O canto do Galo

Publicação: 2020-04-05 00:00:00
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Woden Madruga

Domingo que passou, indo nas trilhas dos 70 anos da circulação do primeiro número da “Tribuna do Norte” (24 de março de 1950), lembrei-me também do aniversário de outro importante jornal desta aldeia de Poti mais saudosa:  “O Galo” (1988), jornal cultural, de circulação mensal, criado pela Fundação José Augusto no governo Geraldo Melo. A Tribuna, septuagenária, continua viva, já “O Galo”, infelizmente, não conseguiu sobreviver, fazendo uma falta danada nestes tempos de becos e bicos.  Natal, que já teve em cada esquina um poeta e em cada rua um jornal, carece muito desses jornais de antigamente, mormente dos que dedicavam suas páginas à literatura, às artes, à cultura.  “O Galo” durante a sua trajetória foi destaque em todo o país. Lamentavelmente, nunca mais o seu canto foi ouvido.

Esta semana, mexendo nas gavetas dos papéis desarrumados e passando pelas brechas das estantes escoradas, tive a sorte de encontrar um exemplar do primeiro número de “O Galo”. Meu encantamento já começa na capa com o desenho de Newton Navarro. Magnífico! Um galo tão encantador quanto o galo de João Cabral de Melo Neto: “Um galo sozinho não tece uma manhã:/ ele precisará sempre de outros galos. / De um que apanhe esse grito que ele / e o lance a outro; de outro galo/ que apanhe o grito que um galo antes/ que como muitos outros galos se cruzem/ os fios de sol de seus gritos de galo, / para que a manhã, desde uma teia tênue, / se vá tecendo, entre todos os galos. ” (Do poema “Tecendo a Manhã”).

O galo de Navarro vai tecendo o amanhecer natalense. Nos traços do grande artista vê-se também o Convento Santo Antônio, suas janelas, seus telhados barrocos em declive, a torre da igreja com o seu galo em cima. A Igreja do Galo. Natal amanhece, o galo vai cantando. “Um galo sozinho não tece uma manhã: / ele precisará sempre de outros galos”. Do galo da Igreja de Santo Antônio. 

Vou passando as 24 páginas do jornal. Em cada uma delas, um craque, assinando suas crônicas, seus artigos, suas reportagens, seus textos, seus poemas. Cito os nomes, começando pela página 2: Carlos de  Souza, seguido de Augusto Severo Neto, Alex Nascimento (título da crônica de Alex: “Galo canta, macaco assobia”), João Gualberto (um poema: “A Dança da Vida”), Anchieta Fernandes, Jaime Hipólito Dantas, Socorro Trindad, Leopoldo Nelson, Felipe Varela, Eulício Farias de Lacerda, João Batista de Morais Neto (João da Rua), Américo de Oliveira Costa, Jorge Fernandes (a página 21, inteira, com a foto do poeta e, abaixo dela, seus versos: “Habitualmente vivo assim sorrindo/ O riso para mim exprime tudo!/ E no ato mais sério estando rindo/ Sou mais sério sorrindo que sisudo!” Nas páginas 22 e 23, Carlos Nereu, diretor de teatro, faz “Um balanço da cena potiguar”. Na última página, 24, um poema de Myrian Coeli: “Ode à palavra”, que começa assim: “A palavra trabalha com hábeis mãos. / Dela me sirvo à mesa/ com esses poucos gestos que saciam meus segredos” (...)

A edição inclui ainda um texto de Marize Castro, que era e editora do jornal, sobre o projeto “Verão com Poesia”, que foi realizado pela Fundação José Augusto, destacando os cartazes (“quase 50 outdoors espalhados pela cidade”).  Em cada cartaz, juntos,  um poeta e um artista plástico. Disse Marize: “A ideia era ‘casar’, numa combinação perfeita, poeta e artista plástico”. Tem    muita gente boa exposta com seus traços e sua poesia. Por exemplo: Zila Mamede e Luís Carlos Silva, Diógenes da Cunha Lima e Jayr Peny, Marize Castro e Marcelus Bob, José Bezerra Gomes e Oswaldo, Auta de Souza e Cristina Jácome, Deífilo Gurgel e Fernando Gurgel, Jorge Fernandes e Novenil. E muitos outros.

