O caçador de tatu - início

Publicação: 2020-10-17 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação

Rachel de Queiroz era uma das admirações pessoais de Oswaldo Lamartine. Ela gostava de tê-lo perto, e afetuosamente. Às quartas-feiras, recebia uns poucos amigos, os mesmos, no seu apartamento, para vinhos e conversas sem pressa. Dizia ele que a autora de ‘O Quinze’, era encantadora ao contar as suas histórias. Relembrar velhos episódios vividos na infância, nos períodos de férias na fazenda ‘Não me Deixes’, do seu pai, no sertão do Quixadá, sua herança.

Aliás, Oswaldo gostava de dizer que Rachel conservou, integralmente, a casa que o pai mandou fazer para ela ficar perto dele, com o marido, depois do casamento. Tudo. Os alpendres, as cercas de faxina que mandava restaurar enquanto viveu; o galinheiro de engordar as galinhas; o chão da casa e dos seus alpendres que se derramavam sombreando as conversas, depois do almoço e do jantar. E assim viveu invernos e secas, até sua idade não deixá-la mais sair do Rio. 

Foi numa noite de conversa que ela confessou a Oswaldo o novo romance que estava escrevendo: ‘Memorial de Maria Moura’. Quando ficou pronto, pediu que Oswaldo verificasse se os costumes, as armas e objetos estavam compatíveis com o tempo real da narrativa. Ele fez uma cuidadosa leitura, principalmente das armas de defesa e de caça. Foi Rachel que o indicou à Globo quando o romance foi transformado numa minissérie. Oswaldo aceitou ser o consultor.

Leitor de toda a obra de Rachel, Oswaldo tinha uma predileção toda especial pelo livro ‘O Caçador de Tatu’, edição da José Olympio, 1967, número 35 da velha ‘Coleção Sagarana’, com capa de Luís Jardim que também é o autor do retrato de Rachel em bico-de-pena. Para não falar no pequeno tatu, também desenhado por Jardim, que encima e adorna o título de cada crônica selecionada por Hermes Lima, a quem ela dedica, afetuosa, assim: ‘...que fez este livro’. 

Admirava tanto a Rachel que um dia, ao ser convidado por Salvador Monteiro, o grande editor, para escrever o texto de apresentação de ‘Caatinga Sertão Sertanejos’, a bela e luxuosa edição documentadora da civilização nordestina, declinou do convite. Fez questão que fosse de Rachel de Queiroz. E foi. Tem aqui um exemplar, presente de Monteiro, por recomendação de Oswaldo. Edição fora do comércio, em perfeito estado, policromia sobre papel couchê. 

Veja, Senhor Redator, o que é um cronista já velho, com conversa comprida. O espaço da crônica acabou e não dei conta da notícia sobre ‘O Caçador de Tatu’, uma leitura de cabeceira de Oswaldo Lamartine. Tem nada não. Amanhã, quando esta pobre alma ganhar a doce preguiça das horas vadias, conto a história de Vieirinha. Metro-e-meio de altura, se tanto, que uma noite contou a história de um velho caçador de tatu. E que Oswaldo adorava ouvir Rachel repetir. 

LUTA - A prefeita Rosalba Ciarlini tem agora apenas quatro pontos sobre o candidato Alysson Bezerra e confirma a previsão desta coluna: vai ser dramática a luta nas terras de Santa Luzia.

ATENÇÃO - Mossoró espera o resultado da TCM, a tevê da cidade, que será divulgado na segunda-feira. Se o quadro passar de empate técnico a empate matemático soarão as trombetas. 

PERGUNTA - O que pode justificar o sigilo judicial de um processo que apura a gestão de recursos que não empresariais, mas passíveis de fiscalização pelo Tribunal de Contas da União?

EFEITO - Neste caso, o sigilo em torno do processo que apura a gestão da Fiern acaba sendo o grande estímulo, e legítimo, do direito da opinião pública de desejar saber o que há de sigiloso. 

ATENÇÃO - A soma das abstenções, nulos e brancos tende a ser superior à soma de 37% na eleição de 2018 em razão da pandemia. O que poderá alterar o cálculo do coeficiente eleitoral.

RISCO - Não há sinais de uma nova onda do Coronavírus no Estado. Certo. Mas, há um fato que chega da maioria das cidades do interior: lá é baixíssimo o uso de máscaras. E é um risco.

ALIÁS - Segundo a mesma fonte, a Zona Norte precisa de uma fiscalização mais intensa em razão também do baixo índice do uso de máscaras. Na medida em que a pandemia não passou.

ENGODO - O RN sempre acaba caindo no conto do desenvolvimento. E agora é virtual. De tempos em tempos, brotam as invenções de governos e instituições. E o RN sempre de menos. 

RECEITA - Flávio Rocha e a receita no seu artigo da ‘Forbes’, para os negócios no pós-Covid: tudo a partir de agora passa pela Internet e pelos meios digitais de pagamento. O varejo terá na loja virtual o novo espaço de venda, segundo Rocha, mesmo que as lojas físicas sejam mantidas.

BAHÚ - O editor Abimael Silva, depois da terceira edição de ‘Apontamentos da Faca de Ponta’, trabalha agora na edição fac-similar de um livro raro: ‘Bahú de Turco’, Recife, 1932, de Sá Poty, pseudônimo de Pedro Lopes Jr. O primeiro livro de poemas satíricos de um autor potiguar. 

CUIDADO - De um jovem observador da cena política vendo o prefeito sozinho nas telas, sem todos aqueles caciques tupiniquins que apoiam sua campanha, como nas outras lutas, mas agora sem exibi-los pedindo voto: “Ele é uma cobra criada. Sabe que esse povo hoje faz perder voto”.






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