foco na hotelaria econômica. A nossa maior marca é o Mercure, que é um hotel quatro estrelas, mas temos outras, como Ibis, Sofitel, Novotel e Formule 1. Falando da América Latina, hoje contamos com 180 hotéis e há a intenção de chegar aos 300, até 2015.
 
Como o Rio Grande do Norte se insere nos planos de expansão da empresa?

Natal é uma cidade que adoramos e tivemos um hotel por muitos anos, o Novotel Ladeira do Sol. Foi uma parceria muito boa com o empresário Haroldo Azevedo, que se desfez recentemente, quando ele optou por alugar o prédio para a administração municipal e hoje o espaço abriga uma secretaria. Assim, atualmente, Natal não possui nenhum hotel da Accor em operação, mas temos um em implantação, da marca Ibis, que deve ter sua construção iniciada no primeiro semestre de 2011. Este hotel ficará próximo ao Machadão, mas preciso dizer que isso não tem relação alguma com a Copa do Mundo. O local é indicado para um hotel por ficar perto de secretarias do Governo do Estado e de equipamentos como shoppings. Ou seja, tem os elementos necessários e geradores de demanda, que são visibilidade, acessibilidade e vizinhança. Nesse caso, mesmo o hotel não sendo construído especificamente para a Copa do Mundo, acreditamos que o evento será muito bom para o empreendimento. Outra coisa é que temos uma grande possibilidade de desenvolver um hotel da marca Mercure no estado. Estão sendo promovidas reuniões com investidores há algum tempo, já temos um terreno identificado e estamos tentando finalizar a negociação comercial, para desenvolver esse equipamento. É nosso desejo, nossa obrigação, por não termos ainda um Mercure em Natal. Mas não posso revelar maiores detalhes, porque o contrato ainda não está assinado.

Há rumores de que a Accor tem interesse em adquirir o edifício Ducal, no centro de Natal. O senhor confirma essa informação?

Os proprietários do prédio entraram em contato, sim, com a Accor e nós conversamos sobre essa possibilidade, mas não tenho nada de concreto para dizer, a não ser que a negociação continua. Aquele prédio foi concebido como hotel e depois virou secretaria do município. Então, é natural que os proprietários busquem uma solução hoteleira para o edifício, que hoje se encontra fechado. Só que não temos como dizer nem com qual bandeira ele funcionaria, pois ainda é tudo muito preliminar. Na verdade, temos um outro projeto em Natal, cuja negociação está bem mais adiantada, mas também é muito cedo para fornecer detalhes.

 

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