O caçador de tatu - fim

Publicação: 2020-10-18 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Como dizia, na crônica de ontem, Senhor Redator, Manuel Vieira, o compadre ‘Vieirinha’, pelo jeito, era pessoa de casa, e morador da fazenda ‘Não me Deixes’. Homem pequeno, até meio mirrado, mas, como conta Rachel, pai de trigêmeos, para mostrar que o que vale é o que vem de dentro. Nas noites de noticiário sem graça, dando conta de enchentes invernosas, era ‘Vieirinha’ que chegava para contar velhas histórias, sentado num banco, debaixo de um pé frondoso de jucá.

‘Vieirinha’ não era homem de mentir e a história passou-se no povoado do ‘Choró’, perto do ‘Arraial dos Cassacos’, onde foi construído um açude grande, coisa de José Américo quando era ministro da viação, no governo Vargas. Bem cinquenta mil almas miseráveis amontoadas, com sede e com fome. Morreram tantos que eram enterrados em vala comum, pé com cabeça, restando vivos uns poucos velhos, mulheres e crianças sobreviventes da devastação da seca inclemente.
No meio do seu relato sobre os açudes que um governo começa, não termina e vai passando de mão em mão, cada um com suas ideias, Rachel confessa a decepção com Epitácio Pessoa, quatro anos de guerras políticas. Lembra que ele mandou parar tudo, fechar a Inspetoria das Secas, e a estiagem ali, castigando o povo pobre do Nordeste. É ela quem escreve: “Ah, as melancolias arrastam a gente para desvios tristes, e eu queria contar era só a história do Vieirinha, que é alegre”.

Na história, o caçador volta cansado e feliz, depois de quase uma noite toda de caçada, mas trazendo cinco tatus e uns três pebas. “Quando voltava - escreve Rachel - já os galos amiudavam, mas o dia ainda não clareava”. O caçador sabia da hora que tardava e tratou de ir logo ao curral a procura da sua jumenta, mas estava escuro que nem breu. Ora, conhecia seu animal de estimação e sabia pôr os arreios, a sela e os caçuás, jogar tudo dentro - os tatus, pebas, a enxada e a chibanca.

Mesmo assim, o caçador estranhou que uma jumenta velha e mansa parecesse de repente braba e agitada. Tudo pronto, montou no animal e saiu aos pinotes. A jumenta pulava daqui e dali, endiabrada. Homem afeito à montaria de bichos xucros, foi levando como podia, à espera do dia clarear e chegar ao seu arruado, quando sentiu a jumenta como que desembestar, perto da porteira. “Passou faiscando”, conta Rachel. Riscou no meio do pátio e de lá pulou bem alto e com força.

Nisto, o dia já estava claro. O caçador, espantado, viu que do pulo o bicho foi parar no olho de uma aroeira. E viu o que tinha acontecido: estava montado numa onça que, ainda de noite, enquanto caçava tatu, tinha devorado a jumenta e estava passeando no curral, de barriga cheia. Ele, pensando que era sua jumenta, dominou a fera, botou a cela, os arreios, e montou. Deve ter sido verdade. O compadre ‘Vieirinha’, com metro e meio, e pai de trigêmeos, não era homem de mentir.

Fim
É de desintegração o quadro da campanha da deputada Isolda Dantas, do PT. Com 36% de rejeição, sem discurso e sem a menor capacidade de luta, o petismo agoniza nas ruas de Mossoró.

Líder
O médico Judas Tadeu, tucano, lidera, e bem, as pesquisas em Caicó. Não bastasse ter o apoio de Vivaldo Costa, ele tem a unção do presidente da Assembleia, deputado Ezequiel Ferreira.

Maiores
Para um andarilho do Seridó, do Oeste e cidades vizinhas a Natal, o PT deve sair da eleição com grandes derrotas em Natal, Mossoró, Caicó, Parnamirim, Macaíba e em Ceará Mirim. 

Sacada
Criado na Escola Agrícola de Ceará Mirim, da UFRN, o ‘Curso Técnico em Cozinha’. Pode ser a semente de um futuro curso superior de gastronomia valorizando a cozinha brasileira.

Aliás
A percepção que faltou à Escola Doméstica, quando não evoluiu para criar a escola de altos estudos da alimentação na terra de Câmara Cascudo, o historiador da alimentação no Brasil.

Jogo
Pode não ser tão do agrado do governo o jogo das emendas parlamentares obrigatórias no orçamento 2021. A grana anda curta, é verdade, mas os deputados não abrirão mão de sua parte.

Lenço
Das garrafinhas com álcool-gel a 70%, o mercado foi mais além e já lançou os lenços desinfetantes com o apelo de venda: ‘o exterminador das bactérias’. Sem prometer matar o Covid.  

Remendo
De Nino, lambendo na ponta da língua o gosto do uísque, ao ressalvar os cultos de verdade: “Nosso intelectual conterrâneo é de corte e costura. Do tipo que prega, borda e chuleia”. 

2021
Começa na sessão de terça-feira, no plenário da Assembleia, o debate em torno da chamada - Lei de Diretrizes Orçamentárias, o orçamento do governo para 2021. Será o retrato mais completo e fiel de como será a vida no Estado e a capacidade de realização da governadora Fátima Bezerra.

Forte
O governo vai a plenário entre a cruz e a espada: um orçamento minguado, de um lado, e um sólido bloco de oposição, com dez votos, do outro. A governadora não pode perder de vista que 2021 será seu terceiro ano de gestão, aquele que exige a consolidação da imagem do governo. 

Noite
Como para avisar que é primavera, o caco de lua crescente contracena com Vênus sobre os morros, iluminando a noite esplêndida que já anuncia os dias longos e luminosos do verão. E a janela notívaga da torre que se ergue aqui de frente, aberta, como se convidasse para a noite entrar.