Destaque para a matéria com o título “Cultura potiguar eis a questão”, na qual estão expostas opiniões do poeta Jarbas Martins, do marchand Antônio Marques, da atriz Socorro Figueiredo, do crítico de arte Anchieta Fernandes, do artista plástico Vicente Vitoriano, do jornalista Geraldo Queiroz e do teatrólogo Racine Santos.

Quase todas as páginas de “O Galo” estão ilustradas. Palmas para os traços de Cláudio, Afonso Martins, Aucides Sales, Fernando Gurgel, Carlos Sérgio, Gilberto Alves, Andrian e Carlos José Soares.

Cantemos juntos
Releio na página 2 o editorial de “O Galo”, apresentando o primeiro número do jornal. Transcrevo alguns trechos, começando pelo começo: 

- Sempre que o galo cantar despertará o homem insone. O galo é o símbolo desta cidade. Aparentemente ele não tem o poder de vôo, não pode voar devido suas asas curtas e longas. Porém, o homem que enxergar mais além e ultrapassar as fronteiras do óbvio verá que a crista carnuda do galo faz com que ele realize voos interiores mais intensos e fecundos. O galo pode ser águia e voar por céus indizíveis, pode ser peixe e nadar com agilidade por rios caudalosos. O seu papel maior é o de acordar os que adormeceram por excesso de ócio, ou devido ao cansaço pela mediocridade que ronda certos terreiros das artes deste estado. ”

- Através da Fundação José Augusto e da Companhia Editora do Rio Grande do Norte, o Governo Geraldo Melo se dispõe a incentivar, divulgar e estimular os artistas, intelectuais e promotores culturais que se sensibilizarem e realmente acordarem com o canto de O Galo. ”
- A Poesia tinha que estar presente nesse primeiro número, pois o Dia 14 de Março, Dia Nacional da Poesia, não deixa de ser uma data para se refletir e repensar a poesia norte-rio-grandense”.

- Portanto O Galo canta e ovaciona a Poesia. Aqui não há lugar para pudores. O Galo também é crítico e sabe que a auto-crítica ainda é o grande antídoto contra a pieguice derramada e os deslizes emocionais. ”

- O Galo pode desafinar, entristecer, mas não baixará sua crista nem deixará de cantar. Está aberto a críticas e sugestões. Tem a dose certa de humildade e o orgulho necessário. Sabe que é imprescindível avançar além. Cantemos juntos”.

Revista
Está pronta para ser lançado o novo número da “Revista da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras”, correspondente ao trimestre janeiro, fevereiro, março deste ano. Falta apenas marcar a data, dependendo somente do fôlego do coronavírius. Do coronalivros, não.

Bela capa de Aécio Emerenciano. As frutas do pomar mágico do querido pintor. Na pauta da revista, entre artigos, ensaios, crônicas e poemas, tem os 70 anos da Tribuna do Norte, o centenário de Oswaldo Lamartine de Faria, o jornalismo de Zila Mamede (começando nestas TN), a poesia de Diva Cunha, a casa do poeta Jorge Fernandes, aspectos políticos da vida de Nísia Floresta. Muita leitura boa.
A revista é dirigida por Manoel Onofre Jr. e editada por Thiago Gonzaga.

Inverno
Abril começa como terminou março (o mês todo) com chuvas, muitas delas acima da média. Em abril vai ser igual, engrossando mais no Agreste e no Litoral. São previsões da Emparn. A região do Rio Grande do Norte que mais choveu em março foi o Oeste, média de 250 milímetros.

A Funceme divulgou nota afirmando que “o bimestre fevereiro-março foi o mais chuvoso do Ceará desde 1986 (...) um acumulado médio de 461 milímetros”. Na Paraíba, o município com mais chuva este ano (derna de janeiro) é Cajazeiras, no Alto Sertão, quase colado ao cariri cearense: acumulado de 1.200 milímetros.






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